Um episódio que marca o final da primeira parte do fim.

Spoilers Abaixo:

A concepção da última temporada de uma série é um trabalho que precisa ser feito com extremo cuidado. Os responsáveis pela produção não podem errar na elaboração de tramas, sob o risco de ter que desviar rotas no meio do ano final, o que pode comprometer definitivamente o desfecho das tramas. Por esse motivo, geralmente o planejamento dos episódios finais de uma série se dão de maneira antecipada, para que o espectador não se decepcione com pontas soltas demais, o que desperdiçaria todo um processo de produção. Chuck é uma série que tem a vantagem de sempre ter planejado a maior parte de suas tramas, distribuindo-as de maneira inteligente ao longo das temporadas. Entretanto, quando pela última vez precisou desenvolver uma história, cambaleou nos dois primeiros episódios com uma trama que não deveria ganhar um destaque excessivo nos últimos treze capítulos. Mas este Chuck vs. The Frosted Tips encerra essa parte da temporada de maneira coerente, mesmo que ainda irregular.

O episódio mostra a preocupação de Chuck com Morgan, que age de forma cada vez mais diferente do amigo que conhecera anos atrás. Logo ele descobre que o novo Intersect abandonou as Indústrias Carmichael para se unir a Gertrude Verbanski, traindo o melhor amigo. Mas, ao encontrar-se com Beckman, Chuck descobre que o Intersect não foi enviado a ele por ela, e sim provavelmente por Decker, o que explica o fato de Morgan mal lembrar-se de quem é, chegando ao ponto de terminar com Alex por SMS. Enquanto isso, o Team Bartowski recebe a missão de prender o responsável pelo vazamento de muitas informações sobre agentes da CIA, ao mesmo tempo em que Casey utiliza métodos pouco ortodoxos para reunir informações para chamar Verbanski para sair.

A maior preocupação deste início de temporada é o imenso destaque dado a Morgan, pelo fato dele possuir o Intersect. Mas aqui essa característica se torna um mal necessário, pelo motivo de o roteiro precisar encerrar essa parte da trama para poder seguir em frente nos próximos episódios. Assim, é interessante como o texto cria um Morgan cada vez mais insuportável aos olhos do espectador, justamente pra evidenciar o fato de o personagem estar terrivelmente mudado, já que o rapaz sempre foi um dos mais queridos da série. Dessa forma, Josh Schwartz e Chris Fedak conseguem justificar as preocupações de Chuck, que se mostram presentes inclusive na reação de Alex ao término do namoro, recusando-se a acreditar que o Morgan que conhecera seria capaz de fazer aquilo com ela. Por isso, não é por acaso que todos os títulos dos episódios até agora sejam referentes ao barbudo, escancarando mais uma vez a intenção dos roteiristas em trabalhar esse lado da trama de maneira direta logo no princípio da temporada, de forma a ter ainda mais dez episódios para o desenvolvimento e desfecho de outros personagens e tramas.

No entanto, a abordagem adotada por Schwartz e Fedak gera alguns efeitos colaterais que incomodam. Um deles é o inevitável desaparecimento de Chuck para gerar a oportunidade de destacar a mudança de Morgan. O protagonista da série acaba se tornando apagado por conta do investimento no novo Intersect. Dessa forma, não deixa de causar certa estranheza o fato de a série desperdiçar minutos preciosos ignorando seu personagem principal, mesmo que isso caracterize uma tentativa de torná-lo mais importante mesmo sem o supercomputador, tornando-o um elemento cada vez mais imprescindível para que o projeto funcione adequadamente. Assim, é compreensível a estratégia adotada pelos roteiristas, mas também é inegável que ela não funcione adequadamente por deixar de lado, ainda que provisoriamente, um personagem que sempre reinou absoluto na série.

Além disso, há outra característica que torna o desfecho narrado por Chuck vs. The Frosted Tips consideravelmente irregular. Semana passada, comentei que a traição de Morgan poderia gerar bons momentos se a série não procurasse a saída mais fácil, entrando em uma discussão genérica sobre o valor da amizade. Infelizmente, é exatamente dessa forma que o roteiro do episódio trata a situação, apelando para memórias passadas de Chuck para construir o problema de Morgan. É verdade que toda a história envolvendo as calças abaixadas do amigo-problema compõe ótimos momentos humorísticos, mas prejudica o desfecho da história, que torna-se incrivelmente simples, jamais conseguindo convencer o espectador de sua veracidade.

Mas não é apenas de Morgan e Chuck que vive o episódio. Dessa vez, o roteiro trata Casey de maneira mais consistente com a personalidade do personagem, evitando situações como a exibida no episódio anterior. Dessa forma, Schwartz e Fedak criam momentos típicos do ex-coronel, como plantar uma escuta em sua pretendente amorosa apenas para saber do que ela gosta. Aliás, uma das melhores cenas do episódio é exatamente o momento que antecede o encontro entre Casey e Verbanski, quando a estrutura insinua que a situação se trata de uma missão do Team Bartowski, quebrando a expectativa logo em seguida, construindo uma situação cômica incrivelmente eficaz. Só resta saber se Casey será tratado apenas dessa forma nessa temporada ou será trabalhado mais profundamente de forma a receber um desfecho com maior relevância narrativa.

Não é apenas com Casey que o episódio demonstra humor apurado. A existência de Verbanski também provoca situações cômicas interessantes, como a clara referência à Matrix, na cena em que Morgan evoca o famoso bullet time do filme, aproveitando a participação de Carrie-Anne Moss. Além disso, a forma com que o roteiro conduz o retorno de Beckman à série traz vários momentos de humor, mostrando a general chocada com o amadorismo ao qual definitivamente não está acostumada.

No entanto, alguns personagens de Chuck ainda não conseguem se encontrar na temporada, devido ao enfoque diferenciado da série que sacrifica alguns elementos que consagrou ao longo dos anos. Sarah, por exemplo, limita-se a ser apenas um apoio para Chuck e Casey, perdendo imensa parte do destaque que recebia até tornar-se esposa do protagonista. É impossível que Fedak e Schwartz passem toda a temporada sem dar à espiã a oportunidade de encerrar sua história de maneira relevante, mas tratá-la apenas como uma boa esposa não faz jus ao que a personagem representa. Além disso, Devon e Ellie parecem cada vez menos importantes, juntando-se ao núcleo da Buy More como elementos com participações esporádicas e sem importância narrativa.

O que definitivamente tem sido a pedra no sapato de Chuck, que ainda não consegue ser completamente regular no desenvolvimento de suas histórias. Mas é inegável que esse episódio consiga mostrar a agilidade narrativa característica da série, e evidenciar o planejamento cuidadoso do desfecho definitivo de Chuck.

@GabrielOliveira

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