Antes de tudo, é necessário falarmos sobre como o uso de filtro amarelo para retratar países latinos é um grande problema. É extremamente comum em filmes e séries hollywoodianos vermos os EUA e os países da Europa com um céu azul maravilhoso mudar para um amarelo assim que eles viajam para o México, Guatemala, sul da Ásia, entre outros. Uma série histórica que demonstra isso perfeitamente é Breaking Bad, em que se está com filtro amarelo sabemos que eles estão no México.

Além de ser um problema, essa distinção é totalmente falsa, sendo mais fácil ver um tom amarelado em um apartamento em Nova York do que nos países que recebem esse filtro. A desculpa usada é a de que tais países tem um clima mais quente, árido, tropical, porém isso é balela e qualquer pessoa que viajar para a Ásia e/ou América Latina verá que não existe qualquer sentido essa justificativa.

A realidade é que tal filtro reforça estereótipos e dá a impressão de subdesenvolvimento desses países. Passa uma sensação de muito calor, desconforto, pobreza, drogas, tráfico, guerra, enquanto o céu azul traz a ideia de desenvolvimento, paz, riqueza. Além disso, é raro ver produções em que os personagens viajam para tais países a fim de fazerem turismo, se divertirem, focando quase sempre em uma trama na qual os estadounidenses (sim, americanos são todos que nasceram nos continentes) estão indo resgatar, salvar, ajudar.

Essa ideia vem desde o século XIX pela doutrina do Destino Manifesto em que o povo norte americano teria sido eleito por Deus para comandar, salvar o mundo. Atualmente não se vê abertamente esse discurso, porém fica claro em decisões políticas e artísticas como essa visão ainda é muito presente.

Dessa forma, ao ver o filtro sendo utilizado na season finale para uma trama que caiu de paraquedas sobre eles serem os médicos que foram salvar habitantes de uma cidade pobre da Guatemala, ficou quase impossível não torcer o nariz inicialmente. Não entenda mal, o trabalho de médicos sem fronteiras é maravilhoso e seria incrível se existissem mais voluntários, mas essa imagem dos norte americanos serem os heróis e os outros países serem resumidos como pobres e subdesenvolvidos é preconceituosa.

Dito tudo isso, essa mudança de ares ajudou a desenvolver e concluir questões que estavam paradas no ar e The Good Doctor conseguiu encerrar recuperando um pouco o fôlego que aparentava ter perdido completamente. Obrigando Lea a lidar com um bebê e sua mãe, a personagem não teve pra onde fugir e precisou lutar contra todas as tristezas que estão dentro dela. Foi muito bonito a ver dizendo que continua triste, mas conseguiu perceber que essa tristeza não será tão avassaladora para sempre e que esse momento só demonstrou como ela ama o Shaun e quer passar o resto da vida com ele. Foi uma ótima forma de dar uma conclusão a essa trama que teve tantas decisões controversas.

Terminando a história clichê do casal que começa como amigos se implicando e poderia ser vista em qualquer série teen, pois essa é a maturidade de adolescentes, Park e Morgan finalmente estão juntos e espero que na próxima temporada a relação deles pareça de adultos e leve a algum lugar bom. Entretanto, do jeito que a série gosta de destruir todos os casais já me prepararei para a saída de algum personagem, uma traição ou qualquer problema que eles quiserem inventar para tentar dar profundidade, mesmo que só exista na cabeça deles. Continuo achando que os dois deveriam ser amigos, algo mais raro de se ver em série, uma boa amizade entre homem e mulher, e que de uma forma competitiva ajudaria ambos a serem melhores médicos, mas é o que temos para hoje.

Também foi bom os ver voltando a lembrar do estresse pós-traumático de Lim e espero que com a entrada do Osvaldo Benavides no elenco regular tenhamos uma visão maior sobre tudo que a personagem continua enfrentando, afinal não é um problema que acaba com 3 remédios. E quem sabe na próxima temporada vejamos um pouco mais sobre a vida do Andrews e essa relação conturbada com a esposa.

Mas tudo isso ficou em segundo plano quando ficou claro que essa era a despedida de Claire. Embora a série tenha Shaun como protagonista é impossível dizer que ele não estava dividindo esse posto com ela. A personagem mais amável, amada, cheia de camadas, inteligente, empática, divertida, amiga que apenas ganhou mais destaque pela incrível atuação de Antonia Thomas.

A decisão de deixar a série veio da atriz que já queria sair desde o fim da terceira temporada. David Shore sabia dessa decisão, torceu para que ela mudasse de ideia, porém a atriz não voltou atrás e isso possibilitou que os roteiristas se preparassem com tempo para criar uma despedida digna da personagem.

Sabendo que Shore já sabia dessa saída desde o início da temporada é estranho pensar que ele decidiu inserir a história do pai bem na reta final, o que mostra que realmente ele não sabia mais o que escrever e talvez a saída da personagem tenha sido boa para despedirmos enquanto ela ainda estava no auge. Entretanto, foi lindo ver que Claire não ficou na Guatemala para ser uma heroína ou para fugir de problemas, mas por ter encontrado um lugar em que ela pode fazer a diferença, sentir um propósito e onde a grande empatia que ela tem é o diferencial necessário.

Ver a Lim ajudá-la a tomar essa decisão foi a cereja do bolo e a amizade das duas fará muita falta. Claire era a personagem que mais conseguia ter relações boas com todos os outros personagens e isso ficou bem claro na despedida dela. Se Melendez já criou um buraco, sua saída coloca em risco o futuro da série.

Sua despedida foi linda, mas não sei como os roteiristas farão para preencher o espaço da personagem que carregou metade da série nas costas. Um lado meu acredita que Lim é a personagem mais complexa e com carisma necessário para ganhar destaque, e aparentemente os roteiristas pensam o mesmo já que adicionaram um personagem que terá ligação direta a ela.

The Good Doctor encerra sua quarta temporada com um saldo bem mediano, sendo de longe a pior temporada e mostrando que embora a série continue excelente na parte médica, derrapou em sua grande parte nos desenvolvimentos pessoais. Vários personagens foram retirados e um dos principais destaques não voltará. A 5ª temporada virá com um peso grande, mostrando se os roteiristas apenas tiveram um ano complicado ou se a série realmente se perdeu. Espero que o bom doutor volte a ser realmente bom de assistir.

P.S.¹: A Antonia Thomas confirmou que retornará em algumas participações especiais

P.S.²: A Esmeralda Pimentel, atriz que foi a enfermeira que o Andrews flertou, é a esposa do Osvaldo Benavides, a mais nova adição da série, Dr. Mateo.

 

REVISÃO GERAL
Nota:
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