Ainda que tivesse uma mensagem tortuosa e problemática, Coringa (2019) construiu um estudo de personagem sólido, norteado pelas origens da loucura derivada do abuso e do deslocamento social, em uma atuação poderosa de Joaquin Phoenix.
A sensação depois de sair da sessão de Coringa: Delírio a Dois (Joker: Folie à Deux, 2024) e que nesses cinco anos de intervalo entre um filme e outro, a mensagem se perdeu totalmente e uma obra bem criada acabou se tornando refém de seus próprios devaneios.
Arthur Fleck está preso no Hospital Psiquiátrico Arkham, pagando pelos seus atos como Coringa, após os eventos do final do primeiro longa. Sua vida é uma rotina de sofrimento até que ele conhece Lee Quinzel, uma paciente de uma das alas de segurança mínima do local. Vendo nela tanto uma apoiadora como uma musa, Fleck conhece pela primeira vez o amor e embarca numa jornada fadada à desventura, enquanto mexe mais uma vez com os frágeis alicerces da estrutura social de Gotham.
A direção de Todd Phillips patina entre decidir qual foco tomar para contar a história, transformando o roteiro escrito por ele em parceria com Scott Silver em uma enfadonha tentativa de emular o mesmo vislumbre de assertividade que o primeiro filme teve.

“É tudo entretenimento”. É um conceito que é martelado a todo tempo pelo roteiro e que guia não só as tomadas de decisão de Phillips, mas também as ações do personagem de Phoenix, que após ser atingido pelo fogo da paixão, se vê como um protagonista de um universo musical, onde ele é um paladino incompreendido que precisa comprovar seu valor perante seus “seguidores” e a “mulher da sua vida”, enquanto também luta para conciliar suas duas “personalidades”.
Misturando musicais hollywoodianos com exemplares do cancioneiro americano, o filme cria uma noção de metalinguagem que tenta justificar tal decisão narrativa, mesmo que ela não acrescente em nada ao andamento do filme. Na verdade, ela atrapalha.
O tempo gasto com os números cantados parece gordura narrativa para justificar as duas horas e vinte minutos de duração do longa. São canções bem produzidas, que rendem alguns poucos momentos memoráveis e teriam mais impacto lúdico e narrativo se fossem reduzidas. No entanto, acabam rendendo apenas tédio e enfado, já que quebram a todo momento a construção de tensão e de drama criada pelo julgamento de Fleck, que deveria ser o principal argumento do filme.
É nele onde Phoenix e Lady Gaga brilham, imprimindo mais camadas de atuação em seus personagens, e onde a trama também constrói ligações com o filme anterior, dando o sentido que justificaria a necessidade de uma continuação.

Mas até a presença de Gaga acaba saindo pela culatra e se torna um dos pontos problemáticos. Vendida pelo marketing como uma personagem integral da história, com mesmo nível de importância do Coringa, a Harley Quinn interpretada por ela serve apenas como uma coadjuvante de luxo. A cantora/atriz cria um personagem competente, mas sem carisma. Suas motivações não têm força e ela sai da trama como entrou, apenas mais um item subaproveitado numa narrativa repleta deles.
Perdido entre o drama jurídico e a fantasia musical, o longa não decide o que quer realmente ser, rendendo uma obra inexpressiva e que carece de personalidade para arrebatar o público, assim como (para o bem ou para o mal) o primeiro filme fez.
Coringa: Delírio à Dois é uma continuação desnecessária, descambando para um final que tenta vender uma grandiosidade moral e autorreferente, mas que na verdade só serve para esconder a cretinice das escolhas duvidosas de Phillips e Silver. Um verdadeiro delírio coletivo de seus criadores.
*O Série Maníacos assistiu o filme a convite da Warner Bros. Pictures Brasil
















