Antes de iniciar os trabalhos desta minha Crítica – referente à primeira temporada de Katla, série islandesa original Netflix -, eu quero pedir desculpas a vocês, leitores, que ficaram na expectativa da leitura deste texto há pelo menos um mês. No entanto, é evidente que, na vida de qualquer série maníacos, o acúmulo de produções acontece, ainda mais na atualidade, com tantos seriados sendo lançados quase todos os dias pelas plataformas de streaming, não é mesmo?! A gente acaba, portanto, dando prioridade para alguns, mas nunca esquecendo de outros. Prova viva é eu estar aqui para debatermos essa misteriosa série. Espero que compreendam, por favor!
Pois bem… Vamos à Katla, que tem o seu nome em referência ao vulcão da cidade de Vík í Myrdal, na Islândia, famosa região dos intitulados Países Nórdicos, juntamente à Escandinávia. Lá, “elementos misteriosos da história emergem das geleiras derretidas”, disse a sinopse inicial divulgada pela “gigante do streaming” antes do seu lançamento oficial – no dia 17 de junho de 2021 -, para mais de 160 países do mundo, com oito (8) episódios totais, em sua primeira temporada.
A história é contada a partir da trama de Gríma (Guðrún Ýr Eyfjörð, atriz e cantora conhecida como GDRN), uma jovem, que reside com o seu pai, Thor Jónsson (Ingvar Sigurdsson de Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald), no pequeno município citado. Enquanto ele fica nos trabalhos de sua oficina (ele é mecânico, será?), a jovem fica a cargo dos trabalhos de salvamento de pessoas, na tentativa de superarem – na medida do possível – o sumiço de Ása (Íris Tanja Flygenring de Fangar), a irmã mais nova, que, inclusive, no final do primeiro episódio, reapareceu, surpreendendo, dessa forma, não só a sua família, como, também, os telespectadores, como eu afirmei nas minhas Primeiras Impressões, publicadas em junho.

E o curioso é que, ao longo da temporada, além da jovem, outros personagens começam a surgir, vindos sem explicações do vulcão e, claro, muitos questionamentos aparecem a partir desse acontecimento. Primeiramente, como um ser humano consegue sobreviver praticamente na “boca” de um vulcão, hein?! É a “magia” da ficção, realmente! Eu imagino que muitos de vocês aí – do outro lado da tela – ao assistirem ao seriado lembraram inevitavelmente de Dark (2017-2020), também da Netflix, que tinha muitos mistérios e inúmeras reviravoltas até o seu desfecho final, aposto. Contudo, diferente da série de ficção científica alemã, tudo o que nos foi mostrado em Katla apresentou uma forma mais contida e um tanto cíclica. Essa segunda característica, eu acredito que deva ter sido proposital, uma vez que o seriado tem potencial para uma possível segunda temporada, na qual ela deva responder, mais pra frente, a tantos questionamentos dos telespectadores. Todavia, antes de a gente chegar ao final, vamos debater outras ocorrências da primeira temporada de Katla? Iniciemos:
Há um ano, na cidade mencionada, uma imensa erupção do vulcão fez com que muitos moradores deixassem o local – indo para um outro município, chamado Reykjavik – e, os poucos que ficaram, ainda enfrentam consequências – um tanto negativas – em suas vidas por conta do ocorrido. Aí, em um belo dia, de forma inesperada, uma mulher aparece nua e coberta pelas cinzas do vulcão, vagando pela geleira, sendo considerada, a princípio, uma turista perdida. Porém, depois de ser atendida no hospital, a polícia acaba descobrindo que ela se chama Gunhild Ahlberg (Aliette Opheim de Califado), mulher que trabalhou 20 anos atrás, no verão de 2001, no Hotel Vík e, agora, com o seu retorno, a mulher pensa que ainda está vivendo naquela época. A polícia, então, acaba achando uma outra senhorita com o mesmo nome, residindo na Suécia, na cidade de Uppsala, que vai até lá na tentativa de esclarecer essa história. E as duas são praticamente idênticas, pra não dizer “clones”, seja na aparência física, seja no amor, afinal de contas, ambas amam o Thor.
Confesso que eu esperava que esse triângulo amoroso fosse trabalhado de forma mais intensa, pra não dizer barraco, com puxões de cabelo, tapas no rosto, rolamento pelo chão afora, e tudo o mais. Entretanto, não estamos falando aqui de uma novela brasileira, e sim de uma série da Islândia, na qual as relações interpessoais são mais tímidas e um tanto inexistentes se formos parar pra pensar. Sendo assim, continuemos: a Gunhild que veio do vulcão está grávida de Thor e as características genéticas de seu bebê se assemelham às mesmas do filho da outra Gunhild, o jovem deficiente Björn (Valter Skarsgård de Svartsjön), ou seja, a história está se repetindo. Porém, por qual motivo? Qual é a relação disso com o folclore local? Será que Björn construirá de fato uma relação amorosa com o seu pai Thor, já que a sua mãe fez questão de abdicá-lo desse convívio por 20 anos? É pergunta que não acaba mais, e eu queria que a trama fosse mais rápida e menos contida. Ela ficou por vários momentos um tanto devagar, quase parando, isto é, só nos episódios derradeiros – a partir do quinto, por exemplo – é que uma luz no fim do túnel tomou corpo, se materializando. Telespectador tem pressa, Netflix!

Outra pessoa que foi encontrada – inclusive pelo próprio pai, o pesquisador e geólogo Darri Hansson (Björn Thors de Sobrevivente) – foi o pequeno Mikael Hansson (Hlynur Harðarson de Venjulegt Fólk), que, aos primeiros olhos, parecia um anjinho, e não um capetinha assassino. Gente, eu não sei vocês, mas eu fiquei com muito medo do pequeno com aquele estilete na mão, ainda mais depois de ele ter enfiado o objeto cortante no pescoço da senhora que estava tentando ajudá-lo. Aquela sangueira pareceria muito real, vamos combinar. No entanto, antes dessa cena bestializante, Darri fez de tudo para escondê-lo, pois, três anos antes, Mikael havia morrido de um acidente de carro, tendo o seu progenitor visto, até mesmo, o seu crânio. Como ele voltou? Clonagem? Irmão gêmeo desconhecido? Evidentemente, ele ficou apavorado. Aliás, quem não ficaria, né?! Já a mãe, Rakel (Birgitta Birgisdóttir de O Assassino de Valhalla), quando descobre o ocorrido, após receber uma ligação de seu filho, tenta protegê-lo de tudo e de todos, mas, logo em seguida, descobre a reais intenções sombrias e macabras do menino, como matar o próprio pai, e, por conta disso, Rakel acaba abandonando-o no meio da estrada. Certíssima, gente! Amor à própria vida em primeiro lugar mesmo você sendo “mãe” da criança. Ou você vai deixar a “criatura” te matar?
Em cada história, nota-se que Katla possui uma identidade própria e mística, fazendo com que o telespectador fique com a sua curiosidade aguçada para com o que estar por vir, embora a narrativa tenha sido morosa. Isso, claro, é mérito do trabalho do criador, o islandês Baltasar Kormákur, cineasta responsável pela elogiada série Trapped (2015-atual) e por filmes de sucesso, caso de Dose Dupla (2013) e de Evereste (2015), todas produções disponíveis no catálogo da “gigante do streaming”, inclusive. Ele, juntamente à sua equipe, soube mesclar aspectos culturais, dramáticos e científicos, os quais eu acredito que fazem parte de uma resposta mais complexa e profunda sobre o vulcão Katla. Tal fato é positivo, pois, dessa maneira, podemos criar teorias e debater sobre o futuro dos personagens e da cidade de Vík, um ambiente inóspito, recheado de mistérios nada solucionáveis. Por falar na ambientação, destaco, mais uma vez, a fotografia e as imagens aéreas dessa ilha tão bonita e esplendorosa. Só não sei como aquele pessoal aguenta respirar tanto pó cinzento em suas narinas, viu?! Parece que há uma escassez de oxigênio e de ar puro, aliado à neve e ao frio, não me surpreendendo, por exemplo, o fato de a esposa do policial-chefe – Gísli Einarsson (Þorsteinn Bachmann de Case), a personagem Magnea (Sólveig Arnarsdóttir de Uma Mulher em Guerra), precisar de respiradores mecânicos para sobreviver por conta do agravamento da sua doença terminal, o câncer de pulmão. Ao mesmo tempo, os cenários são amargos e machucados pelo tempo – aquela intensa ventania foi muito bem produzida -, em que a deterioração é o destaque da maioria dos imóveis e dos objetos usados pelos personagens.
E na luta por respostas sobre as “criaturas místicas”, Gríma acredita que todas elas são impostoras. Isso se dá em virtude de o seu marido Kjartan (Baltasar Breki Samper de Chernobyl) – fiquei pasmem de ela ser casada, porque eu achava que os dois eram adolescentes em um simples namorico – ter lhe trocado pela sua “irmã gêmea”, né?! Mas ela vai “dar o braço a torcer” por conta disso? Jamais! Em meio a isso, Darri coleta amostras de rochas sob a geleira e, posteriormente análises laboratoriais, percebe que há um meteoro – com estranhas propriedades vitais – enterrado na “boca” do vulcão. Seria ele o causador de todo esse contexto tenebroso? Talvez! Sabemos ao menos, que esses seres se chamam doppelgängers – “sósias”, em tradução livre para o português -, criaturas amaldiçoadas que retornam para se vingarem de pessoas vivas. Por falar nessas “cópias”, duas já foram “dessa para melhor”: a primeira foi Ása, que, assim como a sua mãe, foi em direção ao mar para cometer o suicídio, porque, com a comprovação de que o corpo encontrado era pertencente à sua pessoa, ela não tem mais perspectiva de vida, conclui por si só. Logo, entre a jovem e a sua irmã Gríma, ocorreu uma despedida sem emoção, sem sentido e um tanto desnecessária, não é mesmo?! Ela voltou, tentou se adaptar e, no final, “morreu” de novo? Cadê o drama todo com o seu namorado, Einar (Haraldur Stefansson de Príncipe da Escuridão), filho do chefe da polícia, hein?! Ah, e pasmem again: o pai nem sentiu a falta da filha em vários momentos, em que preferiu ficar com o seu amor juvenil de 20 anos atrás, no caso, a “fake” Gunhild. Bizarrice atrás de bizarrice!

Já o outro personagem que “faleceu” foi o pequeno Mikael, assassinado pelos próprios “pais” que o levaram para um passeio na praia. A cena é forte e um tanto triste, afinal de contas, apesar de toda a maldade praticada pelo pequeno, é uma criança, tadinho. Ainda bem que teve um aviso logo no início do episódio para alertar as pessoas mais sensíveis sobre o tipo de conteúdo mostrado. Aliás, devo destacar o seguinte: coitado do casal Rakel e Darri. Além de eles terem que praticar tamanha barbárie, foram frustrados com o “retorno” do “filho” que “morreu” tragicamente em um passado recente, ou seja, eles já viveram um difícil luto do garotinho e, agora, estão vivendo outros sentimentos de tristeza. Quanta informação pra processar em mente, hein?! Quem também “morreu” foi uma das duas Gríma’s, com elas resolvendo a situação – quem vive e quem morre -, por meio de uma partida de Roleta Russa: uma única bala e um único tiro! Meu Deus! Que tensão foi aquela cena, socorro! Acredito que quem “bateu as botas” foi a Gríma verdadeira, já que a falsa apareceu tocando piano, estando em harmonia com a sua família, se eu não estiver errado. Na verdade, não interessa quem morreu, porque a outra vai acabar voltando, eu não duvido disso!
Além disso, as cenas finais nos mostraram também várias criaturas ressurgindo do subsolo, juntamente a um rápido vislumbre de um horizonte nebuloso, com todas elas indo em direção à cidade de Vík. Por falar nos doppelgängers, eu acredito que o seriado não busca explicações lógicas sobre eles, em um possível destino final, e sim ele se preocupa com a viagem, ou seja, com o percurso até lá. Assim, somos levados em um drama cheio de camadas, em possíveis interpretações. Vejam quais são elas: a mística, de Bergún (Guðrún Gísladóttir de Trapped), a dona do Hotel, a religiosa, do delegado-chefe Gísli, a científica, do geólogo Darri e, por fim, a popular, de Gríma. Isso significa, portanto, que não existe uma só verdade, resta saber em qual você, caro leitor, vai acreditar. Qual é a sua aposta? Por favor, me conte nos comentários logo abaixo!
OBSERVAÇÕES VULCÂNICAS:
p.s.01: Eu afirmei isso no piloto, mas reitero: a protagonista é a cara da Suzane Von Richthofen, mulher que mandou matar brutalmente os seus pais, em 2002, na cidade de São Paulo (SP). Sério: se fossem irmãs, com certeza, não pareceriam tanto, vamos combinar;
p.s.02: A protagonista de The Rain (2018-2020), Simone Andersen (Alba August de Gidseltagningen), também: ela é a cara da Gríma, sendo ambas protagonistas de histórias misteriosas na Escandinávia: olha que sensacional;
p.s.03: E, por falar em histórias, que Lei local esquisita é esta que deixa qualquer pessoa pegar um carro e dirigir pra tudo quanto é lado, bastando ter a chave na ignição? Se bem que a população lá é de 20 pessoas, no máximo, se eu não errei nas contas. Isso nunca daria certo no Brasil!;
p.s.04: Adorei a Magnea, versão “demoníaca”, embora eu também tenha ficado com medo da personagem, seja nessa versão, seja na versão acamada, assim como eu senti em relação ao pequeno Mikael. Diante disso, eu pergunto: qual das duas estaria falando a verdade?;

p.s.05: Eu até tentei, mas não consegui pronunciar sequer o nome dos atores, que dirá frases inteiras no idioma islandês, pessoal. Segundo a explicação dada por Alexandre Bonfá, na edição de número #238 do Derivado Cast, o podcast de maior sucesso do Brasil e, claro, do YouTube – por favor ouçam, vejam e se inscrevam no Canal – existe uma Lei Federal que não permite os casais darem o nome que quiserem aos seus filhos. O cidadão, então, tem uma lista para escolher, enquanto o sobrenome deve ser o nome do pai mais a palavra “sson”, ou seja, com pouca criatividade, quase todo mundo fica com o mesmo nome. Ao lado de Bruno Clemente e de Michel Arouca, Bonfá fala sobre as suas impressões sobre o primeiro episódio, idem os seus coleguinhas. Não deixem de ouvir!;
p.s.06: Por falar em nomes, fiquei bestializado de a série não ter desenvolvido a observação que eu captei no piloto: na ficha em que Bergrún olhou nos arquivos do Hotel Vík, tinha dois sobrenomes: Halberg e Ahlberg, o que caracteriza não ser uma mera coincidência de troca de nomes entre as duas Gunhild, eu pelo menos acreditava nisso;
p.s.07: Ah, quem também me explicou sobre a Islândia foi a minha amiga e colega na Equipe de Colaboradores do Série Maníacos, a queridíssima Vera Tocantins. Ela me disse que o idioma é uma espécie de norueguês arcaico, pois a Islândia foi colonizada por vikings noruegueses, no passado, sendo difícil a distinção das duas línguas em um primeiro contato;
p.s.08: Inclusive, ela me contou uma curiosidade bem interessante: em tradução livre, Katla significa “caldeira”, “caldeiraria”, fazendo literalmente, jus ao nome, não é mesmo?! Não me admira o vulcão estar a todo momento propenso a ter erupções, cheio de magma, parecendo uma caldeira quente, prestes a explodir;

p.s.09: Eu não sei se vocês perceberam, mas a explicação sobre os corvos “ficou com Deus”. Em contrapartida, temos um pouco do folclore cultural local da Islândia. Eu adorei, é claro! Vejam só:
p.s.10: Conto 01: O primeiro conto popular é sobre um incidente ocorrido no ano de 1311, envolvendo uma menina e o seu cachorro, que desapareceram e foram encontrados meses depois, vivos e bens de saúde, com ambos terem – inexplicavelmente – sobrevivido a um rigoroso inverno. Na época, os habitantes da cidade referem-se à criança como um doppelgängers: um descendente das sinistras “pessoas ocultas”, isto é, “entidades sobrenaturais”;
p.s.11: Conto 02: O segundo conto popular se passa durante a erupção do Katla, em 1625, quando uma misteriosa criança volta depois de ser abandonada por sua mãe e, com isso, realiza o assassinato;
p.s.12: Conclusão dos Contos: É evidente que ambos os contos folclóricos soam assustadoramente próximos ao que está ocorrendo na pacata cidade de Vík, com o aparecimento de pessoas muito parecidas com aquelas que se pensavam estar mortas, salvo as exceções. Consequentemente, as histórias folclóricas parecem estar se tornando realidade e, a partir delas, outros tantos acontecimentos ainda vão vir à tona, eu acredito;
p.s.13: Tem uma outra série sul-coreana que estreou no início deste mês de julho na Netflix, intitulada Enfermeira Exorcista, que está causando ataques de pânico nos telespectadores. E não é pra menos: além da história de terror, a protagonista fica com buracos na pele, o que causa tripofobia em pessoas que têm aversão a imagens que contenham buracos, objetos muito agrupados e, até mesmo, texturas com relevos, por exemplo. E por que eu estou falando isso? Acontece que no hospital de Katla, quando esses “seres místicos” são parcialmente limpos, dá uma sensação horrorosa ao ver a fuligem na pele deles e quem tem tripofobia, com certeza, não vai gostar nenhum pouco. Muita gastura!;
p.s.14: Por fim, me incomodou bastante a cidade como um todo não ter se reunido pra tentar entender o ocorrido. Gente do céu: o posto policial não foi montado na igreja e os carros não foram liberados para os moradores? Custava eles marcarem um encontro? Kjartan estava completamente alheio aos dramas municipais, incapaz de perceber as mudanças ao seu redor. Tanto é que ele escolheu a “falsa” esposa, um idiota, babaca. Pra piorar, o Einar não percebeu que o próprio pai colocou a sua “mãe” em cárcere privado! Inadmissível e surreal.














