A Voz Suprema do Blues (Ma Rainey’s Black Bottom), último filme da carreira de Chadwick Boseman, ator falecido em agosto, aos 43 anos, conta um pouco da história de Ma Rainey, a “Mãe do Blues”, interpretada por Viola Davis, que vive um embate com o trompetista Levee, interpretado por Boseman, sobre o blues tradicional e o moderno, o que a leva a se rebelar em busca de autonomia sobre a sua produção artística. O drama da Netflix, baseado na peça homônima de 1984 de August Wilson, foi dirigido por George C. Wolfe, escrito por Ruben Santiago-Hudson e produzido por Todd Black, Denzel Washington e Dany Wolf. O longa ainda conta com as participações de Glynn Turman, como Toledo; Colman Domingo, interpretando magistralmente o personagem Cutler; Michael Potts, como Slow Drag e Taylour Paige, como Dussie Mae.

August Wilson, o nome por trás do soberbo texto de ‘A Voz Suprema do Blues’, foi um dramaturgo vencedor do Prêmio Pulitzer e autor do Ciclo de Pittsburgh de 10 peças, que é uma espécie de compêndio de peças que documentam a experiência afro-americana ao longo do século 20. O Dramaturgo morreu de câncer no fígado em outubro de 2005, contudo, deixou um legado inquestionável, dando vida e voz à comunidade negra americana. Segundo Denzel Washington, ‘você não pode reescrever Shakespeare, da mesma forma que não pode reescrever August Wilson.’ Com esse pensamento em mente, Washington anunciou que produziria um filme para cada peça teatral do Dramaturgo. Em algum momento de 2003, Washington se encontrou com Wilson e o fruto desse encontro foi o filme ‘Um Limite Entre Nós’, estrelado e dirigido pelo próprio ator. Essa passaria a ser a primeira adaptação para o cinema de uma peça do dramaturgo, que já havia sido encenado na Broadway. ‘Um Limite Entre Nós’ abocanhou uma série de prêmios, dentre eles, o Oscar de melhor atriz coadjuvante para Viola Davis. A aclamada adaptação cinematográfica dessa primeira obra de Wilson evidenciou a maestria da sua escrita e a atemporalidade da temática ali tratada, mas também abriu caminho para a produção de ‘A Voz Suprema do Blues’, segundo filme dessa iniciativa de Washington.

Viola Davis, ao se referir a ‘A Voz Suprema do Blues’, disse que o ‘racismo não foi destruído – só evoluiu’. Ao adentrar no intricado universo narrativo do filme, torna-se evidente que a afirmação de atriz procede, já que a história apresentada mostra os Estados Unidos do início do século passado, mas não se distancia muito dos Estados Unidos de agora, apesar da evolução das suas leis no tocante aos direitos civis dos negros. O filme é mais sobre a história que aquele conjunto de pessoas tem para contar sobre a estrutura de poder e menos sobre blues ou a própria biografia de Ma Rainey. Para quem esperava uma espécie de musical ou um documentário, o longa segue um caminho bem distinto, recheado de licenças narrativas ficcionais e de alegorias para ilustrar a difícil trajetória dos artistas negros em busca de autonomia e liberdade criativa. Inicialmente, o filme pode parecer estranho e fora do padrão, por dialogar diretamente com um formato mais teatral, mas a proposta é realmente essa, uma transposição de linguagem com uma estrutura simples e com discussões riquíssimas, mas com uma estreita relação com o material original.

A história da cantora Ma Rainey, é o ponto de partida para ‘A Voz Suprema do Blues’, uma mulher que luta por transformações na indústria musical de Chicago dos anos 20, tentando impor mudanças necessárias dentro dessa estrutura de poder, que se apropria da produção cultural e intelectual de artistas considerados minoritários. Ma Rainey é rotulada como uma mulher difícil de lidar, no entanto, caso ela aceite pacificamente as imposições da indústria comandada por homens (brancos), ela vai ter que se submeter e aceitar apenas os ossos, ao invés do porco inteiro, como disse Levee. Tudo que ela e Levee possuem é o talento criativo e esta é a única moeda de troca que ambos têm para negociar; Ma percebe nessa situação uma brecha para exigir mudanças. Quando ela impõe a participação do sobrinho em seu disco para que seja pago como qualquer outro integrante da banda ou quando ela exige um refrigerante antes de gravar qualquer coisa, isso é muito mais sobre mudanças na estrutura de poder do que sobre a estrelismo da artista.  O valor de Ma está diretamente ligado ao conteúdo que a sua voz é capaz de produzir e ela sabe disso muito bem, afinal, tirando isso, ele se torna descartável dentro da indústria e passa a ser mais uma mulher preta caminhando nas ruas de Chicago, sem direito a voz durante um acidente de carro e com uma presunção de culpa baseada em mero preconceito de cor e gênero. Por isso, a sua necessidade de impor mudanças é vital para ela e para as futuras gerações dentro dessa indústria. Viola está no seu elemento, atuando naturalmente e entregando cenas fortes e reflexivas.

Chadwick Boseman é um capítulo à parte nesse longa. O ator empresta ao trompetista Levee uma carga dramática excepcional, desde as suas alternâncias de humor a sua instabilidade emocional, tudo converge para a construção do seu poderoso monólogo relatando o caso de estupro sofrido por sua mãe e o seu trauma geracional. O personagem vai aos poucos se fragmentando emocionalmente ao revisitar um dos piores momentos da sua vida, chegando a confrontar a crença religiosa de Cutler, seu colega de banda. Levee deixou de acreditar em Deus e despeja toda a sua descrença ao questionar a ação divina diante dos eventos que levaram sua mãe a sofrer uma agressão sexual perpetrada por homens brancos. Levee carrega intimamente sentimentos ambíguos e, da mesma forma que pretende revolucionar o mundo da música com suas canções com arranjos modernos, ele busca o seu protagonismo e a sua afirmação social através de símbolos, como a compra de sapatos novos ou o gesto ousado de se colocar em evidência sob os holofotes em um solo durante uma apresentação da Ma Rainey.

Boseman, a essa altura dos acontecimentos, sabia exatamente que tipo de situação estava enfrentando em sua vida real, adicionando a essa equação o seu extenso tratamento médico, o peso do seu monólogo se torna ainda mais intenso e profundo. Quando ele questiona as ações de Deus ou quando ele elabora pensamentos sobre a finitude e a mortalidade, tudo sai do plano da encenação e toma contornos de vida real, com infinitas camadas de medo, vulnerabilidade, raiva, desilusão e dor. Esse é um tipo de cena que depende unicamente do talento do ator, e isso é visto amplamente não só nessa cena emblemática, mas em todo o conjunto de cenas envolvendo Boseman.

Em um filme com a vibrante participação de Viola Davis, parece difícil que qualquer outro ator possa conseguir destaque, no entanto, nesse longa, sente-se claramente a sabedoria do diretor ao deixar Boseman à vontade para brilhar e dar tudo de si em frente a uma câmera. As cenas são como esquetes de uma peça teatral, onde se debate sobre apropriação cultural, racismo, religiosidade e tantos outros temas, com um texto totalmente a serviço do ator, que o molda a sua livre vontade criativa, usando livremente a luz intensa, que lembra refletores teatrais, o calor constante de uma Chicago racista e excludente, que se traduz no suor dos corpos em um espaço confinado de um minúsculo estúdio onde as relações e convicções são colocadas em teste. É intencional a construção claustrofóbica em um ambiente contido, onde Levee procura a todo custo se libertar metaforicamente do jugo da indústria gerenciada pelos brancos em uma repetitiva tentativa de abrir uma porta trancada, que mais tarde o conduz para um beco sem saída. O desfecho do filme, apesar de muito chocante, é claramente a analogia com esse beco sem saída, condiz com a instabilidade emocional do protagonista e com a sua falta de controle sobre a sua própria vida.

A Voz Suprema do Blues, entrega de forma intensa e arrebatadora a última performance de Chadwick Boseman, que necessariamente merece indicações na próxima temporada de premiações. Os pontos altos desse longa são o seu rico subtexto e as suas memoráveis atuações, com grande destaque também para Viola e Colman, o que compensa largamente as imperfeições e qualquer traço de estranheza na transposição de linguagem da obra original, causando uma impressão final positiva, emocional e reflexiva.

REVISÃO GERAL
Nota:
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