Parece essencial que falemos sobre tempo por agora. No que diz respeito ao mais próximo, estamos atravessando um ano que estranhamente passou rápido demais e, simultaneamente, arrastou-se. No que diz respeito a um plano geral, temos cada vez mais uma cultura que tende a industrializar o tempo, criando não só um contexto em que sua jornada de trabalho se torna o ponto mais importante de seu dia, mas uma linguagem que te faz se sentir culpado por um chamado tempo livre. Debate-se um tal tempo perdido, um tal tempo investido e tudo começa a girar em torno do valor que nosso tempo tem, quanto vale nossa hora ou quanto estamos dispostos a perder. Em paralelo a isso, a natureza segue seu curso, e, inevitavelmente, o tempo varre nossas tentativas de manipulá-lo.
Nada é mais humano do que nossa vontade de controlar o tempo. E isso não se deve somente à questão econômica e à procura por aumentar nossa valoração individual, mas porque o olho no passado e o olho no presente estão ligados a diversos sentimentos humanos. Querer retornar a certo momento e não cometer os mesmos erros, querer aproveitar a paixão enquanto ela dura ou querer ver já realizados os planos que fazemos agora não são necessariamente sintomas de uma sociedade ansiosa, mas características previstas daquele que tem capacidade de reflexão sobre si e sobre o mundo. Saber que tudo passa por lei da natureza suja nossos momentos felizes e nos provoca uma meditação quando alcançamos nossos objetivos.
Essas reflexões são escancaradas no audiovisual não importa o gênero, mas nenhum consegue tão bem refletir a angústia de tal temática como a ficção científica. Vizinha do horror, ela é capaz de criar novos mundos, alterar o curso natural das coisas e criar fábulas sobre o tempo. Ganhamos distopias que, resumidamente, nos apontam o (tempo) que está por vir baseado no que estamos fazendo (com o temo) no presente. Temos histórias relacionadas à tecnologia e que profetizam o humano perdendo espaço — algo já presente em nosso dia a dia se repararmos em como a relação com o artificial é superior à relação humana nos mais jovens. Falamos pouco, observadores do vasto conteúdo da internet, e quando falamos, estamos em relação com números, imagens e letras.

Contos do Loop (Tales from the Loop) estreou em abril deste ano com a pretensão de abordar todos esses assuntos. Na “antologia”, temos diversas histórias sobre acontecimentos ligados a personagens de uma cidade pequena, na qual há uma instalação subterrânea onde experimentos ligados à física são feitos. Cada episódio pega emprestado algum lugar comum da ficção científica, desenvolvendo narrativas sobre viagem no tempo, duplos, troca de corpos, entre outros exemplos. O escopo da série é limitado no que diz respeito a trazer algo que não tenha sido feito em outras produções. Arrisco dizer que se você fizer uma lista de assuntos que acha que apareceriam em uma série de ficção científica, você os achará por aqui. Mas se há algo que Dark (Netflix) nos ensinou, é que o gênero não precisa necessariamente nos apresentar algo totalmente novo, mas refinar aquilo que conhecemos sobre o tópico.
A série foi desenvolvida por Nathaniel Halpern que assina todos os oito roteiros desta primeira temporada — essencial para que a dinâmica que relaciona os episódios funcione. Contos do Loop é baseada num artbook do artista sueco Simon Stålenhag. Suas imagens poderosas, que colocam figuras e formas futuristas em contato com cenários comuns, serviram de inspiração para que tenhamos uma série que fala sobre a interação entre as pessoas e a tecnologia de um modo singular. Aqui, não temos um mundo renovado pelo futuro, em que a identidade de tudo está alterada e temos figurinos exóticos e máquinas para tudo. Ao contrário, temos um lugar pacato, que aparenta ter os mesmos problemas que os nossos.
A vida na série parece apenas operante, pouco preocupada com as revoluções que este tal Loop pode causar no futuro. Trabalha-se para o Loop ou ao redor do Loop, e isso basta. Como consequência, temos uma fantástica viagem visual que se dá no contraste entre o envelhecido e o moderno: robôs na floresta, cercados de árvores, torres gigantes diante de campos e máquinas envelhecidas, abandonadas à própria sorte no meio do nada. Loop, portanto, parece estar preocupada com todos os seus detalhes, investindo em sua estrutura tanto quanto investe em seu roteiro. Além de uma cinematografia deslumbrante, temos bons efeitos visuais e uma trilha sonora profunda.

Dá para destacar a ironia de como todos os episódios foram lançados no mesmo dia pela Prime Video, mas esta definitivamente não é uma série para se maratonar. Todas as histórias têm uma grande carga emocional que te impede de se recuperar rapidamente antes de prosseguir. São narrativas que precisam de nosso respiro antes de irmos para a seguinte. Ter uma produção que te faz refletir sobre oito aspectos diferente sobre o tempo, mas não se deixar refletir, permitindo-se isso, é um completo desperdício. Loop precisa ser uma perturbadora jornada de dias, senão a sensibilidade de seus enredos não nos afetam.
A conexão entre as histórias aqui não me permite dizer que é uma antologia, a não ser que a série seja renovada e tenhamos um novo grupo de personagens no segundo ano. Neste primeiro, vemos uma família ganhar o foco: a mãe protagoniza um episódio; no seguinte, um filho; no outro, o marido, e assim seguimos. Desviamos o foco para os amigos da família, as pessoas que a rodeiam, mas é tudo feito dentro do mesmo núcleo, da mesma teia. Por esta razão, temos protagonistas de um episódio aparecendo em outro em participações menores.

Contos do Loop é uma série cruel e melancólica que não poupa suas personagens, e o público por consequência. Assim como a passagem do tempo não é controlável, o roteiro não faz esforço algum de poupar suas personagens de seus isolamentos, de seus erros e dos destinos mais infelizes. Temos finais felizes, ou que subentendem uma conclusão positiva, mas são todos com alguma pontada de rancor ou de lição agridoce às pessoas retratadas. O público precisa dos finais felizes porque os amargos o fazem questionar o tempo investido em tal filme ou série, mas Loop não se preocupa com isso. Compromete-se a fazer das temáticas as antagonistas das personagens e assim se mantem.
Abrindo espaço para a ficção científica no nosso #MêsDoHorror, conversemos agora sobre a primeira temporada de Contos do Loop e cada uma de suas peças.
LOOP

O primeiro episódio tem uma carga de mistério a qual a série recorre muitas vezes. Aqui, assistimos a jornada de uma pequena garota cuja mãe simplesmente desapareceu. O desaparecimento corta o laço entre mãe e filha de forma definitivo, mas a distância entre elas já se dava não só na idade, mas na forma como a garota se sentia em relação à mãe. O episódio é a perfeita introdução ao visual e estilo da série, convidando-nos à investigação da menina e nos apresentando seu universo no caminho. Sem nunca resolver todos os mistérios, Loop começa a nos dar respostas sobre alguns.
Entendemos rapidamente aonde o roteiro está indo, mas isso não torna a conversa sobre maternidade e não pertencimento mais fácil. Crianças e adultos alternam o protagonismo por aqui, o que rende dois ângulos do mesmo mundo, sendo o infantil cheio de fábulas e acreditações e o adulto de um senso mais prático na forma de lidar com as coisas. Aqui, adentramos o Loop pela primeira vez, não ficando o lugar apenas em nosso imaginário. Quando no subterrâneo, percebemos que não há nada muito sofisticado a respeito das instalações, o que faz sentido em relação ao que já é mostrado no exterior.
Muito dependente da performance dos atores mirins, não temos aqui seu grande destaque, sendo este a atuação de Rebecca Hall, recorrente durante a temporada. Além disso, há uma impressão de que a história poderia ter sido mais sucinta e contada em uma duração reduzida. Falamos aqui sobre escapismo e o que há de egoísta em tentar pular o agora, sobre perguntas que nunca são respondidas e como palavras precisam ser expressadas para que aqueles que estão a nosso redor se sintam realmente queridos.
TRANSPOSIÇÃO

O segundo episódio é o que mais influencia a jornada da série. Seu desfecho tem consequências diretas ao que acontece em boa parte dos episódios restantes. Aqui, dois amigos com famílias e realidades diferentes encontram uma máquina na floresta que permite que troquem de corpos. Assim que utilizam novamente, eles percebem que a lógica da coisa é muito simples, bastando que um deles esteja dentro da máquina e o outro por perto. Por essa razão, os dois decidem viver um a vida do outro por um dia. Esse teste os leva a questionar seu futuro, sua personalidade e o poder de alteração diante daquilo que os cerca.
De desfecho assustadoramente triste, Transposição mantém o foco nos mais jovens e utiliza seus medos para criar sua intriga. A história vai se complicando cada vez mais, passando do ponto em que sabemos que não há retorno, o que deixa tudo com uma sensação de desolamento. Se você se sentiu meio apático com o episódio anterior, este é aquele que o convencerá que insistir nesta saga vela a pena. A série nunca responde perguntas que inevitavelmente nos fazemos em relação à presença de um objeto tão poderoso largado dessa forma ou por que não há registros de sua atuação no Loop — sendo as vítimas de sua atuação muito próximas aos diretores do lugar. Como a produção não se importa tanto com a tecnologia, relevamos as indagações.
ÊXTASE

Há pelo menos dois episódios que funcionam bem como histórias separadas, o que novamente nos leva ao rótulo de “antologia”. Um deles é este terceiro, no qual uma jovem muito hábil com tecnologia e consertar objetos descobre um aparelho que a permite parar o tempo e viver num não-tempo enquanto o resto de sua cidade está paralisada. Para aproveitar esta oportunidade, May (Nicole Law), nossa protagonista, convida Ethan (Danny Kang), um jovem que conhece ao acaso e com quem não é possível ficar no mundo normal, em andamento.
Mesmo podendo parar o relógio e ter tempo para si, May jamais o faria desacompanhada porque não gosta de ficar sozinha. Outra contradição está na forma como a jovem consegue consertar as coisas, mas não o consegue com sua vida, pois tem uma relação conflituosa com a mãe e um relacionamento apático com o namorado. May constantemente se pergunta por que os momentos não podem durar, por que os sentimentos de agora não podem permanecer os mesmos de sempre — e isso explica por que ela conserta as coisas, tentando estender seu funcionamento para sempre.
Novamente a série não se permite o final fácil, torturando sua personagem principal com amargas descobertas e tirando sua recompensa quando ela parece não ter aprendido sua lição. É o episódio que começa a nos fazer prestar atenção no uso das luzes na série e como ele é importante para a compreensão de suas tramas.
ECOESFERA

Falamos anteriormente sobre visitantes do Loop, pessoas que trabalham no lugar e aqueles que gostariam de trabalhar lá. Agora, nosso foco se volta ao diretor e fundador da instalação. Diferente do que talvez esperaríamos de uma série de ficção científica, não conhecemos a mente por trás das invenções, suas motivações em construí-las e como são as etapas para chegarmos ao produto finalizado. Russ (Jonathan Pryce), pelo contrário, resume seu interesse de modo muito vago. O episódio nos mostra os últimos anos do fundador do lugar, sua relação com a esposa e os parentes, com destaque às conversas compartilhadas com o neto que só agora está começando a entender a morte como inevitável.
Ecoesfera é sensível e faz bom uso de seus recursos para manipular as emoções do telespectador. Não é apelativo, não me entenda errado, é inteligente. Sabe como nos apresentar recursos durante sua narrativa para depois utilizá-los em sequências belas e de alta carga dramática. No episódio, Contos do Loop explora com paciência as visões diferentes que uma criança e um homem mais velho têm do mundo. Temos, portanto, uma espécie de ciclo não com a mesma pessoa indo do começo ao fim, mas seu fim se dando no mesmo momento em que alguém engatinha na vida.
Aqui, fica claro que há muita poesia te esperando nesta série.
CONTROLE

Quando uma série com muitos protagonistas jovens faz um episódio com um protagonista mais velho, a tendência é que o público não goste muito. Os problemas adultos são outros, a forma de se relacionar também, o que causa certo ruído em nossa watchlist, às vezes acostumada demais ao mundo inconsequente juvenil. Talvez, então, este episódio não seja tão bem recebido em relação aos demais. Aqui, gostaria de sair em sua defesa e dizer que é um dos mais belos da temporada. Começando com uma cena envolvendo um ovo, que, acredite, é de fazer chorar, vemos um homem que trabalha consertando máquinas.
Este controle que ele pode exercer sobre os equipamentos se mostra inútil em relação a um dos filhos que está em coma. Isso mexe em sua personalidade e o faz se tornar ainda mais obcecado pela ideia de que pode proteger a família, formada ainda por sua esposa e sua filha. A teimosia o leva a diversas discussões enquanto a insistência em resolver tudo sozinho o faz adquirir um robô. Este, utilizado anteriormente como catador de entulho, funciona aqui como sentinela.
Sobre desesperança e desespero, o episódio mergulha na cabeça deste homem fadado a fracassar. Talvez o telespectador não consiga se conectar totalmente a Ed (Dan Bakkedahl), mas, tendo visto os episódios anteriores, sabe que nem tudo é culpa sua. Não há como resgatá-lo totalmente da situação: é tudo irremediável demais.
PARALELO

Outro episódio que funciona bem sozinho, aqui temos uma típica história de duplos. Conhecemos Gladdis (Ato Essandoh), homem solitário que tem dificuldade de se abrir para a possibilidade do amor, por mais que o queira tanto. Após conseguir fazer funcionar um trator que encontrou ao acaso, ele viaja para outra dimensão e encontra a si mesmo. Este outro Gladdis, no entanto, tem um relacionamento sério e duradouro com Alex (Jon Kortajarena). Isto não seria tão complicado se Gladdis não conhecesse Alex por conta de uma foto que viajou até sua dimensão natal e o tornou obcecado pelo desconhecido. A partir disso, vemos a relação entre os três e quais resoluções eles darão aos problemas que surgirão.
Saindo totalmente da família principal, há uma sensação de episódio descolado, que pouco tem a contribuir ao mosaico principal, formado pelos outros. Ainda assim, é um episódio bem-vindo, que não faz grande caso de uma relação homossexual, abordando-a em suas complicações que nada dizem respeito à aceitação. Esta é importante e parte crítica na vida de muitos, mas a televisão precisa explorar mais do que apenas este aspecto. Diferente de outros episódios, este parece ser muito mais claro em seu texto, sem uma lição complexa demais por trás. Não é o ponto alto de catarse na temporada, portanto, mas talvez um descanso aos teimosos que ignorarem meu conselho de não maratonar a série.
INIMIGOS

Considero este o episódio mais fraco da primeira temporada. Não sendo necessariamente uma história à parte como o terceiro e sexto episódio, ele também não funciona tão bem como contribuição ao enredo principal. A relação entre a família do fundador do Loop e as construções feitas por ela são analisadas aqui. Na história, um jovem é deixado em uma ilha pelos questionáveis amigos. Lá, ele encontra perigos que não são só de ordem natural: há uma criatura o esperando.
É um episódio que ainda demonstra o controle do roteiro sobre seus elementos e a ligação que faz entre passado, presente e as pistas que vai deixando pelo caminho. Mostra que há uma história para ser explorada em cada ângulo da série — avô, pai e filho podem se tornar os protagonistas em momentos distintos, quando a história de cada um é analisada. Ainda assim, não creio que haja aqui a mesma força consistente nos outros contos, não sendo divertido como o anterior ou devastador como o seguinte.
CASA

Contos do Loop tem em seu oitavo episódio o grande momento de sua temporada. Seu desfecho é belo e catártico. Aqui, a série se propõe a resolver os problemas deixados em outros episódios, colocando seu protagonista mais jovem para encará-los. Através de diálogos, momentos de aventura e sequências de avanços temporais, o menino vai compreendendo que seu desejo de que tudo se mantivesse como era é irrealizável. Temos concluída a saga dessa família que conhecemos primeiro através dos olhos de uma garota que perdera a mãe para depois adentrarmos na jornada de cada um de seus membros e suas aflições.
O episódio se transforma num trajeto de retorno quando nosso pequeno protagonista sai de casa em busca do irmão e da mãe, e isso nos leva à indagação de qual é este lar referido no título. Não só uma viagem pelos espaços que ele percorre, Casa se torna uma viagem pelos conflitos que encontra, as vidas nas quais esbarra e o futuro de sua família. É um belo epílogo para uma bela temporada. Novamente, destaco Rebecca Hall e a sensibilidade que conseguiu transmitir com sua personagem.

Contos do Loop se coloca diante do tempo nessa temporada de estreia. Mesmo lidando com uma temática cada vez mais presente na televisão e no nosso dia a dia, a série consegue fazer sua contribuição ao tópico e criar um instigante universo singular. Dessa forma, ela deixa de ser apenas uma nova produção de ficção científica ocupando a grade de sua plataforma e resgata o grande uso que séries, filmes e romances do gênero tiveram através dos anos. Sem escolher os mundos terríveis e distópicos para mergulhar suas personagens, Loop é provocativa no que se propõe de reflexão, atraente no uso que faz de seu visual e necessária diante das nossas questões atuais.
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Este post faz parte do quinto ano do #MêsDoHorror no Série Maníacos. O objetivo é falar, durante o mês de outubro, sobre séries de horror e mistério (ou que esbarram nesses dois gêneros) que não tiveram textos durante o ano.
















