
Hora de corrigir rotas.
Spoilers Abaixo:
Não é segredo para ninguém que a quarta temporada de Gossip Girl tenha sido terrivelmente fraca, apresentando episódios com plots muitas vezes absurdos e incoerentes, jamais procurando manter uma consistência narrativa satisfatória, limitando-se a vomitar tramas muito fundamento na tela. Com isso, era inevitável que o season finale seguisse essa mesma fórmula, procurando chocar o espectador com uma série de cliffhangers mal elaborados, da mesma forma que o final da terceira temporada, embora menos desesperado por causar impacto. Assim, chegamos à quinta temporada de Gossip Girl grandes esperanças de que a série pudesse se recuperar dessa situação. No entanto, Yes Then Zero mostra que os roteiristas tem noção dos absurdos que vinham acontecendo e apresenta histórias mais calmas, em um nítido clima de retomada, procurando seguir por um novo caminho.
Meses após os acontecimentos do season finale, Blair está com seu casamento praticamente arranjado, mas ainda está insegura com o comportamento de Louis, que parece sempre dar preferência às vontades de sua mãe. Enquanto isso, Dorota passa a desconfiar que a patroa está grávida, e tenta pressioná-la, sendo ignorada. Serena, por sua vez, vive uma nova vida em Los Angeles, onde se torna assistente de produção de uma filmagem de The Beautiful and the Damned. Lá, reencontra um mudado Chuck, que, para finalmente esquecer Blair definitivamente, decide dizer “sim” para tudo (o que irritantemente lembra Sim, Senhor com Jim Carrey). Já Dan descobre que Vanessa roubou seu livro, e que a Vanity Fair pretende publicá-lo, recorrendo a Louis para que isso não aconteça, gerando desconfiança em Blair, que ameaça romper o noivado com Louis por não ter ideia do que está acontecendo.
Blair, aliás, é o elemento que chama mais a atenção neste season premiere. É verdade que a garota sempre foi o grande destaque de Gossip Girl, mas aqui o que vemos é que a série parece realmente focar-se quase completamente nela, tornando-a definitivamente o centro das atenções, deixando Serena um pouco de lado. Ela representa também a calma que os roteiristas não vinham tendo ao desenvolver seus textos. A garota surge muito menos caricata do que no início de seu romance com Louis, deixando de ser uma menina deslumbrada e parecendo-se mais com a Blair mostrada nas primeiras temporadas, uma mulher determinada a ter sempre o que quer. Por isso, o arco que a envolve com Louis parece muito menos artificial agora, trazendo elementos mais verossímeis para o relacionamento.
Além de trazer um pouco mais de coerência para sua própria personalidade, Blair também mostra como os personagens evoluem quando tem a oportunidade de se envolver com ela, de um jeito ou de outro. O relacionamento inesperado entre ela e Dan é a melhor coisa que acontece na quarta temporada, justamente por unir dois personagens que, embora terrivelmente diferentes externamente, compartilham muitas características internamente. O que acabou se tornando uma coincidência para os roteiristas, que desenvolveram os dois personagens de tal forma que estes acabaram se aproximando naturalmente. É interessante ver Dan disposto a mentir para a amiga a fim de ter a oportunidade de ficar com ela. Assim como a divulgação do livro por Vanessa deverá provocar um conflito entre os dois que poderá gerar um arco potencialmente bom.
Mas, se o roteiro acerta no desenvolvimento da relação de Dan e Louis com Blair, o mesmo não se pode dizer do desfecho do cliffhanger deixado ao final da temporada passada. Era previsível que Blair estivesse grávida, e não Serena, mas a maneira que os roteiristas encontraram para tentar manter o mistério por mais alguns minutos é de uma falta de criatividade digna de pena. Primeiro, por investir no infinitamente abordado clichê de manter as duas “suspeitas” sóbrias, por não poderem beber se estiverem grávidas. Além disso, o recurso soa tão artificial que o espectador consegue nitidamente enxergar a tentativa de manipulação dos roteiristas, o que por si só já prejudica todo o restante do desenvolvimento. Da mesma forma, o roteiro introduz um novo mistério, escondendo a identidade do pai da criança. Apesar de o episódio dar a entender que Dan é o pai, seria uma situação muito incoerente, uma vez que quando os dois tiveram um pequeno romance, a série jamais dera a entender que houve nada mais que alguns beijos. No entanto, o diálogo do rapaz com Rufus passa outra impressão. É esse tipo de incoerência que prejudica qualquer roteiro, e Gossip Girl parece fazer questão de criá-las a cada episódio.
Aliás, a impressão que Yes Then Zero passa para o espectador é que os roteiristas parecem desesperados por chocar o público. Se os primeiros 30 minutos de episódio mostram um roteiro calmo, procurando investir na sutileza e no desenvolvimento de novos caminhos, os minutos finais parecer acelerar em demasia, apenas para provocar o impacto necessário para que o espectador queira assistir ao episódio seguinte. Por exemplo, repare como Serena recebe do roteiro uma trama tranquila, sem grandes exageros, tendo como objetivo apenas evoluir a personagem, afastando-a da irritante socialite de tempos atrás. Esse é um grande acerto do episódio, evidenciando que aquele tipo de personagem já é incompatível com o atual momento da série. E, se a pequena armação de seu novo rival acaba gerando um previsível final, pelo menos mostra um desfecho diferente quando se trata de Serena. No entanto, nos minutos finais, os roteiristas voltam a investir na absurda história entre ela e sua falsa prima Charlie/Ivy, que se já não fazia sentido algum quando foi revelada a verdadeira identidade da garota, não vejo como os roteiristas pretendem desenvolver esse plot sem aumentar o nível de absurdos.
Se Serena parece realmente disposta a mudar de vida e de ares, Chuck e Nate não seguem por caminhos diferentes. O primeiro, embora fuja bastante da característica do personagem, rende momentos divertidos ao aceitar tudo que lhe é oferecido, além de mostrar realmente ser uma pessoa mudada, finalmente deixando Blair de lado. O rapaz já havia mostrado um pouco disso no season finale anterior, mas é interessante ver que os roteiristas não parecem ter a intenção de investir novamente em um Chuck repleto de mágoas por perder Blair. Já Nate ganha uma lição de moral totalmente desnecessária, envolvendo-o em um clichê de auto-descoberta que definitivamente poderia ser descartado. O que deve acontecer, aliás, já que Gossip Girl raramente se aprofunda no lado psicológico de seus personagens.
O conjunto de todas essas tramas torna este season premiere de Gossip Girl irregular, mas mostra que a série parece ter a intenção de seguir por um caminho diferente do que vinha seguindo nas temporadas anteriores, com menos glamour e mais histórias para contar. O importante é que esse episódio, se não é um primor de qualidade, também definitivamente não é ruim.
Obs: Como a Camila comentou no final da temporada passada, ela não será mais a responsável pelos reviews de Gossip Girl. A partir de hoje, vocês terão minha companhia nos textos da série.













