A Rainha que Nunca Foi e seu destino que jamais deveria ter sido.

Em uma entrevista para a Variety logo após a exibição do já consagrado episódio 4 da segunda temporada de House of the Dragon, Eve Best, intérprete de Rhaenys Targaryen, disse que sua personagem parte para sua missão kamikaze porque aquela era sua “obrigação moral e espiritual”. Era intrigante pensar que numa guerra, a estratégia estivesse em segundo plano… Eve, é claro, passa Rhaenys por uma lente em que todas as suas atitudes são nobres e altruístas. Junto dela, em coro, estão os fãs apaixonados da série, que já usam expressões definitivas para elege-la como a grande guerreira de Westeros.

Mas… será mesmo que tudo era uma questão de força e responsabilidade?

Chegamos à metade da segunda temporada de House of the Dragon e tivemos, enfim, uma batalha entre dragões. A “dança” deu seus primeiros passos verdadeiros, levando a série a precisar tomar decisões importantes; despedindo-se de personagens e aumentando as tensões que vão levar a um impasse definitivo entre os Verdes e os Pretos. Foi o primeiro movimento de uma dança que só vai seguir sendo mais e mais sangrenta.

Aconteceram outras coisas nesse episódio, mas elas dificilmente serão lembradas pelos fãs quando esse episódio vier à tona. A HBO – essa danadinha – sabe treinar os seus para entregarem o maior apelo visual possível, afim de que pouco ou quase nada do que está abaixo da superfície seja verdadeiramente considerado e discutido. Não importa o que um personagem NÃO faça; o que ele faz – com espadas ou fogo – será soberano e predominante.

É sobre essa ótica que a maioria da audiência olha a batalha de Pouso de Gralhas. Considerando que no livro a morte de Rhaenys não oferece contexto emocional, coube aos roteiristas da série estabeleceram algum sentido para a decisão dela em não aproveitar a oportunidade de se retirar após já ter aniquilado o ataque terrestre de Criston Cole. A série precisava apresentar ao público uma justificativa plausível para o que resulta na morte da Rainha Que Nunca Foi.

A pergunta é: essa justificativa foi plausível?

De fato, os problemas com Rhaenys Targaryen já começaram na primeira temporada, quando os roteiristas quiseram dar a ela uma grande cena e acabaram bagunçando a própria carpintaria criativa. Isso porque, no livro, aquele momento em que Rhaenys adentra a coroação de Aegon II nunca existiu; e nunca existiu por uma razão muito simples: não faria sentido NENHUM levar a personagem até a coroação, fazê-la entrar quebrando tudo e matando inocentes; apenas para fazer uma ameaça vazia. Não podemos esquecer que os Verdes traíram a Rainha nomeada e para exigir o apoio de Rhaenys, mantiveram-na como refém. Considerando, ainda por cima, que a coroa ia finalmente para uma mulher, a passividade de Rhaenys acaba soando absolutamente ridícula.

Na ocasião da sequência, os produtores de House of the Dragon deram uma importante declaração:

“De acordo com o supervisor de efeitos visuais Mike Bell, a grande entrada de Rhaenys na coroação de Aegon foi originalmente um pouco diferente, o que na verdade é uma maneira bastante gentil de descrever o nível de derramamento de sangue que os produtores inicialmente queriam mostrar na tela. A cena do final do episódio 9 de House of the Dragon teria retratado visivelmente a carnificina causada por Rhaenys e Meleys, confirmando que ela iria “matar milhares de pessoas” nesta cena. Depois de decidir que o assassinato de milhares de inocentes não se alinhava com a personagem de Rhaenys Targaryen, a cena da coroação de Aegon foi ajustada para que sua saída de Porto Real fosse mais alta acima do solo e o número de vítimas fosse reduzido”.

Bom… guardem esse “não se alinhava com a personagem de Rhaenys” para daqui a pouco; vai ser muito útil para apontar outra das incoerências em torno da batalha em Pouso de Gralhas.

Assim como aconteceu com Game of Thrones algumas vezes, os produtores decidiam-se por uma cena com impacto e choque, mas que não era exatamente condizente com o vetor dos personagens. Mesmo assim, a coisa toda sempre acaba funcionando, porque foi lá, desde aquela coroação, que Rhaenys começou a ser envolvida por uma reputação de guerreira infalível.

Contudo, as coisas estavam começando a se desviar da rota… Quando a segunda temporada começou, os leitores do livro sabiam que alguns dragões ainda estavam escondidos por Westeros e que montadores precisariam aparecer na narrativa. Foi assim que Alyn, Hugh e Ulf foram sendo introduzidos na história. Alyn, inclusive, com uma storyline importante para o núcleo de Rhaenys, já que ele era um filho bastardo de Corlys Velaryon, marido dela.

A relação de Rhaenys com Corlys talvez fosse a mais saudável da série inteira. Embora ele tenha demonstrado discordâncias em relação aos Pretos, essas discordâncias nunca pareceram abalar o casamento efetivamente. Entre o episódio 1 e o episódio 4 dessa temporada, Alyn teve apenas UMA cena por episódio. E, de alguma maneira, o roteiro do episódio 4 estabelece uma certa melancolia quando ela passa as mãos no rosto de Alyn e comenta mais para si mesma “sua mãe deve ser uma mulher linda”; uma fala perigosa, que situada em um episódio em que a Targaryen praticamente se entrega à morte, constrói pontes que também não conversam bem com a natureza da personagem.

E eis que nesse contexto emocional esquisito, Rhaenys – que passou o tempo todo dizendo que não se devia usar dragões na batalha – prefere ir até Pouso de Gralhas sozinha. Essa decisão faz sentido considerando que Meleys é o único dragão experiente de quem Rhaenyra pode dispor se ela mesma não quisesse ir. Os outros dragões que os Pretos têm em volta são pequenos demais para lutar em uma batalha contra os dragões dos Verdes.

Estrategicamente falando, se só há um dragão páreo para a luta, é importante que haja um plano para usá-lo em favor de alguma coisa, mas sem correr riscos de perde-lo. Pouso de Gralhas, enfim, era um destino estranho para os Verdes; que ganhariam muito mais tentando conquistar Harrenhall. A partir do momento em que eles estão em Pouso de Gralhas, era de se esperar que talvez alguma artimanha estivesse sendo arquitetada. O episódio, inclusive, sinaliza a desconfiança de alguns personagens com aquele desvio para Pouso. Mesmo assim, Rhaenys vai sozinha e não só cai na armadilha, como se recusa a escapar dela.

No livro, as motivações emocionais de Rhaenys não estão expostas. Lá, ela também não escapa da batalha, mas não escapa por orgulho e sim porque tudo está acontecendo dentro de um caos. Não existe essa possibilidade de escapar tão visível e muito menos uma escolha consciente de retornar para uma morte iminente. De fato, a morte de Rhaenys coloca a situação dos Pretos num estado crítico: eles perdem uma montadora ágil, um dragão forte e um conselheiro. Sim, porque com a morte da Rainha Que Nunca Foi, Corlys tem a desculpa perfeita para desertar e se juntar aos Verdes.

O que Rhaenys ganhou? NADA. Aliás, até ganhou: a reputação de “fodaça” com os fãs.

Lembram do parágrafo lá no começo do texto, em que os produtores dizem que matar inocentes “não se alinhava com a personagem de Rhaenys”? Ela chega em Pouso de Gralhas queimando indiscriminadamente; o que até lhe dá uma meia vitória. Ela chegar apenas para queimar os soldados de Cole ou lutar apenas com o dragão de Aegon II seria totalmente compreensível. A partir do momento que Vhagar aparece, o mais “fodástico” a fazer seria bater em retirada; ela não tinha a MENOR chance contra o dragão de Aemond. Dizer que ela voltou baseada numa “possibilidade” de vencê-lo, é, no mínimo, um devaneio. Rhaenys Targaryen saiu de cena muito celebrada, mas é heroína de coisa nenhuma. Para uma personagem sempre tão centrada, aquelas decisões beiravam a completa burrice.

Enfim, apesar do espetáculo visual inesquecível, ficou uma sensação de deja vu. É uma pena que decisões criativas incoerentes continuem sendo tomadas apenas em favor do fan service.

A Rainha Que Nunca Foi… acabou sendo o que não devia.

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