Upload, a nova comédia de ficção científica do Amazon Prime Vídeo, chegou em um dos momentos mais difíceis da história recente da humanidade, durante uma pandemia, para falar sobre morte, luto e futuro pós-morte. De forma habilidosa a série se utiliza de leveza e simplicidade para passar a sua mensagem de esperança no porvir, mesmo que tudo pareça caótico. Além de um elenco conhecido, Upload conta com Greg Daniels, um dos nomes por trás desse show, muito festejado por sua vasta contribuição em várias séries, incluindo The Office, Saturday Night Live, The Simpsons e Parks and Recreation, o escritor, produtor e diretor empresta a sua competência para essa comédia.
Nos idos de 2001 a HBO levava ao ar a série Six Feet Under (A Sete Palmos), uma das melhores séries desse gênero daquela década (e de outras também), que tinha como premissa o tema da morte, tratado com humor irônico, através da perspectiva da disfuncional família Fisher, proprietária de uma funerária em Los Angeles. Inteligentemente a série se utilizava da sua premissa aparentemente mórbida para trabalhar temáticas profundas e complexas, como a finitude da vida, o além vida, a religiosidade e a sexualidade, sempre de forma satírica, cômica e as vezes trágica. Recentemente o Facebook Watch entregou em Sorry for Your Loss uma das melhores performances de Elizabeth Olsen ao dar vida a Leigh, uma mulher depressiva tendo que passar pelas etapas do luto após a perda repentina do marido, uma das grandes questões tratadas nessa série era o destino daqueles que ficam e o daqueles que partem (futuro pós-morte), tema explorado maravilhosamente bem na irrepreensível The Good Place e no emblemático San Junipero, premiado episódio da série Black Mirror. Todas as séries citadas nesse parágrafo são algumas das influências claras na concepção de Upload, não há como desviar o olhar e fingir que estamos falando de uma história 100% original quando muito do proposto na estreante já foi visto em algum outro show com temática semelhante ou mesmo em alguma produção anterior de Greg Daniels. No entanto, esse fato não é um demérito na trajetória juvenil de Upload, pelo contrário, mostra que é possível beber diretamente da fonte só que se utilizando de uma outra perspectiva para contar histórias semelhantes.

Por falar em perspectiva diferenciada, Upload debocha de forma proposital e escrachada das tecnologias, ao mostrar que é possível ter tecnológicos carros que se conduzem sozinhos, dispensando o auxílio do motorista humano, e mesmo assim apresentar falhas no sistema ocasionando mortes. Como foi o caso da morte do protagonista, interpretado pelo ator Robbie Amell, muito conhecido por sua participação em The Tomorrow People, The Flash e recentemente no filme Code 8. Amell dá vida a Nathan Brown, um programador de computadores no ano de 2033, com apenas 27 anos, que se encontra trabalhando em um dos maiores projetos da sua vida, um aplicativo que permitirá às pessoas salvarem suas vidas digitalizando-as de graça. O programador tem a sua trajetória interrompida ao sofrer um suspeito acidente de carro e ficar entre a vida e a morte. Ingrid (Allegra Edwards), sua namorada, em um momento impulsivo, decide transferir a consciência de Nathan em dados e armazená-la em Lakeview, uma espécie de paraíso virtual no pós vida, para futuramente trazê-lo de volta em um hipotético download. Nessa realidade diatópica mostrada em Upload, quem tem muito dinheiro possui a prerrogativa de fazer um upload da sua consciência nos últimos momentos de vida e passar a viver eternamente em um local suntuoso chamado Lakeview. Cada morador do luxuoso hotel tem um programador/assistente vivo remoto chamado de anjo, designado pelo atendimento ao cliente da empresa responsável por esse serviço. Esses anjos não só ajudam no design físico do avatar de cada morador, como solucionam as suas pendências, introduzem atualizações e interagem em forma de avatar dentro do mundo virtual em que o cliente está inserido. Nesse contexto, é possível fazer chamadas telefônicas, chamadas de vídeo e manter interação virtual com aqueles que já partiram, desde que se tenha recursos financeiros para bancar esse estilo de vida.

Após a sua chegada em Lakeview, Nathan lamenta muito a sua partida prematura e se entristece por ter deixado Jamie (Jordan Johnson-Hinds), seu melhor amigo e parceiro de negócios, na mão as vésperas de lançar o seu novo aplicativo. Em pouco tempo ele começa a interagir com Nora (Andy Allo) seu anjo e não demora muito para que sentimentos românticos brotem entre ambos. Obviamente esse plot não surpreende o público e já é até esperado, no entanto, as questões que surgem a partir desse arco é que tornam as coisas mais interessantes. Nora se questiona se é possível manter uma relação romântica com alguém que já morreu fisicamente; da mesma forma que Nathan fica confuso ao se deparar com esse novo sentimento exatamente agora que não pode mais ter a experiência plenamente a vida; por outro lado, Ingrid, a responsável pelos pagamentos do serviço que mantém o upload de Nathan o ameaça constantemente, caso ele não corresponda as suas expectativas, ela o lembra a todo instante que pode simplesmente deixar de pagar o serviço e ele pode vir a ter morte verdadeira. Nathan acaba percebendo que nem na vida após a morte a pessoa é livre de verdade, que sempre há questões financeiras, monetização e especulação em torno de cada indivíduo. Um outro ponto levantado no meio desse arco é o desespero vivido por Nora, que tem um pai doente, mas não possui crédito suficiente para pagar pelo seu upload no momento da sua morte física, por isso, ela tenta conseguir um bom score dos seus clientes para se credenciar a receber um bônus de funcionária.
Em todos os episódios a espetacularização da morte é apresentada de alguma forma, quer seja através de empresas de upload que prometem experiências intuitivas em locais aprazíveis, ou através da venda de trajes de sensibilidade sexual que prometem um contato íntimo mais real entre o avatar e a pessoas viva ou até mesmo através da própria cerimônia de despedida da pessoa que morreu, que é transmitida na televisão e conta com a presença virtual do falecido através de chamada de vídeo. Nesse ponto, a crítica às tecnologias é inserida de forma orgânica e as vezes até divertida, como quando Nora tem um encontro íntimo com um contatinho e ambos usam o sistema de estrelas para avaliar o desempenho de cada um. Correndo por fora existe a investigação sobre a morte de Nathan, que a certa altura da temporada fica evidente que não foi somente um acidente. É a partir dessa crítica social e da investigação que outros atores se destacam, assim, é possível ver em cena Zainab Johnson (Aleesha), colega de trabalho de Nora, Kevin Bigley (Luke), morador de Lakeview que se torna amigo de Nathan e um bom alívio cômico e Chris Williams (Dave), pai de Nora.
Em sua reta final, Upload apresentou uma discussão interessante sobre as pessoas chamadas de 2GB, aquelas que não dispõem de recursos financeiros e amargam nos subsolos de Lakeview, normalmente congeladas abruptamente quando os seus ‘créditos’ acabam, fazendo uma boa analogia com as pessoas que possuem celulares com planos ilimitados e aquelas que utilizam os serviços até que os planos de dados acabem, o que é muito rápido as vezes, ficando sem acesso até o final do mês. Provavelmente esse tema deve ser expandido na segunda temporada (Upload já está renovada para uma segunda temporada), criando um objetivo existencial para Nathan e o seu aplicativo, que pode possibilitar um destino melhor para essas pessoas. Até que ponto essa vida eterna em um paraíso artificial virtual é o melhor lugar para quem teve uma morte física? É válido passar toda a sua vida a limpo, fazendo um exame de consciência em uma espécie de looping infinito? O paraíso virtual é o começo de uma vida livre ou não passa de mais um mecanismo de aprisionamento do indivíduo, que tem todos os seus passos monitorados? Saber o que esperar em uma vida além da morte torna a vida mais tranquila ou põe as pessoas mais humildes na ponta da lança? Questões como essas permeiam a série em meio a um humor mais satírico e descompromissado em Upload.
Olhando rapidamente, Upload a princípio parece uma comédia mediana, boba e até desinteressante, no entanto, todo tempo investido em sua curta temporada de apenas dez episódios é utilizado de forma satisfatória, o seu primeiro episódio facilmente prende a atenção até de quem não gosta muito desse estilo de produção. As discussões levantadas de forma despretensiosa sobre a comercialização, a especulação financeira e a capitalização em torno da morte e do além vida são criativas e reflexivas ao mesmo tempo. A série não é pragmática, ironiza o seu próprio roteiro e não subestima o seu público quando de forma escancarada lança mão de recursos já antes utilizados em diversos outros shows para costurar a sua estrutura sem perder o seu foco.














