Parece estranho dizer isso, mas há uma estética da violência na televisão e no cinema. Mesmo nos momentos mais cruéis, quando tudo escala e a vida das personagens corre perigo, há uma coreografia, uma elaboração do que vai se dar. O sangue se torna metáfora para isso ou para aquilo, representando desde batismo à maturação, e o rosto se deforma ou se mantém intocado com a pretensão de nos assustar ou trazer significados às cenas, entre outros exemplos ligados ao ato. É por isso que mesmo filmes de violência explícita e extrema se tornam aclamados pela crítica quando sabem manipular os recursos do audiovisual em suas histórias — Audição (Ôdishon, Takashi Miike) é o exemplo perfeito disso.

O mau uso da violência, o famoso mau gosto, também tem exemplos vários, e todos nós poderíamos criar uma lista nos comentários. Este erro ocorre por motivos diferentes no horror e em outros gêneros. Com o primeiro, ocorre a falsa impressão de que o medo pode ser invocado ao telespectador através do repúdio ou de efeitos especiais e práticos. Medo e repúdio não são sinônimos neste caso e acabamos apenas irritados ou entediados. Para exemplificar bem essas questões, O Grito – Origens (JU-ON: Origins) estreou em julho na Netflix.

O Grito – Origens

Estreando vinte e dois anos depois do curta-metragem que deu origem à saga, a série japonesa dá à televisão um novo lar para os fantasmas rancorosos que acompanhamos há mais de uma década. Como o nome deixa a entender, seguimos uma linha cronológica do que teria acontecido com aquela casa amaldiçoada que conhecemos de outras produções. Diversas histórias e personagens nos são apresentadas enquanto os anos passam e o local vai ganhando seu ar assustador.

O roteiro é assinado pela dupla Hiroshi Takahashi e Takashige Ichise, ambos produtores e roteiristas da série de filmes originais. A direção dos seis episódios é de Shô Miyake. Na primeira temporada, os episódios dificilmente passam dos trinta minutos, deixando a série uma maratona (em teoria) facilmente finalizada em uma madrugada insone. Tal duração é sempre bem-vinda, pois deixa o senso de horror ainda mais ágil e desesperador sem se envolver muito nos recursos duvidosos de muitos dramas de uma hora.

O Grito – Origens.

Entre as tramas mostradas, destaca-se a jornada de Yasuo Odajima (Yoshiyoshi Arakawa), uma atriz que passa a ter contato com o sobrenatural e a se ver ligada à casa mal-assombrada e Kiyomi Kawa (Ririka), uma estudante que tem problemas com a mãe e cuja experiência no novo colégio acaba em tragédia por culpa de suas colegas de classe. Em vidas e momentos históricos diferentes, as duas mulheres percebem o sobrenatural adentrando suas vidas e colocando todos em risco.

Desde o final do primeiro episódio, fica claro a direção que a série vai tomar. A violência doméstica e abuso sexual que parecem subentendidas no primeiro momento são escancaradas ao telespectador e a série parece utilizar qualquer desculpa para se voltar ao método (falho) de nos assustar. O Grito soa apelativa e datada no uso de tal estratégia. Incomoda não somente pelo retrato frívolo que faz de questões importantes, mas por tentar criar em tais ações os grandes momentos da série. Mas não se engane, a reclamação não é por ser violenta demais — eu cresci com o novo extremismo francês como referência, então isto não me é problema. A questão é a falta de talento para costurar a violência dentro da própria série.

O Grito – Origens.

Há um fascínio pelo horror asiático compartilhado pelos fãs do gênero. Somado a isso, a onda de nostalgia atual, na qual tanto se recicla, dava à série uma boa oportunidade para conquistar um público internacional. Pouco se aproveita aqui, porque de fato chegamos a boas sequências e momentos apavorantes, mas eles são contaminados demais de tudo o que a série faz de errado, incluindo personagens ruins, uma linha cronológica confusa e um desprezo pelas figuras femininas agressivo demais para não produzir algum ruído em 2020. Ressuscitar projetos antigos dessa forma só nos traz um questionamento sobre o que assistíamos antes e se era tão legal assim.

Acompanhamos uma mulher se tornar mãe, mas a série não tem nada a dizer sobre maternidade. Acompanhamos outras personagens grávidas, mas o mesmo se mantém. Acompanhamos uma vítima de maus tratos pela mãe se tornar uma vítima de maus tratos pelo marido, mas não há nada sólido sobre a herança social da violência. Há o golpe pelo golpe, não explicado e neutro de bom contexto. Em época na qual o horror está tão sofisticado que ganhou a (ridícula) nomenclatura de pós-horror, fica difícil não achar que O Grito – Origens não tenha sido produzido na década errada. É uma forma anacrônica de se tentar alcançar o medo.

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Este post faz parte do quinto ano do #MêsDoHorror no Série Maníacos. O objetivo é falar, durante o mês de outubro, sobre séries de horror e mistério (ou que esbarram nesses dois gêneros) que não tiveram textos durante o ano.

REVISÃO GERAL
Nota:
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Welson Oliveira
Ator e escritor. Fascinado por horror, literatura brasileira e conteúdo televisivo.
critica-o-grito-origens-e-datada-e-apelativaEm época na qual o horror está tão sofisticado, fica difícil não achar que O Grito – Origens não tenha sido produzido na década errada.