“Vida de moleque é vida boa
Vida de menino é maluquinha
É bente-altas, rouba bandeira
Tudo que é bom é brincadeira (..)” – NASCIMENTO, Milton.
Brincadeira. Diversão. Criançada. O público infantil, dos dias atuais, com maior notoriedade, da década de 2010 pra cá, provavelmente, desconhecem brincadeiras de ruas. Caso você tenha brincado, desde pega-pega até descer uma avenida, com morro, no carrinho de rolimã, saiba que a sua pessoa foi privilegiada. Isso ocorre, pois as grandes cidades não são mais tranquilas, como nos anos de 1960, com poucos carros, no tráfego, e com menor movimento de pessoas. Naquela época, se um um indivíduo, na tenra idade, ganhasse um tablet ou um smartphone, de presente de aniversário, muito provavelmente, ele iria pensar que fosse de outro planeta, com certeza.
E não é pra menos, afinal, as crianças, do século passado, gastavam as suas energias ao ar livre, muitas das vezes, ao redor de amigos. E elas só voltavam para as suas casas com o xingo da mãe ou da empregada, chamando pra ir tomar banho e comer alguma coisa, não é mesmo?! Aposto que a sua memória afetiva infantil vai ser aguçada, a partir da leitura desse texto. Vamos lá?!

Lançado em uma sexta-feira, no dia 07 de julho de 1995, Menino Maluquinho – O Filme, inspirado no livro homônimo, do grande cartunista brasileiro Ziraldo (Turma do Pererê), a história diz respeito a um garotinho um tanto sonhador. Ele era aquele “moleque” que adorava fazer peripécias com as pessoas, sejam do bairro, sejam da escola. Antes da obra televisiva, o título, publicado em 1980, foi um sucesso de vendas, com 5.000 exemplares comercializados, só no primeiro dia. No ano seguinte, em 1981, Ziraldo foi contemplado com o “Prêmio Jabuti”, principal da literatura infantil. Por fim, com quase 3 milhões de cópias vendidas, a obra chegou a edição de número 100, em 2010, ou seja, ela tem a característica de ser atemporal e imprescindível para a formação da educação do público infanto-juvenil. Para aqueles que já a leram, nota-se que Ziraldo mistura pequenos textos – frases, melhor dizendo – com gravuras em preto e branco do personagem, sendo super convidativo “navegar” livro adentro.
Por isso, assim como no texto de Sob Pressão, tento responder a um questionamento: “‘Menino Maluquinho – O Filme’ e os seus 25 anos: qual é a sua importância na infância brasileira?”
Em uma primeira análise, há de se destacar que os filmes infantis sempre foram vistos como uma “obra inferior”, isto é, de um menor prestígio social. Isso se dá pelo fato de os protagonistas serem feitos por crianças e para crianças, público considerado inexperiente e imaturo. Alô, filmes da Xuxa: Só Para Baixinhos e da Turma dos Trapalhões! É claro que isso não faz com que eles sejam ruins ou algo do tipo, mas, de fato, não atraem tanto o público adulto. Contudo, se a história infanto-juvenil for voltada à família, o desenrolar dos fatos assume outro papel: o da união, da diversão. E quem não gosta desse estilo televisivo, não é mesmo?! Menino Maluquinho e o seu primeiro filme estão aí de prova! Na época, com maior notoriedade, nos jornais impressos que faziam e que fazem parte do cotidiano dos brasileiros, o longa foi destaque nas capas da Folha de São Paulo e do Estado de Minas, ou seja, houve a popularização da história! E essa história é, relativamente, simples, se formos parar pra pensar. É sobre um menino, chamado Menino Maluquinho (Samuel Costa de Retrato Falado), que faz “artes” por onde vai e alegra a todos de sua convivência. Então, como primeira resposta à questão, eu digo que o formato com que o enredo foi contato fez total diferença, na retratação da infância brasileira. O “brilho” das atuações, também! Afinal, do começo ao fim, podemos notar a alegria da criançada, pois os atores estavam, não só interpretando, como, também, agindo de forma “natural”, por eles, para eles e para todas as crianças do Brasil.
Em uma segunda análise, evidencia-se que a “brasilidade” ajudou o filme a retratar a infância, porque o regionalismo de Minas Gerais (MG) esteve presente. Eu, sendo mineiro, é óbvio, que me identifiquei bastante e olha que na data citada, eu ainda nem tinha dado “o ar da graça”, de ter nascido, hein?! (1996). Pois bem, essa “brasilidade” e, por que não, “mineiralidade”, foi vista nas gravações, feitas em duas cidades da terra mineira: Belo Horizonte, a capital, e a histórica, Tiradentes. A primeira tinha ruas de pedras e casas pequenas, sem muro, dando um aspecto de vila, apresentando, agora, na atualidade, diferenças pertinentes (vide as curiosidades, mais abaixo). Já a segunda, até hoje, tem a característica de ser uma cidade antiga, com o seu conjunto arquitetônico, pouco alterado pelo homem.
No quesito brincadeiras, podemos mencionar: bente-altas, carrinho de rolimã, pique-bandeira, pipa, amarelinha, pau-de-bosta ou pau-de-melado, futebol de botão, pião, entre outras. Todas elas, com o tempo e com as mudanças na cultura, se tornaram não mais tão populares e típicas, porém nostálgicas para quem as vivenciou, em suas infâncias. Ademais, a culinária, daqui, se mostrou outro “personagem” fundamental: doces e mais doces, da roça, foram evidenciados, em cima da mesa, quando Maluquinho e os seus amigos chegam à casa da Vovó (Hilda Rebello de Haja Coração) e do Vovô, o Senhor Hortêncio, mais conhecido como “Vô Passarinho” (Luiz Carlos Arutin de Você Decide). Quer comida melhor que a mineira e, além disso, na casa dos pais de nossos pais? Chega a dar água na boca, de tão bom que é esse “trem”. E roubar fruta do pé?! Eu sei, gente, “roubar” é muito feio, mas se lambuzar com uma fruta, diretamente, do “pé”, é uma sensação boa por demais.

Nota-se, também, em Menino Maluquinho: O Filme, referências culturais, como o esporte mais popular do país, no caso, o futebol. Isso ficou evidente por meio do campeonato, entre as crianças, nos minutos finais e, quando Maluquinho estava se divertindo, com o pai, no futebol de botão, houve a menção do nome Tostão, antigo jogador do time Cruzeiro. No que diz respeito às referências da historicidade, “Vô Passarinho” foi piloto de aeronaves, na Segunda Guerra Mundial (1939-1945), com réplicas de aviões presentes no quarto do netinho querido. Para aqueles que curtem uma boa música, com as dos Beatles, o projeto da escola, liderado por Bocão (João Romeu Filho de Menino Maluquinho 2: A Aventura), ao incorporar o cantor John Lennon, ao som de “Yellow Submarine”, foi um dos destaques. Por fim, o trem “Maria Fumaça” foi mostrado e as paisagens, dos “Mares de Morro” – as Montanhas – de Minas, também, puderam ser vistas, nas imagens aéreas.
No que diz respeito ao protagonista, o pequeno Maluquinho não tem nenhum defeito. Samuel foi de uma perfeição, sem tirar, nem por, ao colocar uma panela na cabeça e um blazer azul, gigantesco, no corpo. O personagem folclórico Saci Pererê que lute para ser mais esperto que o garotinho, viu?! A sua energia foi encantadora, fazendo com nós, telespectadores, ficássemos, na expectativa de que ele pudesse alcançar os seus objetivos e, claro, a sua felicidade. E essa última característica da vida não diz respeito, apenas, aos momentos felizes, pois, para qualquer pessoa, há tempos para o sorriso e para a tristeza. Na vida de Maluquinho, por exemplo, não seria diferente, com ele sofrendo com a separação dos pais, interpretados por Patrícia Pillar (A Favorita) e por Roberto Bomtempo (1 Contra Todos), e com a morte de seu avô, querido. Há, inclusive, a rivalidade, entre os pequenos, da cidade e do interior, característica que hoje não é tão evidente, mas, de certa forma, foi um “choque” cultural. E ainda bem que esse “choque” se tornou uma amizade entre os primos, em que, depois de conhecerem os seus parentescos, o respeito fez parte da relação entre Maluquinho e Tonico (Levildo Barbosa Júnior).
“Ah, que grande mistério o jeito que o menino tem de brincar com o tempo. Sempre sobra tempo pra tudo. O tempo? Que amigão! Seu ponteirinho das horas, vai ver, é um ponteirão! O tempo pra ele faz horas: horas a mais!”
Seguindo o lado lúdico da trama, há duas cenas que englobam o imaginário e a felicidade do protagonista. A primeira é quando Maluquinho sonha com a moça do tempo, em que tal “contagem da vida” se torna infinita nas mãos do garoto, com ele agarrado ao pêndulo do relógio. Magia pura! Já a segunda cena, que extrapola a veracidade, é o salvamento do “Vô Passarinho” para com os meninos, em cima do pé de manga. Quem nunca teve vontade de passear de balão? De poder admirar paisagens bonitas? De poder ter momentos memoráveis com alguém que se ama? Portanto, mediante tais perguntas é que eu finalizo essa análise especial, em comemoração aos 25 anos do lançamento de Menino Maluquinho – O Filme. O roteiro, aparentemente, simples, “brinca” entre os atores e entre os telespectadores, de forma carismática, com o seu protagonista de “encher os olhos”. Aposto que muitas crianças e muitos adultos, com certeza, ficaram com o sentimento de querer viver ou de ter tido a chance de vivenciar os momentos de Maluquinho e a sua turma. A palavra que resume é saudade!
Esse filme é tão importante quanto a série Castelo Rá-Tim-Bum para a infância brasileira, pois são obras atemporais, lúdicas, divertidas e coloridas. A verdadeira essência da criança é brincar e isso é evidente em tais produções nacionais, afinal, elas contagiam crianças, adultos e velhinhos. É pra todo mundo! É familiar! Menino Maluquinho – O Filme é a eterna criança guardada em nossos corações!
“Mas teve uma coisa que o Menino não conseguiu segurar: o tempo. E aí, o tempo passou e, como todo mundo, o Menino Maluquinho, cresceu. Cresceu, e virou um cara legal, mas um cara legal, mesmo. E foi aí que todo mundo descobriu que ele não tinha sido um Menino Maluquinho. Ele tinha sido um Menino… Feliz!”

E para comemorar os 25 anos da estreia desse clássico filme brasileiro, a Globo Minas, mediante o seu telejornal, da hora do almoço, MG1, lançou uma reportagem, juntamente à uma matéria escrita, pra lá de emocionantes, no último sábado, dia 18 de julho de 2020. Nela, além de contar curiosidades sobre a longa-metragem, há o depoimento exclusivo de Helvécio Ratton (Batismo de Sangue), o diretor. “O filme deixa muito (como mensagem) a alegria de viver, a brincadeira, a amizade, o companheirismo. E que, para ser feliz, você não tem que estar consumindo nada. Para brincar e se expressar, basta ter alguns amigos. Você inventa coisas com o que há de mais simples, essa é a força do ‘Menino Maluquinho’. Uma infância feliz acaba fazendo adultos felizes e bem resolvidos”, conclui.
Dentre os “segredos” dos bastidores, destaca-se a seleção para o papel principal, em que Samuel enfrentou um time de mais de 3.000 crianças, em todo o país, de todo o tipo: branco, preto, nissei e indiozinho. Nas palavras de Ratton, “toda família achava que tinha um Maluquinho em casa.”
Você caro leitor, deve estar se perguntando sobre as locações do filme e como estão, atualmente, esses espaços. Em Tiradentes, cidade história, com certeza, muita coisa não mudou. Todavia, em “Beagá”, como, carinhosamente, a capital mineira é chamada, muita coisa mudou. É o caso, por exemplo, da Rua Congonhas, no bairro Santo Antônio, na região Centro-Sul do município: as casas históricas, apesar de estarem e serem tombadas, estão tampadas por tapumes. Uma delas, que foi habitação do grande autor e médico Guimarães Rosa, será, até mesmo, restaurada. Apesar de os novos donos transformarem os locais em prédios, futuramente, eles devem manter as fachadas. Isso ocorre, pois, dentre as exigências das “Diretrizes dos Tombamentos” há o quesito da manutenção da originalidade de fachadas, devendo, tais locais, das residências, serem mantidas, da forma como foram construídas. Logo, apenas, a parte interna pode ser modificada.
No final da matéria, há depoimentos das crianças, que, hoje, estão na casa dos 30 anos anos de idade. A maioria reside em São Paulo, capital, e têm uma memória afetuosa, ao falarem do filme. Samuel Costa, por exemplo, com 35 anos, participou de comerciais e de minisséries da Rede Globo, após o protagonismo. Entretanto, anos depois, optou por ficar atrás das câmeras, sendo dono de uma pequena empresa de audiovisual. “Eu amei fazer o filme! Ainda tenho muitas memórias da época. Gostava de acordar todo dia pra encontrar aquele batalhão de gente trabalhando com um mesmo objetivo. E essa mesma sensação eu sinto até hoje quando vamos pro set gravar. Sinto que a mensagem do filme é: seja feliz! Eu levo isso comigo diariamente”, contou ao G1. Ele mora com a namorada e não tem filhos.
Na publicação, há, também, relatos de Fernanda Guimarães, a Nina; Samuel Brandão, o Junin, Carolina Galvão, a Carol; Cristina Castro, a Julieta, jornalista que, por sinal, tem um blog pessoal e, por lá, dentre o material riquíssimo de detalhes, ela conta como foi participar do filme, Caio Ress, o Herman; Camila Paes, a Shirley Valéria; Gustavo Toledo, o Quicas; Felipe Malzac, o Bruce Lee e o Bernardo Cunha, o Toquinho. Vale a pena a leitura!

Finalizando a temática, de forma a citar os desdobramentos do universo do Menino Maluquinho, destaca-se:
– A continuação do primeiro filme, lançada em 1998, com o título Menino Maluquinho 2 – A Aventura. Na nova história, Maluquinho e alguns amiguinhos vão, novamente, para o interior, na casa de seu avô paterno, Tonico (Stênio Garcia de O Clone). Na cidade, eles vivem novas aventuras, com um tom de magia, de mistério e de circo;
– A série televisiva intitulada Um Menino Muito Maluquinho, produzida em 2006, pela TV Brasil, foi composta de, somente, uma temporada, com 26 episódios. Ao longo da trama, é mostrada três fases do garoto: aos 5 anos, interpretado pelo ator Felipe Severo (Louco por Elas), aos 10 anos, incorporado por Pedro Saback (Bicho do Mato) e, por fim, na fase adulta, ele é vivido por Fernando Alves Pinto (A Vida Secreta dos Casais);
– Já a “gigante do streaming”, a famosa Netflix, tem previsão de lançar um seriado de animação do personagem. Segundo informações exclusivas, publicadas pelo Série Maníacos, em abril do ano passado, a série, produzida por Chatrone (The Book of Life), tem previsão de lançamento para o ano de 2021. “Este será um novo capítulo na vida do Menino Maluquinho, e a parceria com a Netflix dará, aos fãs do mundo inteiro, a oportunidade de conhecer suas histórias”, afirmou Ziraldo. Resta esperarmos o lançamento!
Ah, e uma novidade: para comemorar a data, tão emblemática, a Quimera Filmes, produtora de Helvécio Ratton, realizou, na última terça-feira, dia 21 de julho de 2020, uma live, super especial com o Samuel Costa contando curiosidades das gravações. Ela está salva no IGTV, do perfil, e vale a pena dar uma conferida, pessoal. Aliás, a empresa mencionada fará uma outra live, com a Patrícia Pillar, dia 28 de julho de 2020, às 20h. Anotem na agenda e não percam!
Só mais um questionamento que não quer calar: qual será o verdadeiro nome do Menino Maluquinho, hein?! Alguém, aí, arrisca um palpite? Ziraldo, conta pra gente, uai!











