Após o assentamento da história que quer contar, revival de Sex and the City encontra o próprio ritmo.

No texto sobre os dois primeiros episódios de And Just Like That, falei rapidamente sobre como estava desapontado que o roteiro de Michael Patrick King tivesse aberto mão da narração em off de Carrie. Quando a série foi exibida pela primeira vez, uma das grandes viradas estruturais do ponto de vista dramatúrgico tinha sido a maneira como o texto conseguiu transpor para a TV o espírito de uma crônica, fazendo com que víssemos animada, a coluna de Carrie naquela semana. Sempre começávamos com a protagonista apresentando o “tema” e depois, pedaços do desenvolvimento do texto apareciam na tela como uma costura do episódio.

O método (que vem sendo repetido até hoje) funcionava perfeitamente para conduzir o público pelo ponto de vista exato da personagem. De fato, a estrutura crônica era tão bem encaixada na narrativa, que servia como uma espécie de “canto da sereia”, seduzindo o espectador e construindo um sentido específico, que acabou ajudando a série a aumentar seu potencial de catarse. Pra mim, foi a crônica que fez com que Sex and the City crescesse na proporção em que cresceu. Por isso a ausência do recurso foi tão sentida e tão incômoda.

Porém, já é possível dizer que And Just Like That veio com esse título porque amadurecer significava abrir mão do que a série tinha sido, transformando-a num produto independente, que ainda que tenha elementos do produto original, precisa de uma abordagem moderna. É difícil lidar com a falta da “pergunta provocadora” de Carrie em todo episódio, com o texto dela sendo escrito na tela, com sua voz revelando o que pensavam os outros personagens… Mas, ao mesmo tempo, foi corajoso deixar esses signos no passado e tentar deixar a narrativa mais livre. O abandono do gênero crônico, de certa forma, dá mais autonomia para o entendimento do espectador.

Os novos episódios começaram demonstrando um certo conflito entre o passado e essa nova linguagem, mas encontraram nas semanas 3 e 4 um ritmo surpreendentemente bom. A evolução da trama representa um olhar mais atento para o que a oportunidade de contar essa história representa. O grande pecado cometido por Sex And The City 2 foi sua alienação, a supervalorização do luxo, do humor fácil, dos aspectos capitalistas da história. Não que isso não fosse honesto, de certa forma. Mas, foi como se os envolvidos tivessem esquecido da responsabilidade que tinham nas mãos. Agora, em And Just Like That, a obrigação de corrigir erros levou Michael Patrick King a se reencontrar com esses deveres.

White Guilty and the City

Há três narrativas muito sólidas acontecendo na série e eu mal posso expressar como estou feliz com a consistência desses enredos. É claro que uma vez que as protagonistas não poderiam mudar, a solução para incutir diversidade foi espalhar coadjuvantes de todos os gêneros e orientações. Não há um só personagem regular que não tenha essa função. Isso pode ser considerado como uma “forçada de barra”, mas é a única saída possível. Se eles não fizessem isso estariam presos no passado; e mudar as atrizes que fazem as protagonistas não seria uma solução redentora. O que Sarah Jessica Parker e seu time querem é reescrever o final.

O que estão fazendo com Miranda é especialmente interessante. Era de esperar que as transformações socioculturais dos últimos 10 anos fossem afetá-la profundamente. Nos anos 90, Miranda já era o contraponto cínico que impedia a série de se tornar um mural de expectativas românticas e sexuais quase ditatoriais. Assim como Samantha, ela era avessa a tradições e sentimentalidades, mas fazia isso através de um posicionamento político. Samantha não tinha interesse nenhum nessas questões, ela só queria transar. Por isso, ver como Miranda está completamente ansiosa para dialogar com esses novos tempos é muito satisfatório. O ímpeto de se envolver com Che, a amizade com Nya, o alcoolismo sinalizando na esquina… A vida de Miranda é compêndio de riscos interpessoais no momento… e tudo está prestes a explodir.

Charlote lida com a mesma ansiedade, mas, como era de esperar, ela também mete os pés pelas mãos e na vontade de não ser racista, é mais racista que o elenco inteiro junto. É extremamente importante que as personagens sejam mostradas desse jeito: na sua completa ignorância e incapacidade de navegar por essas questões, porque essa também é a série fazendo uma autocrítica. A forma como Charlote convida um casal de vizinhos pretos só para cumprir uma “cota” social talvez seja uma das coisas mais hediondas que ela já fez (além do classicismo e do moralismo), mas que passeiam pela cabeça dela como uma etiqueta necessária e inevitável.

Carrie também demonstra dificuldade de lidar com o presente, mas o luto a consumiu de uma maneira intensa e vê-la se reajustando sem Big tem sido interessante. Quem já viveu o luto sabe que as longas caminhadas, a insônia, a necessidade de mudar de apartamento e a vontade de revisitar um tempo antes da história que foi perdida, são absolutamente reconhecíveis. Carrie voltou para o antigo apartamento, voltou a fumar, voltou até a provar looks que estavam por anos guardados. É a forma que ela tem de tentar se reconhecer em meio a esse horror pessoal. Não quer dizer que é a melhor forma, mas é a única possível por enquanto.

Confesso que a ausência de Stanny me fere mais que a de Samantha. No ótimo episódio 3, quando Carrie tem seu closure com Natascha, a presença dele foi um deleite. Sinto que havia muito mais da relação dele com Anthony para explorar e é uma pena que em meio ao luto ficcional, o elenco tenha precisado lidar com o luto dentro da realidade. A aparição de Natascha, aliás, foi surpreendente. Seria muito interessante se alguns outros personagens retornassem, como Enid (a editora da Vogue), Trey (o primeiro marido de Charlote), Skipper (o eterno apaixonado de Miranda) e até Smith, que poderia nos dar mais notícias de Samantha. Que Aidan retorna é certo, mas confesso que tenho medo de como isso pode afetar a série.

Enfim, And Just Like That tem feito um ótimo trabalho em reconstruir Sex and the City usando suas bases, mas a partir de novos códigos, que por mais que os detratores queiram, livram a série sim do fantasma da irrelevância. Nem tudo são flores e ainda temos que aturar aquele podcast horrível, mas esse é um dos pequenos males se levarmos em consideração como tem sido divertido rever as personagens em ação. A gente sabe que uma temporada está indo bem quando sofremos por saber que ela vai acabar… E é exatamente assim que estou me sentindo. Até agora.

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