“Todas as famílias felizes são iguais. As infelizes o são cada uma à sua maneira” – Léon Tolstoi

No texto de primeiras impressões de I Know This Much Is True, minissérie da HBO, com Mark Ruffalo interpretando gêmeos, eu disse que essa não era uma história sobre felicidade, era sobre o ser humano e as suas complexidades, por isso, ela era dolorosa e triste. Naquela ocasião eu não fazia ideia de quão dolorosa e triste poderia ser a jornada do ser humano que se depara com as suas incertezas e o vazio de um passado cheio de lacunas e sofrimentos. É inegável que a minissérie nos arrasta para lugares sombrios e sufocantes, sendo cada episódio um experimento de alternância de sentimentos combinada com uma indescritível sensação de frustração e de impotência diante da factibilidade de que quando se chega ao limite, ao fundo mais profundo do poço, não nos resta outro caminho que não seja o da ascensão.

Muitos anos atrás li o romance russo Anna Karenina, de Léon Tolstoi, um volume robusto, em toda a sua glória com cerca de 864 páginas, que contava as desventuras de Anna Arkadyevna Karenina em meio ao triângulo amoroso envolvendo seu marido Karenin e seu amante Vronsky. Conclui precipitadamente que essa era a história mais triste que já havia visto em minha vida, sobretudo por se tratar de uma história que envolve uma mulher e seu núcleo familiar disfuncional que caminham para o precipício através das suas escolhas questionáveis. Estava certa ao classificar o romance realista russo como uma leitura triste, mas nem de longe imaginava naquela época que com apenas seis episódios uma minissérie contemporânea poderia ter uma carga dramática tão intensa a ponto de me fazer querer ver vídeos fofos na internet após cada episódio. Mas não vamos encarar esse fato como algo ruim ou um fator negativo que desabone essa produção, muito pelo contrário, I Know This Much Is True é triste, isso é um fato, ela é lenta, é complexa e é sofrida, mas ao mesmo tempo é imersiva e catártica, sendo assim, ao final de cada episódio nos pegamos pensando sobre as nossas escolhas e as decisões tomadas no âmbito das nossas próprias famílias. Esse texto é uma analise mais detalhada da temporada da minissérie da HBO – caso queira ver os informações mais técnicas leia o texto de primeiras impressões aqui -, por isso, cabe um alerta gigantesco de spoiler em todo o texto, inclusive sobre o final da minissérie e sobre algumas diferenças em relação ao livro de origem, então, caso você não tenho assistido a minissérie, leia o texto com moderação. Sem mais delongas, vamos mergulhar na profundidade emocional de Dominick e Thomas Birdsey.

Thomas: Pai, afasta de mim esse cálice.

No meu texto anterior, tinha descrito Thomas como alguém que sofre de esquizofrenia, um distúrbio que afeta a sua capacidade de pensar, de sentir e de se comportar com clareza. Por isso, ele apresenta um quadro emocional que tem um conjunto de psicoses endógenas, com sintomas dissociativos das suas ações e dos seus pensamentos, falei que ele apresenta uma sintomatologia variada, como delírios, alucinações, automutilação por convicção religiosa e uma constante sensação de conspiração e perseguição. Até esse ponta eu pouco sabia sobre a infância danosa e a adolescência conturbada vivenciadas por ele, fatores que potencializaram o rápido avanço da sua doença.

O diretor Derek Cianfrance nos alertou que Thomas é o coração dessa história, apesar da sua relação de intensa codependência com Dominick, é ele que nos mostra a partir da sua degeneração psíquica os traumas sofridos durante a infância, a perda de controle diante das pressões sofridas na tentativa de se adaptar ao mundo acadêmico e a sua inadequação em um mundo despreparado para absorvê-lo em sua integralidade. Se formos olhar em perspectiva na tentativa de compreendermos o mundo particular de Thomas, perceberemos que ele, bem antes do seu irmão, aceitou Ray como sua única figura paterna, porque via no padrasto uma constante em sua vida. As memórias de quando ficou preso no banheiro do ônibus de passeio, a lembrança das agressões sofridas em casa quando era criança, a sensação de perda de controle no alojamento da faculdade quando percebeu que o irmão estava se afastando demais, mesclam-se com as ideias subjacentes de sua psique degenerada. Dominick tem uma grande dificuldade de aceitação da condição emocional do irmão e, por isso, vive flertando com o negacionismo, apesar das diversas evidências ao longo dos anos. Desde o surto destrutivo da máquina de escrever na faculdade já evidenciávamos que algo não ia bem com Thomas, que ele estava gradualmente perdendo o próprio controle, comprovamos isso um pouco mais tarde quando ele decepa a própria mão através de uma alucinação religiosa.

A Assistente Social Lisa Sheffer, vivida por Rosie O’Donnell, é o contraponto dentro do conto de fadas de Dominick, que de forma arrogante se julga capaz de cuidar de Thomas sem a ajuda do estado. Ela é uma das poucas pessoas mais conscientes da situação mental de Thomas e tenta de várias maneiras alertá-lo sobre os perigos de ele levar o irmão para casa. Ela reconhece a necessidade que Dominick tem de cuidar do irmão quase como uma obrigação e também sabe que aquele tipo de instituição não é o lugar mais adequado para as necessidades de Thomas, mas se mostra temerosa que uma vez de volta ao convívio da sociedade, ele possa machucar outras pessoas e a si mesmo. No final percebemos que ela não estava totalmente errada quanto a possibilidade de Thomas se machucar seriamente. O desfecho dele era previsível desde o primeiro episódio, diante da sua fixação pela cachoeira e perante o ocorrido com Penny Drinkwater na infância só poderíamos supor que um final parecido o aguardava. Ainda falando sobre Thomas, o público facilmente se identifica com seu drama, é tudo muito intenso e real. O personagem sofre, apesar de não se dar conta do porquê está sofrendo. Ele busca uma razão distorcida dentro da sua mente delirante para justificar as suas ações – quase sempre com motivações religiosas – e, nessas horas, facilmente é possível perceber quanta dor ele carrega dentro de si. É impressionante a intensidade que Ruffalo empresta na construção de Thomas, principalmente pela grande diferença física entre ambos os personagens, o que leva o público a esquecer que está lidando com o mesmo ator interpretando ambos os personagens.

Dominick & Dra. Patel: Os anos se passaram enquanto eu dormia.

Thomas é o irmão oficialmente diagnosticado com o distúrbio de esquizofrenia paranoide, mas, fica claro para nós – e para a Dra. Patel – que Dominick, apesar da falta de diagnóstico oficial, sofre de múltiplos transtornos também. Ele é disfuncional e isolacionista (afasta intencionalmente as pessoas); os seus ataques de fúria, muitas vezes confundidos com arrogância e autoritarismo, revelam o quão extenuado e no limite o personagem se encontra. As interações dele com a Dra. Patel, interpretada pela atriz Archie Panjabi, são sensacionais e profundas. Em uma das últimas conversas de Dominick com a Dra. Patel, nós temos um dos diálogos mais incríveis entre esses dois personagens ao longo dessa minissérie. Na cena, Dominick relembra que perdeu tudo, seu bebê, sua mãe, sua esposa e seu irmão e que isso era indicativo suficiente de que ele era uma amaldiçoado e que os pecados dos pais recaíram sobre os filhos. Patel rebate veementemente essa assertiva o lembrando que não temos o controle sobre todas as coisas, que é mais fácil olharmos para fora de nós mesmos para acharmos explicações para a nossa dor, os nossos fracassos e as nossas decepções, em vez de olharmos para dentro e aceitarmos a responsabilidade por nossas ações. Nessa mesma conversa ela diz a Dominick que as vezes é preciso aceitar que somos muitas coisas boas e ruins ao mesmo tempo e isso não é um fator impeditivo para seguirmos em frente. Ela o lembra que ele o tempo todo teve uma figura paterna ao lado dele, Ray – seu padrasto -, mesmo que ele não tenha sido perfeito, ele foi uma das poucas constantes na vida de Dominick.

Essa conversa o impulsiona a procurar Ray (John Procaccino), que se encontra hospitalizado após um colapso cardíaco, isso é suficiente para que Dominick não só o reconheça como a coisa mais próxima de uma pai que ele teve na vida, como também o leva para duas importantes reviravoltas em sua vida: a primeira delas é o seu reencontro com Dessa, agora trabalhadora voluntária da ala infantil do hospital, e a segunda delas e a revelação do segredo mais bem guardado pela sua mãe: a identidade do seu pai biológico. Assistimos estarrecidos, um episódio após o outo, a construção da possibilidade de que Dominick e Thomas poderiam ser frutos de uma relação incestuosa, onde o avô dos dois garotos supostamente teria se forçado a própria filha. Essa possibilidade hedionda nos enojou, sobretudo ao visualizarmos em flashbacks, a partir das leituras dos manuscritos, o quão monstruoso era o avô desses gêmeos. Só conseguimos respirar mais livremente quando Ray revela para Dominick que ele e Thomas não foram frutos de um incesto ou de um ato violento, que eles eram filhos do nativo americano Henry Drinkwater, morto em guerra. Essa cena foi forte e deu um sentido de fechamento, de conclusão para uma busca que permeou toda a narrativa da vida de Dominick. O irônico nessa situação é que Ralph Drinkwater (Michael Greyeyes) e a sua irmã gêmea Penny foram colegas de classe dos gêmeos Birdsey e o rapaz sempre soube que eles eram parentes e, apesar de os odiar por atribuir a morte de sua irmã a eles,  não pensou duas vezes quando ajudou Dominick com o caso dos abusos que Thomas estava sofrendo na instituição hospitalar. Somente a partir da ajuda de Ralph, foi possível criar um artificio legal para retirar Thomas da hospitalização compulsória.

A impressão que fica é a de que tudo que Dominick falava não era escutado pelos outros ou por ele mesmo, gerando uma sensação de não adaptação, mesmo sentimento experienciado por Thomas durante o seu processo de autodescobrimento. O mergulho profundo nos manuscritos do avó perverso; a necessidade de reconhecer a sua origem, principalmente a identidade do seu pai biológico; o constante estado de negação da presença de Ray como única figura paterna em sua vida; a falta de tato para lidar com a situação do luto e da separação motivaram Dominick, após as suas interações com a terapeuta, a perceber que tudo estava posto o tempo todo, desde a sua hereditariedade até a presença de um pai disfuncional que a vida lhe concedeu em tenra idade, tudo era muito visível e palpável, porém intangível para a sua sonolência emocional, levando a crer que os anos se passaram enquanto ele dormia.

Dominick & Dessa: Para todo mal, a cura!

A relação de Dominick e Dessa, sua ex-esposa, interpretada pela experiente atriz Kathryn Hahn, é um capítulo à parte nessa trama. Tudo é muito frágil e traumático entre eles. Dessa parece ser uma das poucas pessoas que compreendem toda a complexidade interior que permeia a natureza orgulhosa e explosiva de Dominick, por isso, ela sempre aceitou amorosamente a presença constante de Thomas entre eles. Dos primeiros encontros ao final do casamento tudo sempre foi muito intenso entre eles, provavelmente o mesmo componente visceral que fez com que eles se tornassem um casal, foi o que os separou após a morte inesperada da filha deles. Dominick e Dessa são a prova inconteste do quanto duas pessoas podem se machucar em uma relação que se perdeu entre a falta de diálogo, o luto incompreendido, as decisões unilaterais (como a vasectomia) e a necessidade de se reconectar com o mundo. É patente que o amor entre eles nunca acabou, mas a morte da filha, o silêncio, as lacunas, as distâncias física e emocional estabelecidas entre eles, os fez caminhar para posições opostas na vida, no entanto, a centelha sempre esteve lá, pulsando e mostrando que ainda era possível reacendê-la em algum momento futuro, depois de depurar todo esse conteúdo que ficou pelo meio do caminho, logicamente.

Todas as cenas envolvendo esses dois atores são primorosas e viscerais, a entrega de ambos é completa, mas tenho que destacar aqui o dialogo no refeitório do hospital, onde finalmente Dominick se desculpa pelos motivos certos, relembrando que a sua crise explosiva no enterro do irmão foi apenas o reflexo dele nunca ter sabido se desculpar ou escutar as pessoas. Ele, nesse momento, reconhece que se afastou, que fechou todas as possibilidades dentro do seu casamento por não saber viver o luto adequadamente. Nesse ponto, I Know This Much Is True segue um caminho um pouco diferente do proposto no livro que lhe inspirou, já que o diretor optou por deixar a nossa imaginação supor o que ocorrerá após o encontro de Dominick e Dessa na ala infantil do hospital na cena final da minissérie. Enquanto no livro eles reatam e adotam uma criança, filha de Joy, ex-namorada de Dominick, que morre vitimada pelos males decorrentes do HIV, aqui temos apenas uma singela cena de ambos na ala infantil do hospital carregando bebês e se olhando com alguma esperança. Apesar do final aberto, aparentemente inconclusivo para esse casal, é certo crer que o caminho para a cicatrização das feridas deles deve ser lento e, por isso, cabe muito bem aqui, ou seja, para todo mal, a cura!

Dominick: Da destruição vem à renovação.

Para além de toda a tristeza descrita nesse texto, essa minissérie foi uma grata surpresa, ela é um primor técnico, com uma narrativa densa e uma ambientação muito bem construída, com uma trilha sonora que facilmente dialoga com as situações propostas, I Know This Much Is True nos entrega em seus seis episódios uma excelente trabalho de direção e fotografia e, provavelmente, a melhor atuação de Mark Ruffalo em toda a sua carreira. Não consigo dimensionar o quanto deve ter sido difícil para Ruffalo vivenciar os dois lados de uma mesma tragédia ao interpretar esses irmãos gêmeos, principalmente por saber que ele perdeu prematuramente o seu irmão na vida real.

Apesar de toda a tristeza destilada nos poucos episódios de I Know This Much Is True, a sua mensagem final é positiva e transformadora, ao deixar claro que o amor cresce quando há perdão, a minissérie nos mostra que os sofrimentos atuais advém das nossas escolhas pretéritas, mas isso não deve moldar quem somos no aqui e agora. Nós podemos mudar, apesar dos nossos erros e das nossas escolhas equivocadas. Nós merecemos o nosso quinhão de felicidade quando optamos pelo caminho do perdão e do autoperdão, quando nos reconciliamos com o nosso passado e escolhemos olhar para o futuro com olhos mais otimistas ressurgimos em nossa melhor versão, consequentemente, da destruição vem à renovação.

REVISÃO GERAL
Nota:
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critica-i-know-this-much-is-true-com-mark-ruffalo-mostra-que-da-destruicao-vem-a-renovacaoApesar de toda a tristeza destilada nos poucos episódios de I Know This Much Is True, a sua mensagem final é positiva e transformadora, ao deixar claro que o amor cresce quando há perdão, a minissérie nos mostra que os sofrimentos atuais advém das nossas escolhas pretéritas, mas isso não deve moldar quem somos no aqui e agora.