
Aos poucos, esta temporada torna-se tão irregular quanto a anterior.
Spoilers Abaixo:
Como todas as pessoas no mundo, roteiristas estão sujeitos aos mais diversos vícios em suas profissões. Esse é um dos muitos fatores que separam uma pessoa de talento de um profissional comum, sem nada a acrescentar. A diferença é que em séries de TV existe uma possibilidade muito maior de vícios aparecerem e incomodarem ao longo de todo o desenvolvimento de uma produção. Em The Mentalist, estes apareceram de forma relativamente antecipada, logo na segunda temporada da série. Por isso, o ano seguinte os mostrou ainda mais explícitos, afastando muitos espectadores da série. Assim, Bruno Heller ameaçou mudar as direções de sua criação, mas, mesmo conseguindo em alguns episódios, em outros acaba recaindo nos velhos erros. Where in the World is Carmine O’Brien? é um grande exemplo disso.
O episódio narra a investigação sobre a morte de Marnie Green, policial encontrada próxima a seu carro. Jane logo descobre que a oficial não morrera exatamente naquele ponto, mas que fora carregada no porta-malas da viatura até aquele local. Enquanto isso Lisbon encontra-se por acidente com seu irmão, Tommy, e sua sobrinha Annie, que procuram um criminoso chamado Carmine O’Brien. Lisbon não concorda com a nova carreira do irmão, não acreditando que ele seja capaz de obter sucesso nessa profissão. Por isso, começa uma pequena guerra em família, com os dois disputando pela custodia de O’Brien, que torna-se um dos suspeitos do assassinato de Green.
Pela primeira vez em muito tempo, The Mentalist investe em Lisbon como um de seus focos principais. O problema é que a introdução de sua família na história ocorre de maneira repentina e equivocada, sem que Tommy e Annie sejam explorados de forma conveniente. A garota ainda consegue estabelecer uma interessante dinâmica com Jane nos primeiros minutos, mas desparece durante praticamente todo o restante do episódio, voltando a ser importante apenas nos últimos momentos. Já Tommy se mostra um personagem desnecessário, não acrescentando absolutamente nada à trama ou à caracterização de Lisbon. Dessa forma, o irmão da líder da equipe acaba como uma pessoa sem motivações, demonstrando uma falta de interesse do roteiro em explorá-lo de maneira mais convincente, o que torna toda a trama da desaprovação de Lisbon superficial e nada natural.
Esse destaque dado à família Lisbon sacrifica grande parte de Where in the World. Por conta dele, Jane desaparece, deixando de ser um personagem de imensa importância de outras ocasiões. Aliás, o episódio deixa claro que o consultor é de fato a alma da série, além de exibir uma falta de tato por parte de Bruno Heller, ao deixar seu protagonista de lado em um momento em que ele deveria ter sua personalidade explorada pelo roteiro. Provavelmente o problema não seria tão grande se Jane de fato ficasse de lado no episódio. Mas não é isso que acontece. Após passar a maior parte do episódio fazendo apenas aparições pontuais e muitas vezes irrelevantes, novamente é ele o responsável pela solução do caso, evidenciando mais uma vez a inutilidade do restante da equipe da CBI, tornando o foco dado a Lisbon ainda mais desnecessário.
Mas não esses os únicos problemas do episódio. Da mesma forma que a inserção de Tommy na trama, os acontecimentos que envolvem o restante dos personagens jamais conseguem deixar de ser artificiais. O atropelamento de Cho, por exemplo, ocorre sem propósito algum, desperdiçando preciosos minutos que poderiam ser utilizados para algo mais relevante. É verdade que a tentativa dos roteiristas é evidenciar o amadorismo de Tommy, incapaz até de manter outros policiais ilesos. Mas, novamente, a falta de cuidado do roteiro em explorar o recém-chegado personagem acaba por prejudicar também esse momento, tornando-o incrivelmente desnecessário.
E se o pequeno acidente de Cho não acrescenta nada ao episódio, o que dizer da renovada dinâmica entre Rigsby e Van Pelt? Se nas semanas anteriores a ruiva parecia receber um surpreendente carinho por parte dos roteiristas, em Where in the World o roteiro parece abandonar tudo que construía para voltar a investir em um romance clichê e sem propósito, que além de não colaborar com desenvolvimento algum na personalidade de seus personagens, ainda atrasa o andamento de outras tramas. Dessa forma, Van Pelt acaba assumindo um comportamento incoerente com o que vinha sendo apresentado, levantando um ponto de interrogação na cabeça do espectador, que pode inclusive chegar a se perguntar se esse episódio de fato pertence à quarta temporada, uma vez que não há praticamente nenhum elemento (com exceção apenas da breve citação à namorada de Rigsby) que o caracterize como tal.
Somando todos esses elementos, que desperdiçam grande parte do episódio, não haveria solução que tornasse a investigação da morte de Marnie Green interessante. Ainda assim, o roteiro ainda procura abordá-la de uma maneira diferente, aproveitando o fato de o episódio explorar todos os seus personagens praticamente ao mesmo tempo. Assim, a narrativa ganha um desenvolvimento paralelo, procurando explorar os diversos suspeitos ao mesmo tempo, evitando a maneira linear como a narrativa fora conduzida em Blood and Sand. Mas, prejudicado pelo equivocado enfoque nas vidas particulares de alguns personagens, além da infeliz decisão de deixar Jane em segundo plano quando é conveniente, o roteiro jamais consegue conferir dinamicidade à narrativa, que se torna arrastada desde os primeiros minutos.
Que dizer então do desfecho da investigação, que milagrosamente resgata Jane para mais uma vez salvar o dia. Mas o grande erro nesse caso não é a forte tendência de Heller em caracterizar seu protagonista como um super-herói, mas a imensa obviedade que o roteiro confere para si mesmo. Aliás, esta quarta temporada tem se especializado em aumentar a previsibilidade dos casos. Se em outros tempos as percepções de Jane realmente mostravam características extremamente sutis dos suspeitos, agora The Mentalist parece sempre investir em escancaradas auto-traições, como no momento em que Chad Carmichael mostra uma suspeitíssima boa vontade ao ajudar a CBI a investigar Zubov, denunciando-se para qualquer pessoa de bom senso, como o irritantemente didático roteiro faz questão de explicitar ao final do episódio.
Por todos esses motivos, Where in the World is Carmine O’Brien não só caracteriza-se como o pior episódio da temporada como estabelece um excelente exemplo de vícios e situações que devem ser evitadas a qualquer custo pelos roteiristas daqui pra frente. Dessa forma, a quarta temporada de The Mentalist já começa a despertar sinais de evidente irritação até mesmo no público americano, comprovado pela audiência da série, que mostra considerável queda em relação ao ano anterior.














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