Agora que Alicent e Rhaenyra sabem a verdade, por que a Dança dos Dragões continua?
Nem precisa pensar muito… Não existe uma só história sobre Reis e Rainhas em que o tema central não seja a sucessão. Quem assumirá o lugar no trono quando chegar a hora? Vá lá… é natural. Diante de uma posição tão importante, era de se esperar que tudo dissesse respeito à perpetuação do poder. O poder, inclusive, é um dos maiores temas agregadores de todas as grandes histórias; sendo a sucessão monárquica o subtema mais recorrente no gênero. Não precisa necessariamente que tenhamos uma coroa envolvida. Poder é poder. Linhagem é linhagem,
Em uma série sobre a Casa Targaryen, é claro que a vigência seria essa. Game of Thrones foi uma história que começou com uma Targaryen remanescente lutando por anos e anos para reassumir o trono que ela julgava seu por direito; enquanto quem estava sentado lá tinha sua posição constantemente ameaçada. Filhos bastardos e amantes incestuosos também estavam na receita. Nesse louco mundo de Westeros as coisas são assim, e ponto.
A grande sacada em House of the Dragon foi a maneira com a qual seus criadores decidiram dar o start para essa disputa: com Alicent, já conformada com a nomeação de Rhaenyra como sucessora, ouvindo o nome Aegon vindo de um já putrefato Viserys. Ele estava em devaneio pré-óbito; ela ouviu o que queria ouvir… E o destino de uma nação inteira foi selado baseado num absoluto mal-entendido.
E quem está dizendo isso é a série e não o livro. Mas, a gente chega lá.

Intolerância à Lactose
A ocorrência de Sangue e Queijo na estreia da temporada reverberou como a gente já esperava: o ciclo de “eu me vingo e você se vinga” foi estabelecido. A série decidiu continuar não seguindo os caminhos do livro no que diz respeito ao crime dos dois caçadores de ratos, mas o mais importante estava ali: um deles foi capturado e deu a informação mais importante: o mandante foi Daemon Targaryen. Era preciso, então, reagir adequadamente.
Para os Verdes e para os Pretos, só se reage “adequadamente” matando o oponente. Otto Hightower até tenta sinalizar outra opção. Sua ideia de expor o corpo de Jaehaerys pelas ruas de Porto Real é absolutamente competente; porque mostra para o povo como Rhaenyra é uma princesa desalmada. O problema é que Aegon II e Criston Cole tem uma agenda diferente e tratam logo de enforcar uma porção de caçadores de ratos que nem no castelo estavam. O plano de Otto é neutralizado e voltamos ao “agora quem mata quem”.
Criston Cole é um dos personagens mais odiáveis da TV ultimamente. Além de fazer cara feia e viver pautado pelo recalque, ele também entrou numa de provar-se como grande “estrategista de guerra”. Além de mandar enforcar inocentes, outra de suas primeiras ações como Mão do Rei foi escolher um pobre de um soldado para dar vida ao seu plano idiota de matar Rhaenyra. E lá foi Arryk, o gêmeo Verde; lutar contra Erryk, o gêmeo Preto; e o pior: por uma guerra que não é deles. No fim das contas, a ideia meio “Rute toma o lugar de Raquel” era boa… desde que os dois irmãos seguissem o roteiro maluco da cabeça de Criston. Então, mais baixas promovidas pela polarização do reino são providenciadas pelos Targaryens.
A escrita de House of the Dragon esse ano está muito mais madura que no ano anterior. Razão pela qual a briga entre Rhaenyra e Daemon no episódio 2 foi tão forte. Aquele diálogo foi construído de uma maneira em que a verdade e o exagero estavam ao lado de Daemon e Rhaenyra por igual: ele certo em dizer que Viserys só escolheu a filha para afastá-lo do trono; e ela certa em dizer que no final das contas Daemon só faz o que quer.
Essa qualidade textual – e também visual – apareceu de novo na briga entre os gêmeos. O livro dá três versões para o que aconteceu; e de novo a série acerta ou tomar uma quarta via, que ainda tem elementos do que está no livro, mas que é mais coerente com a fluidez dos acontecimentos. Arryk e Erryk foram vividos com muita competência pelos gêmeos Luke e Elliott Tittensor; e seu empenho foi recompensado com uma sequência muito boa, cheia de ação, mas também muito emocional e delicada.

A Verdade Não Liberta
A morte dos irmãos acende o alerta definitivo em Rhaenys, que pede à sobrinha Rhaenyra que arrume um jeito de parar com aquilo tudo. A partir daqui as mãos e mentes por trás da série têm decisões importantes a tomar. Desde o dia em que Rhaenyra se casou com Laenor Velaryon, uma trilha de péssimas escolhas e outra de terríveis circunstâncias foram correndo entrelaçadas como os fios da sequência de abertura. Em algum momento, essa base frágil em que se sustenta o conflito precisaria ser problematizada. O que não imaginávamos é que isso aconteceria agora.
No inicio desse episódio 3, conhecemos um pouco mais do conflito entre as famílias Bracken e Blackwood. Não sei se vocês se lembram, mas no episódio 4 da temporada passada, um Blackwood matou um Bracken enquanto ambos tentavam ser escolhidos como noivos de Rhaenyra. A briga das famílias não tem nada a ver com os eventos da Dança, mas assim que a Dança começa, cada família toma um lado diferente. O resultado disso é evidente: mais morte e mais massacre.
Embora essa sequência de abertura reforce como as qualidades visuais da série foram polidas, esse também foi um episódio prolixo. Uma quantidade vertiginosa de plots se cruzando me deixou com a sensação de que estava assistindo 4 episódios em um. Particularmente acho que todas as sequências envolvendo Aegon II indo “para a balada” e encontrando Aemond no bordel foram desnecessárias. Entendo que foram criadas para apresentar Ulf, mas talvez Ulf pudesse ficar para o próximo episódio.
Ulf, Alyn e Hugh, até agora, foram os três personagens inseridos quase aleatoriamente no enredo central da série. Alyn tem uma ligação com Corlys; Hugh é o ferreiro e agora sabemos que Ulf é um autoproclamado bastardo do irmão de Viserys e Daemon. Há uma explicação nos livros para a presença deles, mas temos que esperar para ver o que os criadores da série estão pretendendo.
Também acho que o plot de Daemon chegando em Harrenhall merecia um episódio mais organizado. Harrenhal é o maior castelo dos sete reinos; e no passado foi queimado por Aegon I, enquanto ele lutava para conquistar Porto Real. Harrenhall também é a casa dos Strong, lembram deles? Os filhos de cabelo preto de Rhaenyra são filhos de Harwin Strong; que junto com o pai Lyonel (que era mão do rei depois de Otto), morreu carbonizado em um incêndio no castelo. O incêndio foi armado por Larys Strong, irmão de uma das vítimas e filho da outra. Larys – que agora é o homem dos sussurros do rei – queria “agradar” Alicent.
Daemon já chegou em Harrenhall exigindo ser chamado de Majestade (o que meio que confirma o que Rhaenyra disse para ele). Daemon se interessou por Harrenhall pela mesma razão que os Verdes: sua posição geográfica privilegiada. Se a série seguir os acontecimentos do livro, a viagem de Criston e Gwayne (irmão de Alicent) pode levar até uma virada grande o suficiente para ser aquela que encerrará a segunda temporada, lá no episódio 8.
E então, precisamos falar sobre Alicent.
Se vocês fizerem aí uma pesquisa no Google sobre como é a Alicent dos livros, vão encontrar uma descrição segura, de uma mulher egocêntrica e ambiciosa, que apenas quer que seu filho seja o Rei, sem precisar de nenhum evento catalisador para isso.
O que acontece é que, sabendo que no mundo seriado as relações emocionais são ponto de partida para manter o espectador atento, os criadores de House of the Dragon decidiram redimensionar Alicent. Eles deram a ela uma proximidade maior com Rhaenyra e fizeram com que uma se importasse de verdade com a outra. Isso faria com que os eventos futuros tivessem mais peso.
Outra coisa que deram a ela foi aquela sequência do mal-entendido envolvendo Aegon. Aquilo não existe no livro, mas acabou sendo essencial para que o conflito ganhasse motivações complexas. Nenhuma das duas estava mentindo. Alicent acha que ouviu o que ouviu e Rhaenyra acha que o pai jamais a destronaria minutos depois de tê-la anunciado como Rainha. A beleza da coisa toda estava em sabermos que as duas eram vítimas de um engano.
A pergunta é inevitável: essa verdade era mesmo necessária? Será que a Dança dos Dragões não continuaria sendo muito mais dramática se elas só descobrissem essa verdade depois que o mar de sangue tivesse centenas de quilômetros de extensão? Para mim, a decisão de esclarecer o mal-entendido só tem uma função: acabar com o desvio que impedia Alicent de ser a vilã que ela é no livro, e fazê-la decidir-se por não acreditar no próprio erro, jogando no ar a oportunista e derradeira frase: é tarde demais.
Foi uma ótima cena; com tudo que uma boa cena tem que ter. E foi impactante, como os bons finais de episódio desse universo sabem fazer. O que eu não sei é o que isso vai fazer com Alicent; e como nós vamos responder a isso. De alguma maneira, é como se os roteiristas estivessem sinalizando que agora sim, a “culpa” da Dança tem nome e cor.
Eu preferia quando a culpa era do erro.
Coração de Dragão (com a voz do Miguel Falabella)
- O nu frontal de Aemond até que foi bem feito. Mas, nunca vi um pênis tão fake quanto aquele na cena da felação. Ou façam melhor que Calígula (onde tudo era real) ou nem façam.
- Helaena continua mais figurante que os soldados do castelo. Coitada.
- No livro, Rhaenyra manda a enteada Rhaena para longe levando apenas Joffrey. A série mandou Aegon III junto, o que me deixou intrigado. No livro, Joffrey e os outros dois vão para lugares diferentes; e Aegon III e Viserys compartilham uma grande tragédia. Não dá pra saber o que vai ser feito na série, porque além dessa separação não ter acontecido, as idades dos filhos de Rhaenyra são muito diferentes do que temos no livro.
- Lembrem-se da Mulher de Preto dizendo à Daemon “você vai morrer aqui”. Acreditem em mim: vocês vão querer lembrar disso.
- Fiquei só vendo os roteiristas fazendo Rhaenyra executar o plano de entrar em Porto Real num piscar de olhos.
- Cole cortou as madeixas que pareciam fazê-lo parecer ter sido o único a não ter envelhecido um só dia enquanto todo o resto do elenco sim. Agora ele parece o único que não envelheceu um só dia, mas de cabelo curto.













