É tempo de caminhar em fingido silêncio,

e buscar o momento certo do grito,

aparentar fechar um olho evitando o cisco

e abrir escancaradamente o outro.

É tempo de fazer os ouvidos moucos

para os vazios lero-leros,

e cuidar dos passos assuntando as vias

ir se vigiando atento, que o buraco é fundo.

É tempo de ninguém se soltar de ninguém,

mas olhar fundo na palma aberta

a alma de quem lhe oferece o gesto.

O laçar de mãos não pode ser algema

e sim acertada tática, necessário esquema.

É tempo de formar novos quilombos,

em qualquer lugar que estejamos,

e que venham os dias futuros, salve 2020,

a mística quilombola persiste afirmando:

“a liberdade é uma luta constante”.

Tempo de nos aquilombar

Conceição Evaristo

A queridinha do povo e responsável por nos desidratar semanalmente está de volta! This is Us retorna com episódio duplo e define a sua narrativa deste 5º ano. Assim, nesta temporada, para além da pandemia, a série abordará temas extremamente importantes e necessários. Considerada como um grande desafio pelo criador da série, Dan Fogelman, a temporada vai se aprofundar nos impactos dos debates raciais pelos Estados Unidos e as diversas facetas do racismo. Diante das recentes mortes de pessoas negras por violência policial e pelos protestos que tomaram conta dos EUA nos últimos meses, This is Us nos traz um dos conceitos mais importantes em tempos difíceis: o aquilombamento.

Mas calma, se você, caro/a leitor/a não entendeu qual a relação ou sequer sabe do que estou falando, me permita definir de forma simplória o conceito produzido pela historiadora Beatriz Nascimento, uma intelectual, quilombola, e uma das primeiras pesquisadoras negras a estudar sobre os quilombos brasileiros. Para ela e para a Associação Brasileira de Antropologia, trata-se de uma forma de resistência criada e mantida pela população negra, para manutenção da sua herança história e cultural, assim, para a sua liberdade. É uma forma de manter a identidade, a sua trajetória e se conectar com o seu passado e ancestralidade.

Nos episódios de retorno da série, acompanhamos uma mudança não só de tempo e espaço, no que diz respeito aos acontecimentos envolvendo saúde pública, como também nos nossos queridos personagens. Se de um lado vemos um Kevin se abrindo para um relacionamento inesperado, de outro uma Kate um pouco reflexiva sobre seu papel enquanto mulher branca e irmã de um homem negro, que diga-se de passagem, foi uma das protagonistas de um dos diálogos mais importantes do episódio. A conversa com o Randall foi muito importante não só por ele ter deixado claro como se sente em relação a sua família, e a ela em específico, como também pelo choque de realidade que ele trouxe naquele momento. A identificação da violência racial ainda pequeno, e ausência de um semelhante ali no seu cotidiano e nas suas relações. E esse episódio em específico me lembrou aquele em que o Randall vai para uma escola nova e lá estabelece uma relação muito afetuosa e de respeito com o seu professor, que também é negro. Dinâmica de cumplicidade e identificação que foi questionada e criticada pelo Jack, claro muito em virtude dos ciúmes de pai, mas que deixou evidente, através da frase: “se você não vê minha cor, então você não me vê.”, que o foco do Jack era outro.

Do lado extremo temos o Randall, que hoje consegue compreender realidades que antes ainda que o incomodassem, não eram tão acentuadas como atualmente. E essas mudanças provocaram na estreia, uma sensação que há tempos já podia ser observada, o não pertencimento do Randall e qual o papel dos seus irmãos e a sua mãe nesse processo.

As manifestações que aconteceram em junho-julho desse ano, após a morte de George Floyd, que perduram em menores proporções até os dias atuais, foram as maiores da história dos EUA, desde o assassinato de Martin Luther King. Os protestos antirracistas levantaram ondas de manifestações nas ruas e virtualmente, em que milhares de pessoas saíram de suas casas para suplicar pelo fim da violência policial. Aqui no Brasil também tiveram manifestações similares, igualmente em razão das mortes de jovens negros pela polícia.

Em “Forty”, Randall, Beth e as filhas representaram perfeitamente os sentimentos que nós temos diante da violência racial perpetuada pelos policiais ao longo de toda nossa existência. Como bem disse Randall, é exaustivo, é cansativo e triste ter que existir sabendo que os seus, os nossos, são vítimas diariamente de um sistema segregacionista e opressor.  A ansiedade da Tess e Beth e a falta de coragem em querer assistir o vídeo ou acompanhar as notícias sobre os protestos do movimento Black Lives Matter, são sintomas já conhecidos por nós, pessoas negras. ‘It’s too much’. É um nó que dá na garganta. É a tristeza de ver tanta desgraça nos acometendo e ano após ano nada mudando, tudo se intensificando. É por isso que a reação do Randall no dia do seu aniversário não foi nada menos do que natural. E compreender essa decisão dele em se isolar e querer ficar perto dos seus iguais, para além da sua família, é um trabalho que cabe aos seus irmãos. Que vai além de se isolar por conta da pandemia, já que é muito mais que isso, é o ato de aquilombar-se e retomar as suas ancestralidades.

Randall sempre questionou o seu pertencimento, o seu encaixe na família Pearson e o seu papel enquanto irmão e filho. Esse questionamento foi visto desde o início da série em pequenos atos, e hoje vai tomando grandes proporções. Essa constante ausência de algo, tem a ver tanto com a adoção quanto pelas questões de raça. Em verdade, acredito que a questão racial é um fator muito mais determinante para essa sensação de não completude, do que pela questão sanguínea/biológica.

O pouco que vimos do relacionamento da Laurie e William foi suficiente para entender qual o tipo de mensagem que a série quer passar. Randall teve dois pais militantes e mergulhados em questões políticas, sobretudo aquelas que os afetam diretamente, como a guerra as drogas e a violência policial. Resistindo em meio a políticas de segregação e viver sem condições para sustentar a si e ao filho que nasceria em breve, os pais do Randall aguentaram até onde foi possível e não conseguiram desviar de um destino muito comum para jovens negros de baixa renda. Foi de partir o coração ver a sequência do choro do William pedindo para que tomassem conta do filho dele, o flashback mostrando a trajetória até o corpo de bombeiros e em seguida o Hospital em que estava Jack e Rebecca. E a partir dali, em minutos, tudo iria mudar. Tanto na vida de Randall, como de William, e agora, para o nosso conhecimento, da Laurie. Como será que o Randall vai descobrir sobre isso? 40 anos se passaram e nem uma pista sequer. Não sei vocês, mas tô aqui já confabulando as possibilidades. E espero que a decisão seja muito mais do que drama de novela, que tenha um significado, pois potencial para isso a temporada tem de sobra.

Para além dos cuidados com o Corona, foi satisfatório do ponto de vista técnico, ver a série abordando uma rotina que fez parte da vida da maioria das pessoas de todos os países que estiveram em quarentena. Se vestir, colocar a máscara, sair, passar álcool em gel, trabalhar, retornar para casa, se higienizar e finalmente descansar física e mentalmente. Os cuidados que a série fez questão de nos mostrar foi importante para o contexto que estamos vivendo, é uma daquelas certezas que definitivamente não estivemos/estamos sozinhos.

Outro ponto positivo da premiere foi a retomada dos acontecimentos da season finale. A briga entre Kevin e Randall não foi pouca coisa e a série fez questão de nos mostrar que o caminho para a reconciliação não será tão fácil. A cena em que ambos conversam por sms foi muito triste e desconcertante de ver, aquela angústia por saber que não serão simples boas notícias que irão aproximar os dois irmãos, já que ambos se machucaram muito e palavras cruéis foram ditas mutuamente. Acredito que não voltarão ao normal, seja pela mudança pessoal de cada um, seja pela briga em si, mas certamente ambos vão aprender a lidar com seus respectivos sentimentos e eventualmente o perdão pode vir a acontecer.

A notícia da gravidez da Madison e consequentemente paternidade do Kevin foi bem aceita por todos, e é interessante ver que o personagem aos poucos vai encontrando a sua felicidade. Assim, existem dois grandes motivos para se alegrar e ter esperança, sobretudo após tantos desacertos amorosos e a busca por uma redenção em decorrência da morte do pai. Ainda que de forma inesperada, a relação com a Madison parece ser genuína e recíproca. Confesso que estou curiosa por essa aproximação dos dois, já que eles estão começando a se conhecer por agora. Provavelmente vai ser algo bacana de acompanhar, já que o primeiro passo foi dado, que é o morar junto, praticando o que foi adotado por muitos casais recém formados no início da quarentena. A partir disso, cabe à convivência, e aí só o tempo para conduzir essa relação seja de forma positiva ou não.

E assim, This is Us faz o que sabe de melhor, se alinha com a realidade e nos emociona com as coisas simples da vida.

The Big Four

P.S.: Ainda bem que a Kate não se importou com a gravidez da Madison, um drama a menos para a família Pearson.

P.S.: Se a gente ama uma referência, imagina duas? Bem demais as menções a Grey’s Anatomy e One Day at a Time.  E sim, gente, o reboot é bom demais hahaha.

P.S.: Alguém pelo amor de Deus dá um prêmio pra Beth? Essa mulher é GIGANTE!

P.S.: Que apertozinho ver o William angustiado pelo Randall ainda bebê e por achar que tinha perdido a sua amada. Mais triste ainda é lembrar que ele viveu sem saber que ela estava possivelmente viva.

Galera, a nova temporada pode ser vista na Fox Premium e esses dois episódios já estão disponíveis. A gente se vê na próxima semana. Espero vocês, hein?! Grande beijo.

REVISÃO GERAL
Nota:
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this-is-us-5x01-02-forty-season-premirereE assim, This is Us faz o que sabe de melhor, se alinha com a realidade e nos emociona com as coisas simples da vida.