A segunda temporada de “The Politician” foi lançada e se em sua temporada de estreia, o público questionou a qualidade da série, o segundo ano não decepcionou em entreter seu telespectador e enriquecer o universo construído por Murphy, a série, que é protagonizada por Ben Platt, com Ryan Murphy, Ian Brennan e Brad Falchuk na criação e produção, segue a ascensão de um jovem ambicioso ao mundo político, Payton Hobart.

O final da primeira temporada de The Politician foi apenas um bom aperitivo sobre o rumo que a série tomaria em seu segundo ano, se as tramas da primeira temporada pareciam um tanto quanto infantis para atores que aparentavam ter uns vinte e poucos anos, a segunda temporada larga de mão os arcos infantis e entra de cabeça no jogo político entre Payton (Ben Platt) e Dede (Judith Light).

É bom ressaltar que a adição de Dede e Hadassah (Bette Midler) foi sem sombra de dúvidas o ápice da temporada, além de trazer a maturidade que apenas as atrizes poderiam oferecer, a química das duas consegue superar o núcleo da Jessica Lange na temporada passada.

Murphy entendeu o que deu certo na primeira temporada e transformou esses fatores como pilares para a construção dos novos episódios, a redução da participação de personagens ficou evidente e não era que eles não fossem importantes, mas um dos grandes problemas da primeira temporada foi o constante drama desnecessário que não era interessante ou importou no final de tudo, entretanto o grande trunfo foi tratar os sete primeiros episódios da série como um prefácio para o principal enredo que seria a primeira disputa política de Payton de verdade.

Nesse processo de abrir mão de algumas coisas, a participação de River (David Corenswet) foi diminuída, seja porque o ator estava ocupado com Hollywood, ou porque seu arco servia apenas como um prelúdio aos debates pessoais de Payton, mas é bom dizer que a conversa entre Payton e Astrid sobre o amor que ele sentia pelos dois e como ele fazia os personagens serem uma pessoa melhor foi muito bem feito.

Os personagens em The Politician são muito interessantes, não por características únicas, mas pelo que representam, enquanto Payton e seus amigos simbolizam jovens privilegiados que querem mudar a política, focar em problemas mais atuais, Dede e Hadassah são as antigas progressistas, esse jogo político é extremamente rico de possibilidades narrativas e um dos pontos altos da temporada. Outro mecanismo de Murphy foi colocar a personagem de Gwyneth Paltrow de forma tão peculiar quanto a própria atriz, toda vez que ela aparecia era certeza de boa qualidade no roteiro, inserir a personagem como uma candidata política foi uma ideia muito boa, a cena do almoço entre ela e a Dede foi perfeita, a atriz nunca esteve melhor na comédia, a piada sobre não se lembrar de gente jovem pode ser uma referência ao fato de que a atriz esquece os filmes que ela participa, a intertextualidade perfeita.

Os arcos essa temporada foram bem feitos e estruturados, desde o uso dos trisais para moldar a disputa política e os debates de personalidade de Payton que serviram para impulsionar o personagem, diferente da primeira temporada, o tema dessa foi levado a sério, tivemos uma corrida política em todas as suas nuances, além de abordagens muito sutis e bem pensadas sobre temáticas muito importantes atualmente entre os jovens. É a mistura perfeita entre o humor ácido de Scream Queens em conjunto com a seriedade política de Scandal.

Entre apropriação cultural, era do cancelamento, mudança climática e aborto, ao mesmo tempo que a série trata desses temas através do humor, ela também faz uma abordagem responsável, não é apenas um artifício de roteiro que não traz uma mensagem, aparecendo através de um monólogo feito por algum personagem como a Skye, Astrid ou Infinity. Enquanto The Politician acerta em tratar desses temas com responsabilidade, falha em dar arcos rasos para personagens específicos.

A temporada ganha mais pontos pela estrutura narrativa, diminuir a duração dos episódios foi uma ótima ideia, cortar o que não ia ser importante para o desenvolvimento da história, mesmo que aquilo significasse que a história não seria extensa foi a melhor estratégia de roteiro, pois uma das críticas do primeiro ano era como alguns arcos não levavam a lugar nenhum, nessa segunda temporada se está lá é porque tem um significado.

Entretanto, por mais que a temporada tenha sido melhor que a anterior, há defeitos que foram prejudiciais como um todo, assim como na outra produção de Murphy para a Netflix, Hollywood, algumas soluções entram de forma óbvia, por exemplo, a esposa do governador Tino acordando do nada e sumindo do nada foi tão aleatório e sem significação, que poderia facilmente ser cortado do roteiro e ainda assim teríamos as mesmas resoluções, só serviu para mais algumas cenas boas da Dede e da Georgina.

Dar tanto tempo de tela à Hadassah e Dede foi o charme da temporada, por mais que toda aquela troca de casais tenha ficado cansativa em algum ponto, era só as duas aparecem em cena que não importava se aquilo estava se desenrolando por tantos episódios, o desfecho foi satisfatório também, apesar de representarem um antagonismo oposto a Payton, enquanto o protagonista debatia sobre sua lógica maniqueísta, elas não precisavam debater sobre isso, já conheciam o jogo e todas as suas artimanhas, mas isso não fazia delas pessoas ruins, apenas cientes de como tudo funcionava.

A dubiedade de Payton foi a grande questão da temporada, ele estaria disposto a usar todos os meios possíveis para o fim necessário? O protagonista manteve uma postura firme durante a maioria dos episódios, principalmente quando o assunto foi vazar a história do marido de Dede, ele quis manter sua campanha o mais série possível, mas quando chegou o momento mais definitivo de fazer uma escolha duvidosa, que é quando Infinity rouba a urna, acontece o ponto de virada para o personagem, a conversa com Georgina foi esclarecedora para Payton, assim como na primeira temporada, a mãe do personagem só constatou os fatos que o próprio filho não estava pronto para admitir sobre sua ambição.

Diferente da primeira temporada, o episódio focado nos eleitores foi muito bom, personificar as duas visões de políticas de pessoas progressistas foi interessante, até porque a resolução do episódio é basicamente o que acontece no final da temporada, é preciso ter uma nova perspectiva e dar voz aos mais jovens.

É engraçado que a própria série pede para não ser levada a sério, quando decidem colocar uma disputa de pedra, papel e tesoura para decidir uma eleição e os personagens fazem todo um estudo sobre isso, apenas numa série do Ryan Murphy para isso ser usado de forma importante no roteiro e de alguma forma não ser nem um pouco ruim.

Como já dito, alguns personagens tiveram seus espaços limitados, nem todos conseguiram aproveitar o pouco tempo que tiveram, mas os que conseguiram foram essenciais, Infinity (Zoey Deutch) foi uma delas, sua narrativa estava mais distante da história principal, mas ao mesmo tempo ela era essencial para o andamento da campanha política. De alguma forma, ela é a personagem mais centrada de toda a série nessa temporada e isso funciona muito bem.  Uma personagem que eu achei que fosse ter uma participação melhor foi Astrid, infelizmente foi reduzida a interesse amoroso do Payton e Alice, esta que pelo menos dessa vez foi melhor utilizada no roteiro e tem um desfecho melhor, apesar de ficar curioso pra saber como o casal lidou com um filho, um mandato e uma faculdade de medicina. Como a própria série mostra. McAfee, James e Skye são reduzidos a apenas um papel que é de ajudar Payton, o que é bom, mas poderia ser melhor.

Meu maior problema com essa temporada é seu desfecho, diferente da primeira temporada, que abriu um universo para a continuidade da narrativa, nesse novo ciclo tivemos apenas um vislumbre ou uma ideia do que pode acontecer, não sei se isso foi prejudicado pelo fato das gravações terem acabado logo antes do isolamento social começar, inclusive a cena que a Georgina convida a Dede para ser sua vice deve ter sido gravada durante o isolamento social. Existe a possibilidade dos roteiristas não deixarem muita coisa aberta, já que durante a primeira a segunda era certa, já uma terceira não é tanto assim. Não que o final tenha sido ruim, mas deu para sentir que poderia ser mais. Mostrar os feitos do personagem dois anos depois e como ele estava se acomodando na política, assim como Dede fez durante tantos anos, não que isso fosse ruim, mas agora ele entendia o que ela quis dizer e fez todo sentido ela passar o taco para o político mais novo e seguir para num novo caminho. A aparição de River no final foi um tanto quanto inútil, mas nada que se possa reclamar, já que o personagem não teve tanto espaço nessa temporada.

“The Politician” traz um segundo ato focado e sem rodeios, amadurece seus personagens, mas continua com seu tom excêntrico e crítico. Apesar de não aprofundar tanto aspectos de sua história, deixando-os rasos e sem tanta importância, a segunda temporada consegue entreter e não perde fôlego, mostrando o verdadeiro enredo prometido pelos seus criadores, com atuações impecáveis de Ben Platt, Bette Midler, Judith Light e Gwyneth, em seu melhor estado possível, a série encerra seu capítulo abrindo portas para um (esperado) próximo capítulo da ascensão política de Payton Hobart.

REVISÃO GERAL
Nota:
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