Não deve ser fácil conseguir aprovar uma animação infantil onde a sinopse principal são crianças tentando matar os próprios pais. Mas apesar da premissa controversa, The Willoughbys consegue contar uma história com muita poesia, simbolismos e metáforas para falar de respeito, aceitação e amor.
E apesar do argumento sombrio, o filme nunca fica muito sério ou assustador. As cores, texturas e o tom do filme são sempre doces e leves. Não se engane pelos caminhos propostos porque essa é uma história surpreendente sobre as famílias que escolhemos com o coração.
Os quatro filhos são todos carismáticos e fofos. Tim (Will forte) é o mais velho e o que sente o peso da responsabilidade de cuidar dos irmãos e manter a tradição da família. A irmã Jane (a cantora Alessia Cara) é artista e sonhadora, traz esperança e música pro filme, enquanto tenta ajudar a cuidar dos irmãos gêmeos geniais Barnaby (Seán Cullen). Desde a esquisitice extrema de terem o mesmo nome ao timing de comédia perfeito, tudo nos gêmeos é sensacional.
Com inspirações em Desventuras em série e no visual de Tim Burton, o filme conta com uma narração divertida do gato (Ricky Gervais) e ótimos personagens complementares como a babá divertida e animada (a sensacional Maya Rudolph) e o comandante Melanoff (o sempre ótimo pai do Chris Terry Crews).

Não é fácil animar cabelos, pelos ou outras texturas em uma animação modelada em 3d, mas o filme não se limita a regras narrativas, físicas ou artísticas e usa essas dificuldades como oportunidades para piadas visuais. Com uma coragem rara no mercado, propõe formas diferentes e um estilo de movimentos que emula o stop motion e surpreende quando coloca nuvens como algodão doce, cabelos como fiapos de lã e imputa significado para essas mudanças dentro da trama. O filme, junto com Klaus, é um respiro criativo no mercado de animações.
E é sempre rico quando existem camadas profundas em uma história infantil. O bigode é um símbolo forte de identidade dentro da família Willoughby e a Mãe transforma essa identidade em bordado inútil, esvaziando a tradição e o que significa se importar com o legado deles. A imagem dos gêmeos que se alternam na divisão do casaco mostra esse desprezo e essa urgente necessidade em se defender desses pais egoístas, desprezíveis e excessivamente maus.
Em certo momento do filme a casa é destruída, acabando com os corredores da antiga mansão, que celebravam os ancestrais ruivos da família Willoughby. Esse rompimento é importante, porque mostra que as crianças de hoje estão distantes daquela tradição e dos fortes laços familiares. Agora eles vão ter que construir novas conexões que sejam tão fortes e relevantes quanto as dos quadros.
Às vezes, sua melhor família é composta pelas pessoas que estão do seu lado, por aqueles que amam você, independente do sangue. Essa mensagem é importante e atemporal e serve para crianças de qualquer idade. The Willoughbys é uma história doce, corajosa e sensível provando que a Netflix é o espaço de maior liberdade criativa no mercado hoje.





















