Em 2017, estreou na Espanha uma série que chegou de forma silenciosa, sorrateira, mas que viria a conquistar um grande destaque em meio às produções de todo o mundo. Com roupões vermelhos e máscaras de Dali, La Casa de Papel se tornou um estrondoso sucesso não só nas telas, mas muito além: com tamanha expressão de rebeldia e liberdade anti-capitalista em sua narrativa, cosplays marcaram presença nas mais diversas manifestações ao redor do mundo, fazendo com que a obra se tornasse não só uma série, mas uma ideia na cabeça de muitos.
A série, entretanto, só adquiriu tamanho sucesso após ser comprada e distribuída pela Netflix, e com uma nova galinha dos ovos de ouro nas mãos, o serviço de streaming não pensou duas vezes: um novo Atraco foi anunciado. Agora, além da Casa da Moeda, os personagens se viram com um desafio ainda maior à frente: assaltar o grandioso Banco da Espanha. E assim foi a terceira parte da série de língua não inglesa mais assistida de toda Netflix, deixando alguns belíssimos cliffhangers para sua próxima temporada, que prometia ser ainda melhor que as anteriores.
Bem, mas assim como os planos do Professor, que dão certo grande parte das vezes, mas falham em situações pontuais, a série sofreu com um grande deslize e, ao tentar se prolongar demais, entrega uma quarta temporada que quase não chega a lugar algum. Enquanto atraco à Casa da Moeda – ou assalto, como preferir – teve fim na segunda temporada, o roubo ao Banco da Espanha se prolonga, com uma continuação que se arrasta ao extremo e se limita a responder algumas perguntas deixadas pelo último episódio da temporada anterior. Para embasar tal análise de forma concreta, o parágrafo a seguir conterá SPOILERS, mas todos os seguintes não, podendo ser lidos até por quem ainda não assistiu à temporada.
Inicialmente, vale lembrar como a terceira temporada se encerrou: relacionamentos estão em cheque; Nairóbi leva um tiro e fica à beira da morte; Professor fica desolado pela execução forjada de Lisboa; e Rio e Tóquio começam uma guerra. A quarta temporada, assim, serviu só e somente para responder, em oito episódios, esses questionamentos deixados anteriormente: a personagem de Nairóbi é salva apenas para morrer depois; Professor, depois de um tempo, se recompõe e salva Lisboa; uma trégua é colocada na guerra entre o governo; e os relacionamentos amorosos se esvaem. Seis episódios de Raquel sendo interrogada em segredo; seis episódios para a morte da Nairóbi que todos já esperavam ao fim da terceira temporada; e sete episódios para que o segurança Gandía, já destacado no trailer, se rebele e seja vencido. E o roubo? Continua no mesmo lugar. E, se não bastasse, vários elementos do assalto anterior são repetidos ao final da temporada: a inspetora que, ao ser afastada do caso, consegue encontrar o Professor sozinha por meio de câmeras na cidade; e a assaltante antes presa, que se liberta e consegue entrar no prédio cercado por policiais.
Com uma grande quantidade de séries que, hoje, exaustam seus públicos com narrativas intermináveis que continuam apenas pelo puro anseio por lucro, La Casa de Papel vai contra as próprias ideias anticapitalistas em sua narrativa e entrega uma temporada meramente comercial. Portanto, se torna redundante e fica claro que todos os enrolados episódios poderiam ser, facilmente, condensados na metade do que foi proposto – ou seja, todos os acontecimentos da temporada poderiam, facilmente, se passar em quatro meros episódios, abrindo espaço para continuar sua história ali mesmo.
Mesmo que a temporada mais desperdiçada e, ao mesmo tempo, a de menor qualidade até então, é inegável que apresenta cenas incríveis e muito bem construídas, que apelam tanto na emoção do espectador quanto na êxtase pelos clássicos ‘tiro, porrada e bomba’, todos muito bem presentes na temporada. Na ação, de fato se destacou na cena onde Gandía se vê em um tiroteio contra quatro dos assaltantes; e na emoção, conquista quando a gaita de Helsinki marca a fúnebre trilha sonora – quem assistiu sabe muito bem qual a cena.
Além disso, apresenta também diversos momentos importantes tanto para o desenrolar de sua história quanto para o desenvolvimento de seus icônicos personagens. Um belo exemplo é os choques na relação entre Estocolmo e Denver – também iniciados na outra temporada –, mostrando que a personagem Monica, de fato, não conhecia tão bem seu parceiro quanto acreditava, e que talvez realmente tivesse sido vítima da síndrome que lhe deu seu nome de assaltante. Novos vínculos se criam e novas relações são formadas, o que torna o elo entre o grupo de assaltantes ainda mais profundo e significativo – gerando, inclusive, uma intensa expectativa para o futuro da série em relação aos casais e seus destinos.
Outros dois fatores se destacaram na temporada, e são eles os novos personagens – ou o destaque àqueles que antes eram secundários – e os assuntos abordados em segundo plano. Marselha, por exemplo, era um simples personagem secundário na terceira temporada, mas aqui recebeu sua chance de crescer e se tornar querido aos olhos do público; Palermo e Bogotá, os outros dois apresentados anteriormente, foram ainda mais aprofundados nos novos episódios e se mostraram personagens muito bem construídos. Benjamin e Manila são outros dois personagens marcantes, que apareceram pouco mas, ainda assim, foram grandiosos em suas propostas com o plano – esperamos ver muito mais deles no futuro. Novamente dois pequenos spoilers no parágrafo a seguir.
Falando na personagem Manila – ou Julia –, temos em sua construção um dos assuntos mais significativos abordados em La Casa de Papel desde então: a transexualidade. Ao conversar com Denver, seu amigo de infância, pode até compor uma cena curta, de poucos minutos, mas abre toda uma discussão sobre a transexualidade e o sentimento das pessoas que se reconhecem como trans desde crianças, apresentando uma personagem marcante e complexa, ao mesmo tempo que permite um significativo amadurecimento de seu amigo esquentadinho – mas que, como já sabemos, possui um enorme coração. Outra discussão importante trazida em segundo plano é o do abuso sexual, este causado por ninguém menos que o personagem mais odiado da série, Arturito – achou que não seria possível odiá-lo mais? Achou errado!
Por último, vale ressaltar que um dos toques mais brilhantes da obra, iniciada na terceira temporada, está de volta: o amor e o fanatismo da população pelos personagens e por suas consideradas justas ações geradoras de caos. Assim como as pessoas se vestem de Dali na própria série e vão às portas do assalto para torcer pelos assaltantes, o mundo aqui fora, como já comentado, veste as mesmas roupas e vai às manifestações lutar por seus direitos. A cena onde Lisboa é escoltada pela polícia em meio à manifestação é a prova mais pontual e emotiva de que a série soube usar esse fator da realidade externa a seu favor – quase como se estivesse quebrando a quarta parede, pois é como a atriz seria trata em meio aos fãs que enxergam em Bella Ciao a volta de um hino revolucionário. Assim como Daenerys, em Game of Thrones, é mostrada em meio a seus súditos que acabara de libertar, Lisboa passa por uma cena extremamente semelhante – visualmente e simbolicamente –, onde, vista de cima e no centro da tela, é cercada pelas pessoas que enxergam nela uma representação da liberdade.
Assim, La Casa de Papel continua a ser uma obra inteligente e bem-feita, conseguindo novamente contrapor as noções de certo e errado entre um grupo de criminosos e um governo corrupto, que claramente espelham as noções que, fora da tela, são consideramos reais por tantas pessoas e, a partir disso, volta a alimentar a sede revolucionária de seus espectadores. Mesmo assim, a temporada deixa a desejar pelo arrastamento de sua narrativa que poderia, muito bem, ter sido condensada na metade dos episódios propostos e trazer, já nessa parte, a conclusão tão esperada do assalto. Surpreendendo por ser a primeira temporada onde Tóquio não é a pioneira das grandes burradas – Palermo e Rio, dessa vez é com vocês –, La Casa de Papel consegue facilmente entreter seus espectadores, mas os menospreza ao entregar um resultado final prolixo, arrastado, redundante e um tanto quanto repetitiva que quase não chega a lugar algum. Agora resta à legião de Dalis ao redor do mundo esperar pela próxima temporada, na expectativa de que o assalto ao Banco da Espanha finalmente chegue à sua esperada conclusão.














