Tramas relacionadas ao aborto recorrentemente aparecem nas séries trazendo uma discussão religiosa e política cuja polêmica é atemporal. Não obstante, David Shore foi muito inteligente ao utilizar dois personagens não religiosos e que em nenhum momento teriam uma discussão sobre o direito ou a proibição ao ato de abortar. Por mais que a discussão sempre paire sobre ser certo ou errado tal atitude, existe um iceberg embaixo dessa água muito maior e mais importante a se prestar atenção, e The Good Doctor soube trazer às telas com muita delicadeza.
Nenhuma mulher aborta celebrando ou achando que é algo bonito a se fazer. Focando em todos os aspectos da vida de uma pessoa, trazer um filho ao mundo é algo que muda uma vida inteira, mas interromper uma gravidez também não é algo tranquilo como sacar dinheiro do banco. Deixar claro todos os motivos que fizeram Lea querer e não querer ter um bebê agora foi muito necessário para mostrar que não é tudo preto no branco, e que esse processo merece amparo, não julgamentos.
Me surpreendi com o Shaun tão animado ao receber a notícia, mas logo ficou claro que seus pensamentos puros e ingênuos não o deixaram ter uma visão imediata sobre o impacto que um bebê traria em sua vida, apenas focando em prazeres como ter desculpa para fugir de compromissos sociais ou ter desculpa para ir em uma feira de ciências. Murphy já amadureceu e cresceu bastante ao longo das temporadas, como bem dito por Claire, e foi muito bonito ver como ele lidou com a situação.

Como a boa, velha e recorrente tática de criar analogias entre casos da semana e a situação que o médico está vivendo, Shaun tem dificuldades para ensinar e lidar com conflitos, sendo um ponto muito delicado ao se pensar que ele está para se tornar pai, porém foi perspicaz do roteiro colocar um caso de diagnóstico tardio de autismo, obrigando Murphy a lidar com o grande medo do filho sofrer tudo que ele sofreu ou até pior. Mais do que isso, foi lindo o ver compreendendo que não conseguirá prever o futuro e que o importante era apoiar a Lea no que ela acreditasse ser o melhor para ela, colocando sua vontade, sua vida, seu corpo em prioridade.
Enquanto isso, foi maravilhoso ver Lea ter seu tempo, seu espaço e seu processo para decidir o que queria fazer. Finalmente tendo diálogo com alguém sem ser Shaun e Glassman, Claire mais uma vez reforçou o status de conselheira da série e foi incrível vê-la dizendo para Lea que não existia uma resposta certa. Espero que essa amizade floresça e elas se apoiem em todos os problemas que a vida apresentar.
Não sendo pressionada ou tendo uma ação imposta a ela, Lea pôde fazer listas, pôde conversar com seu namorado com calma e, por uma decisão própria, pôde escolher continuar com a gravidez. O livre arbítrio e o apoio emocional que ela teve durante todo o processo a ajudou a tomar uma decisão consciente de todos os prós e contras, mas confiante de que vale a pena o risco. Em nenhum momento ela conseguiu ter certeza e não existe uma pessoa ou uma lei que um dia dirá qual é a melhor decisão, porque cada pessoa tem sua individualidade, seu caso concreto e merece ter seu direito ao seu corpo e a sua vida respeitados.
Foi lindo ver todo esse processo, deixando uma esperança de que um dia isso não seja mais comum nas ficções do que na vida real.

Todavia, The Good Doctor não me ajuda a ajudá-la e faltam palavras para descrever o quão ridículo foi a junção amorosa de Morgan e Park. Colocar duas pessoas que inicialmente não se suportam, se xingam e depois se apaixonam é o clichê do mundo clichê, e se tem algo que Reznick não é, é clichê. Por um momento fiquei feliz, porque era muito condizente com a personalidade carente do Alex começar a gostar de alguém que lhe dê o mínimo de atenção, ao mesmo tempo que fazia sentido Morgan rejeitá-lo, porém os últimos minutos do episódio estragaram tudo.
Se eles tivessem transado uma vez e voltassem a ser amigos faria sentido. Se eles se afastassem para não ter algo faria sentido. Reznick beijá-lo e deixar subentendido de que isso repetirá várias vezes não tem sentido algum com tudo que nos foi apresentado até hoje. Meu sentimento é que pegaram o character development de Morgan e o jogaram no lixo.
Park não tem química ou uma personalidade que combine com o que ela vem procurando. Além disso, já percebemos como ela se importa muito com o trabalho, até mesmo se prejudicando e não podendo operar mais para salvar um paciente, o que faz com que ela tenha uma relação amorosa que pode atrapalhar sua carreira ser de um extremo absurdo. Se a vontade era de encontrarem relacionamentos para ele, poderiam fazer Park mudar para ficar com sua família, já que jogaram e descartaram sem nenhum sentido essa trama na renovação de temporada, e que estão tirando todos os personagens sem razão crível; e poderiam colocar Morgan se relacionando com Enrique, uma vez que ele poderia ter um relacionamento aberto, poliamoroso e veríamos mais sobre tais assuntos que são tão julgados na sociedade.
Entretanto, mais uma vez a série seguiu o clichê de não aceitar que uma mulher e um homem sejam amigos, transformando-os em um casal sem química, sem desenvolvimento, sem sentido, sem futuro e sem sal. Depois da morte de Melendez essa foi a pior decisão já tomada pela série e com tantos anos de carreira me espanta a falta de originalidade e senso de David Shore.
Para finalizar a preguiça e cara de pau do roteirista, Enrique foi embora por um motivo que surgiu e finalizou no mesmo episódio. Que David não sabe escrever para muitos personagens já sabemos desde House, porém está escancarado como ele só se importa com o núcleo principal e que para criar drama e choque barato ele não poupará ninguém. Não tendo desenvolvido direito o personagem e dando uma desculpa horrível para retirá-lo de série, sua saída impactará o mesmo tanto que a da Olivia, absolutamente nada.
The Good Doctor continua apresentando uma temporada razoável com algumas tramas excelentes e a grande maioria da mediocridade para o absurdo. Tirando o desenvolvimento do relacionamento de Shaun e Lea, tudo parece parado no tempo, tendo alguns plots maravilhosos durando por três episódios, como o da Lim. E agora, sendo o relacionamento de Park e Morgan a nova trama que parece que durará, difícil não ficar desanimado e preocupado com o futuro da série. De casais sem química por mera carência já me bastam vários que vejo no instagram






















