Diferente de feridas físicas em que podemos ver e muitas vezes são impossíveis de esconder dos outros, transtornos psicológicos são mais comuns do que pensamos e não é raro que alguém próximo de nós esteja passando por algo sério sem que saibamos disso. Embora tenha melhorado ao longo dos anos e hoje a sociedade fale mais sobre, a saúde mental ainda é um grande tabu.
É extremamente comum que pessoas escondam quaisquer distúrbios mentais que possuam ou estejam lidando. O preconceito existente e talvez a falta de vislumbre gráfico daquela ferida faz com que muita gente acredite ser fácil “se curar”. Desde síndromes como o autismo até transtornos como o pós-traumático, o estigma existente prejudica que as pessoas se abram e procurem ajuda.
Como foi possível ver durante o episódio, a ignorância sobre a afirmação de que vacinas causam autismo, ainda que pareça exagerada, é uma realidade. Depois de tantos anos estamos vendo uma nova camada da sociedade que se orgulha em participar do movimento antivacina. Não precisa ir longe para escutar discursos de que depressão é falta de lavar louça, que ansiedade é invenção dos jovens e outros absurdos propagados por aí.
The Good Doctor mostrou que a saúde mental é extremamente importante, porém ainda é banalizada por diversas pessoas, não se limitando apenas àquelas que não possuem conhecimentos. Tratando de uma médica que possui uma vontade de estar no controle e aprendeu durante toda a vida sendo mulher, julgada, questionada, subestimada, que não se pode mostrar vulnerabilidade ou estará dando munição contra ela, é de se entender o porquê de Lim não querer procurar ajuda.
A relação de Lim e Claire é maravilhosa exatamente por ser claro como as duas são muito parecidas em alguns aspectos, sendo a reação ao diagnóstico a de esconder tudo de todos. Da mesma forma que foi compreensível Claire se isolar e não contar para ninguém, seria totalmente desconexo à personagem se Lim não fizesse o mesmo. Em uma ironia da vida, Melendez ajudou Claire e logo depois ela se encontra na posição contrária, buscando ajudar sua amiga, mas tendo a dificuldade dela ser sua chefe. Se Melendez estivesse vivo, Lim continuaria fugindo da ajuda, porém não existiria o agravante profissional.
Qualquer pessoa que criticar a decisão de Claire não acompanhou o desenvolvimento da personagem. Se recapitularmos toda a trajetória da personagem, é possível ver como na montanha russa que foi sua vida, repleta de baixos, Claire nunca pediu ajuda e sempre buscou ajudar os outros para fugir dos seus próprios problemas. Seja ajudando o Shaun, a Morgan, o Park, sua mãe, sua vontade de ajudar possuía uma grande parcela de fuga da sua vida, porém isso mudou. Após chegar ao fundo do poço, se permitir finalmente ser ajudada e logo após perder aquele que se tornou seu mundo, Claire passou a ajudar os outros apenas por querer vê-las bem, usando seus problemas como forma de compaixão e não fugindo deles.
Claire assumir riscos não é algo de hoje. Sua decisão de pedir a ajuda de Glassman foi apenas a epítome de toda sua trajetória e como ela prefere perder a amizade de alguém que lhe é tão importante, a fim de não permitir que essa pessoa caia no mesmo buraco que ela caiu.
Com certeza essa decisão trará muitos problemas e Lim ficará furiosa como nunca esteve. Demorará para essa relação voltar ao que era, porém tenho certeza que no final ela se tornará mais forte do que é atualmente.

Seguindo o desenvolvimento dos novos personagens, acho sempre interessante quando os antigos residentes compartilham vivências que tiveram nesse início tão nebuloso e repleto de pressão. A conversa entre Morgan e Olivia, ainda que bem pequena e singela, mostrou o início do crescimento da personagem e como agora provavelmente a veremos ter mais espaço.
Realmente Jordan chamou mais atenção desde o início e é fácil associarmos essa postura mais aberta, chamativa com excelência. Enquanto estávamos atentos às histórias de religião, poliamor e outras informações interessantes que os demais personagens estavam trazendo, Olivia parecia se limitar a ser a sobrinha de Andrews.
Trabalhar com familiares nunca é algo fácil. Ter um familiar como chefe, colocando uma expectativa de mais de 20 anos e te pressionando a fazer o que ele acha correto, é uma pressão que ninguém consegue nem deveria lidar. Olivia tem um nome, um passado e uma personalidade própria. Se desvincular do seu tio e trilhar seu caminho é a melhor decisão que ela podia tomar e que o roteiro poderia fazer. Já existem muitas brigas familiares por aí e com certeza esse embate não seria interessante por muito tempo.

E falando de familiares, vimos um desenvolvimento de Shaun nesse episódio que nos deixou como pais orgulhosos. Escutar o personagem dizendo que os desafios fazem ele e Lea serem melhores, aprendendo um com o outro, resumiu muito bem o porquê desse namoro ser algo tão shippavel, ainda que exista uma discordância de muitas pessoas sobre como se iniciou.
Shaun cresceu muito desde a 1ª temporada e é lindo ver Glassman se preocupando com ele, pois sinto que todos em casa têm a mesma preocupação, lembrando-se de quando ele chegou ao hospital naquela chuva e tudo que ele passou para estar onde está hoje. Shaun cresceu como médico, aprendeu muito em âmbito pessoal com Claire, Morgan, Park, entre outros, mas foi Lea quem o fez sair mais da sua zona confortável.
E exatamente por isso é triste ver como Lea continua aparecendo apenas em tramas que envolvem o relacionamento. Como Glassman disse, ela é uma pessoa engraçada, cínica, inteligente. Como seus pais disseram, ela tem um passado. Para Lea ser alguém tão incrível para Shaun, ela tem uma personalidade, vivências e desafios que não estão relacionados a ele, e nós nunca vemos isso.
Trabalhando no hospital seria muito fácil fazer alguma cena dela com outro personagem, desenvolvendo talvez uma amizade com Morgan que no momento precisa também de uma trama nova, ou Park que nunca possui algo de interessante para falar além do seu filho. Ver o desperdício semanal de uma personagem como Lea é deprimente. Ver o desperdício semanal de ideias incríveis como Morgan e Park morando juntos é incompreensível.
Shaun é o protagonista e Claire se tornou favorita do público, mas isso não quer dizer que os outros personagens precisem ser deixados de lado. The Good Doctor sabe muito bem criar tramas interessantes, porém continuar falhando em focar sempre nas mesmas pessoas.






















