Entre março e abril deste ano, a HBO exibiu no Brasil a segunda temporada de My Brilliant Friend, série que adapta com perfeição a tetralogia Napolitana da escritora italiana Elena Ferrante (pseudônimo). Fenômeno editorial, o livro “A Amiga Genial”, que é o primeiro dos romances, e os outros três livros que completam a série já venderam mais de 12 milhões de exemplares no mundo.

My Brilliant Friend conta a história dos altos e baixos da amizade entre duas mulheres – Elena “Lenù” Greco e Raffaela “Lina/Lila” Cerullo – ao longo de aproximadamente seis décadas. A primeira temporada, que foi exibida em 2018, retrata a infância e a adolescência das protagonistas. Já a segunda temporada cobre o início da fase adulta das personagens.

O pano de fundo é, em grande parte, a cidade de Nápoles no pós-guerra. Lenù e Lila vivem no mesmo bairro pobre, inspirado no Rione Luzzatti, e se conhecem na escola quando têm em torno de seis anos. Ambas são muito inteligentes, mas de maneiras diferentes.

Lenù, personagem que narra essa história, é esforçada e estudiosa. Já Lila é autodidata. Ela aprende tudo de forma rápida e sem auxílio. Ela é esperta, mas tem uma inteligência caótica. Enquanto Elena é vista como uma menina muito boa e educada, Lila é vista como uma menina muito desobediente.

A educação formal, entretanto, não é valorizada pelas famílias. O casamento precoce é o destino da maioria das meninas, preferencialmente com um homem de dotes financeiros. Por isso, apenas uma das protagonistas continua a estudar, mas não antes de suplicar aos pais, enquanto a outra é impedida de seguir o mesmo caminho.

A tetralogia Napolitana tem inúmeras qualidades. Uma delas é a forma como o relacionamento entre Lenù e Lila se desenvolve. As personagens parecem de verdade. Há um sentimento genuíno de amor fraternal entre as duas. Quando uma precisa de ajuda, a outra oferece apoio. Quando se juntam, elas são imbatíveis. Uma provoca e incentiva a outra e vice e versa. Entretanto, elas também se invejam. Há uma competição velada que nunca dá trégua. Para o bem e para o mau, essa amizade acaba por definir suas vidas.

Lenù sempre se considera menos que a amiga. Menos bonita, menos interessante, menos inteligente. Sabemos mais desta personagem porque entramos em sua cabeça através de seus relatos e de suas reflexões. Lila é pintada por ela como uma mulher fascinante em todos os aspectos. Ainda muito nova, a amiga começa a despertar o interesse dos homens do bairro, incluindo os mais perigosos.

Além das protagonistas, o público acompanha as personagens que orbitam em torno delas, desde seus pais, irmãos, vizinhos, professores e relacionamentos amorosos. O bairro é um microcosmo onde quase todos são pobres, exceto os que fazem parte de algum esquema criminoso, como a Camorra (máfia de Nápoles). Dois exemplos são a família Carracci, chefiada pelo temível Don Achille, dono da charcutaria, e a família Solara, dona do bar e composta em parte pelos irmãos Marcello e Michele, que têm o histórico de assediar as mulheres do bairro desde a adolescência.

Assédio e machismo são temas frequentes ao longo dessa história. Retratam comportamentos danosos típicos masculinos que ainda existem, mas que eram amplamente aceitos décadas atrás, incluindo a violência doméstica, bastante explorada na segunda temporada.

É difícil encontrar um homem nesta série – e em toda a literatura de Elena Ferrante – a ser salvo. Os pais trocam suas filhas por um sobrenome como se fossem mercadorias. Os maridos traem e agridem suas namoradas, esposas e filhas. Quando rejeitados por uma mulher, espalham mentiras pelo bairro a fim de destruir suas reputações.

Não surpreende que Lenù seja apaixonada por Nino Sarratore, jovem que morou na mesma vila quando pequeno, mas que logo se mudou e cresceu longe das mesquinharias e hierarquias desse local. Um intelectual, Nino escreve em jornais, lê clássicos e se interessa pela causa operária. Há uma distância entre ele os “brucutus” do bairro, mas Elena Ferrante nos mostra nessa história que educação e diploma não são sinônimo de caráter.

My Brilliant Friend aborda muitas questões femininas, como gravidez e maternidade, além de pincelar uma Itália que fervilhava ao longo do século 20, incluindo as turbulências sócio-políticas dos anos de chumbo (1960-80) e o estabelecimento da máfia na região. Nápoles pode não parecer ameaçadora para muitos de nós, brasileiros, mas para os padrões europeus, esta é uma cidade suja, caótica e perigosa até hoje. É neste ambiente que Lila e Lenù tentam sobreviver. 

My Brilliant Friend é criada por Saverio Costanzo, que também dirige a maioria dos capítulos, exceto os episódios da segunda temporada que foram gravados inteiramente na ilha de Ísquia. A direção destes ficou a cargo da cineasta Alice Rohrwacher, vencedora em Cannes com o filme Lazzaro Felice (2019). A irmã dela, Alba Rohrwacher, é a voz já adulta de Lenù, que nos conta toda história. Elena Ferrante participa dos roteiros e Paolo Sorrentino (The Young Pope) é um dos produtores.

My Brilliant Friend conta com elenco inteiramente italiano e atuações na língua italiana e no dialeto de Nápoles. A trilha sonora é do compositor Max Richter, que tem no currículo a série The Leftovers e o filme A Chegada, lançado em 2016.

Aclamada pela crítica, a série acumula mais de 90% de aprovação no Rotten Tomatoes. A série já está renovada para a terceira temporada, que adaptará o livro “História de Quem Foge e de Quem Fica”, com estreia prevista entre 2021 e 2022. Todos os 16 episódios já lançados estão disponíveis no HBO Go.

REVISÃO GERAL
Nota:
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