Ariana Grande e Cynthia Erivo estrelam um filme capaz de burlar a soberania do original e se tornar a maior das referências.
Gregory Maguire – autor do livro Wicked – disse em algumas entrevistas que seu interesse como escritor, inicialmente, era falar sobre a natureza do mal; e de como ele não é exclusivo de “um certo tipo de pessoa”. Coisas más feitas com boas intenções são tão ruins quanto as coisas más feitas com más intenções. O caminho para chegar em Oz parecia óbvio: se eu quero falar sobre o mal, o que pode ser melhor que explorar a vida de uma bruxa (do jeito que as bruxas são no imaginário infantil)?
Adaptações literárias são uma dor e uma delícia para os fãs do cinema e da televisão. Geralmente, elas ocupam apenas duas posições: ou são excessivamente diferentes do original; ou são excessivamente respeitosas com ele; soando como cópias-carbono. Mais que isso: no exercício da edição feito pelo roteirista, fatos podem até sumir, mas a natureza primeva da história não pode se esvaziar. Wicked era sobre a natureza do mal; sobre como uma jovem excluída do mundo se tornou uma bruxa temida por todos; mas que antes disso era uma pessoa com boas intenções… Isso não poderia ser perdido.
Grande parte do público deste longa dirigido por Jon Chu será um público que já conhece o musical da Broadway. E vejam como é interessante pensar que a primeira referência não é o livro de Gregory e sim o musical de Stephen Schwartz. E musicais têm, essencialmente, uma natureza superficial inerente ao gênero. A complexidade de um musical não é uma exigência, mas um resultado possível diante de um olhar mais apurado. Temas como a superação, a amizade, o amor proibido; são esperados nessa estrutura; que honra a obviedade com lúdico – sim, porque não há nada mais lúdico que ver uma conversa se transformar numa música.
Wicked foi criado em bases que não se distanciam de sua inspiração. A trama conta os acontecimentos de antes do Mágico de Oz (esse escrito por L. Frank Baum); uma história bem mais difundida, mas que tem raízes igualmente singelas: uma menina vai parar na terra de Oz por acaso e com a ajuda de amigos fantásticos tenta encontrar o caminho para casa. Quando Dorothy chega à Oz, Glinda e Elphaba são rivais estabelecidas. Wicked volta no tempo para mostrar como as duas amigas acabaram “inimigas”.
A metáfora é imediatamente identificável. Elphaba nasceu verde e passou a vida toda sendo ridicularizada. Glinda nasceu privilegiada; e acha que terá sempre o mundo nas mãos. As duas passam a dividir o mesmo quarto por conta de uma circunstância e a proximidade vai mudar tudo a partir dali. Glinda vai precisar lidar com a ideia de não ser tão especial como imaginava; enquanto Elphaba descobre que ser muito poderosa e muito vista, nem sempre representa o sucesso. Contudo, pela primeira vez, ela está sendo vista.
A decisão do diretor em usar o máximo possível de cenários práticos foi essencial para deixar o mundo de Oz mais “realista”, sobretudo, porque, existe um nível de suspensão de verossimilhança que precisa enquadrar aquele universo, mantê-lo sob controle. É tudo muito claro, muito colorido, muito solar… sem a profundidade que os efeitos práticos proporcionam, tudo pareceria uma tela surrealista em movimento chapado.
As escalações de Ariana Grande e Cynthia Erivo foram outro acerto. Não só ambas têm o alcance vocal para darem conta de clássicos como “The Wizard and I” e “Defying Gravity” – conhecidas pelo grau de dificuldade – como também entendem o legado das personagens e aplicam nelas uma nova camada. Cynthia é mais dedicada a expressar as dores de Elphaba, enquanto Ariana confirma seu talento para fazer um texto cômico funcionar perfeitamente em suas mãos (algo que mesmo na sua breve participação na insana Scream Queens já era possível perceber). Sua Glinda é arrogante, mas não é antipática. Ela é delusional, mas é terna.
Dramaturgicamente falando, a adaptação deixou a história respirar. O segundo ato do musical é menor e ao mesmo tempo muito cheio de informações e acontecimentos. Com as mais de duas horas da Parte 1, ficou claro que a criação de novas cenas enxertam mais controle das tramas paralelas e enriquecem esse período das personagens na escola. Mais tempo proporcionou ao roteiro um alívio entre blocos; uma crescente maior da aproximação entre elas; um detalhamento de como a questão dos animais falantes afeta Elphaba, porque ela se vê refletida na marginalização deles; e indicou, indiretamente, que podemos ver a ação do segundo ato correr sem menos correria (!).
Para os fãs de Wicked, há momentos que são muito esperados; e é papel de uma adaptação como essa, responder a essa expectativa. Jon Chu não decepciona nesse quesito, tampouco. Ainda que as canções tendam a não serem executadas fluidamente (há um pequeno excesso de pausas para diálogos), a grandiosidade de momentos como o que encerra essa primeira parte está ali, cumprindo seu papel de deixar a plateia arrepiada; com tudo que tem direito… ângulos, luzes, efeitos e espetáculo. Wicked Parte 1 não deixa a desejar em nenhum aspecto essencial.
Porém, esse é um filme que funciona para o público como se fosse um clássico da Disney ou da Sessão da Tarde: ele acessa memórias afetivas, acessa uma admiração que está intrinsecamente ligada à constituição artístico-emocional de cada um. É um filme para alegrar quem curte a superficialidade emocional dos musicais; para quem curte a natureza viva dos clichês; para quem curte a expectativa confortável de saber exatamente onde tudo vai parar… Esse é um filme que compõe de maneira eficiente e orgânica, a ilusão do cinema e todo seu impacto sensorial. É uma espécie de megazord de tudo que funciona no coração dos servos da cultura pop. Não é um filme para os cínicos… Se você for, fique em casa; ou vá escondido e corra o risco de se esverdear como o restante dos súditos.
Em 2025 voltaremos à Oz; e a pergunta inevitável paira no ar: será que dá pra ser mais feliz?















