Há um ano e meio, quando a Netflix lançou a primeira temporada de The Umbrella Academy, um período nebuloso rondava a queridinha plataforma de streaming. Enquanto a Marvel anunciava o fim de suas séries exclusivas do canal – e podemos especular que daqui uns anos todo o seu conteúdo será removido de lá -, a série baseada na obra de Gerard Way e Gabriel Bá nasceu sob uma curiosa esperança de que a Netflix tivesse uma série original de heróis pra chamar de sua. Baseada principalmente no primeiro volume, Suíte do Apocalipse, a primeira temporada da série televisiva é, apesar de um pouco previsível, carismática e cheia de personalidade. Infelizmente, a segunda temporada, inspirada no segundo volume, Dallas, não é.

Atenção: a crítica contém SPOILERS da série!

Todos os personagens estão de volta: Luther (Tom Hopper), Diego (David Castañeda), Allison (Emmy Raver-Lampman), Klaus (Robert Sheehan), Cinco (Aidan Gallagher), Ben (Justin H. Min) e Vanya (Ellen Page). Espalhados pelos primeiros anos da década de 60, a série já mostra nos primeiros minutos um grande potencial desperdiçado. Ao invés de, convenientemente, Cinco voltar 10 dias antes do Apocalipse (de novo?), ele poderia ter feito várias pequenas viagens entre esses anos, encontrando-se e se desencontrando com os irmãos conforme a necessidade da situação. Houve essa simplificação de trama, em que todos já estão em 1963, mas muitas situações divertidas poderiam ter sido geradas caso Cinco tivesse que ir e vir, alterando pequenas coisas no futuro, voltando ao passado de novo pois o resultado alcançado não foi o esperado. O filme Alta Frequência (2000) exemplifica um pouco dessa minha sugestão do que poderia ter acontecido.

A sensação de repetição da primeira temporada é muito evidente. Toda a trama principal é a mesma: os irmãos estão separados entre si e precisam se encontrar. Vanya tem um poder adormecido que é a causa do fim do mundo. Cinco, com a esquisitíssima ajuda de Hazel dessa vez, retorna alguns dias antes do pior. Há assassinos vindos da organização de viagens do tempo que tentam atrapalhar um pouco as coisas, mas no fim com o poder da união, do amor, da família, todos se unem e evitam que o pior aconteça. É a primeira temporada, só que situada em 63! Tudo que aconteceu antes é esquecido: Allison retomou sua voz, Vanya convenientemente está com amnésia…  Até mesmo Klaus, que já havia visitado aqueles anos, só se lembra do companheiro de exército quando é conveniente para a história.

Luther e seus enchimentos nada convincentes em The Umbrella Academy.

Quase todos os protagonistas não tem desenvolvimento ao longo da temporada. Eles estão lá apenas para ligar pontos do primeiro episódio até o penúltimo (pois o último é só uma barriga desnecessária e entediante. Raio azul no céu, sério?) e sem ter algo realmente a dizer no meio de tudo isso.

  • Luther luta para um mafioso, mas, após o trair, nada acontece com ele. Então, no arquétipo de “armário bobão e sem inteligência” é onde ele estaciona.
  • Diego insiste na nota de que é um herói e que deve salvar o presidente, mas os demais personagens repetem tanto que essa obsessão são daddy issues que chega a cansar de tanto que o dizem. Aliás, o poder de paralisar balas no ar é tirado de onde?
  • Allison e seu marido Ray não possuem muita química e todo o drama de casal é bem entediante. Toda a história do envolvimento dela com os protestos antirracistas tinha um grande potencial, mas quase sempre é superficial ou o assunto acaba voltando para a relação dela com o marido.
  • Klaus, sem uma explicação muito aprofundada, seduz uma velha milionária e se torna o líder de um culto. O personagem continua divertido – é o grande alívio cômico -, mas não vai muito além disso. Seu impasse com o seu irmão gasparzinho que o segue durante boa parte da temporada é facilmente superado. Antes disso, vale destacar, em determinado momento ele volta a beber após 3 anos sóbrio. Klaus foi um alcoólatra por anos e ingerir as quantidades de bebida igual ele fez certamente o teria matado. Amy Winehouse se foi por conta de uma situação parecida.
  • Ben se torna um personagem mais ativo nesta temporada e tem um arco narrativo, porém, também super superficial e seu sacrifício não ressoa em nada nos espectadores. Reitero o que eu havia dito na crítica da primeira temporada: a ausência dele nas HQs é algo que teria agregado e enriquecido muito mais a história dos demais irmãos. É o fardo inconveniente. Ele ser um possível vilão ou pelo menos um antagonista da próxima temporada me desanima demais.
  • Vanya, assim como Allison, também toca em questões sociais que não conseguem arranhar muito mais do que a casca do que poderia ter sido. Ela novamente fica presa no arquétipo de “Fênix Negra” da primeira temporada e é um absurdo (!!!) como sua mente não pifou de novo após ela lembrar de todos os eventos passados, ainda mais da forma que foi: sob tortura. Pior ainda é ela saber exatamente quais poderes possui e saber como manipulá-los, sendo que ela nunca os treinou e sequer sabia da existência deles até pouco tempo atrás.

Personagens secundários:

A Gestora (Kate Walsh) volta dos mortos. Sem uma explicação aparente, ela simplesmente não morreu. Ponto. Toda sua história é desinteressante, em nenhum momento fez sentido seu interesse em uma das crianças com poderes, Lila (Ritu Arya), e a química entre as duas não funciona. Os gêmeos suecos fazem o papel, nessa temporada, de Hazel e Cha-Cha da temporada anterior, mas como eles realmente deveriam ter sido: silenciosos e mortais. Porém, já que se trata da utilização do mesmo recurso para os mesmos fins, torna-se algo repetitivo e cansativo. Os membros da diretoria da organização são facilmente encontrados e eliminados por Cinco. Como o espaço-tempo ainda não entrou em colapso, dado a facilidade com que tudo dessa tal organização é invadido, violado, forjado, eu não faço a menor ideia.

Falando na “nova integrante da família”, a participação de Lila no último episódio é desprovida de qualquer emoção que não seja acompanhada de revirada de olhos. Em nenhum momento seus poderes são explorados (há algumas dicas deles ao longo da temporada, mas em nenhum momento eles são o foco narrativo). A surpresa da revelação não vence a conveniência do roteiro e todas as suspensões de descrença que temos que abandonar para aquilo fazer sentido. Pelo menos sua aparição abre brecha para outros membros também aparecerem se houver nova(s) temporada(s).

Sir Reginald Hargreeves (Colm Feore) ganha mais tempo de tela, mas não ganha muitos novos contornos. Ainda é um personagem super misterioso, monótona e sem grandes novidades a seu respeito. A Mãe Robô, Grace (Jordan Claire Robbins), em sua versão humana, e o bebê Pogo são mostrados em seus primeiros momentos com o patriarca da família, mas novamente: nada demais é agregado. São enchimentos de tempo pra alcançar os 40 e tantos minutos de episódio.

Nem tudo está perdido, caro leitor!

A temporada não é um completo desastre. Como qualquer coisa na vida, os pontos positivos existem e é fácil identificá-los. A série ainda tem um visual marcante e bacana. Tem personalidade! A diversidade do elenco é muito legal e os novos personagens continuam nessa mesma pegada. Os atores são bons, mas o texto não é muito refinado. As músicas são um dos pilares da série e é muito bom ver que mantiveram essa característica. A direção dos episódios também é interessante, pois sempre planos e ângulos diferentes são usados. Criatividade não faltou para os fotógrafos da série.

Allison, Klaus e Vanya nos divertidos clipes musicais em The Umbrella Academy.

O que poderia ter sido e o que pode vir…

Comparar os materiais é injusto e muitas vezes não é proveitoso: tratando-se de mídias diferentes, é natural que as histórias sejam tratadas de formas diferentes. Entretanto, penso ser interessante pontuar o quanto todo o espírito, a sensação deixada após o término de consumir as duas formas da mesma história (quadrinhos e série televisiva) são tão distintas. A HQ é ácida, mostra os podres dos “heróis”, é pessimista e deixa um gosto amargo na boca. A série, por outro lado, tenta empurrar que a família, apesar de disfuncional, se une no fim por um bem maior. Isso não funciona, não estamos diante de uma Grande Família. É só uma série que tenta ser cool a todo custo e quase sempre acerta na vergonha alheia. Infelizmente esse parece mesmo ser o norte que a produção quer tomar, então melhor já nos acostumarmos com a ideia de resoluções sem consequências desastrosas e definitivas. Enquanto poderíamos ter tido Game of Thrones em seus melhores anos, ficaremos com Supernatural em seus piores.

The Umbrella Academy faz um mau repeteco de sua temporada inaugural, deixa os personagens estagnados e não avança em questões tão importantes do nosso estranho 2020, como o racismo e homofobia, e só utiliza o visual sessentista como estética e nada mais. Personagens desinteressantes, vai e vens cansativos, conveniências narrativas misturadas em ótimos clipes musicais com visuais cativantes, a segunda temporada da família de desajustados mostra que nem sempre ter superpoderes garante uma supertemporada.

REVISÃO GERAL
Nota:
Artigo anteriorSarah Paulson vai dirigir alguns episódios do spin-off de ‘American Horror Story’
Próximo artigoHBO divulga teaser de ‘The Undoing’, nova minissérie estrelada por Nicole Kidman e Hugh Grant
critica-nova-temporada-de-the-umbrella-academy-faz-um-mau-repeteco-do-primeiro-anoThe Umbrella Academy faz um mau repeteco de sua temporada inaugural, deixa os personagens estagnados e não avança em questões tão importantes do nosso estranho 2020.