O despertar de um grande jogador.

Não medi palavras no meu texto sobre a estreia de The Circle Brasil: JP era, sem dúvida alguma, o participante mais injustiçado pelos espectadores do programa. A segunda semana veio para confirmar esse fato, à medida que o bombeiro revolucionou o jogo e transformou a franquia brasileira na melhor entre todas as temporadas de The Circle que foram ao ar até hoje.

O que acontece é que JP, ao mesmo tempo em que tem uma excelente percepção do jogo e das reais intenções das pessoas em termos de gameplay, também tem uma característica que o torna o jogador mais próximo de Joey, da temporada americana: ele trabalha com a verdade. E jogadores como ele têm um certo dom de fazer a verdade atravessar pela tela.

É essa característica que faz com que Dumaresq defenda JP afirmando que teve “interações muito positivas” com ele na hora de decidir junto com os gêmeos quem será o próximo bloqueado do reality. Da mesma forma, Luma, que insiste em confiar desconfiando (tenho a sensação de que um dos gêmeos confia no JP e o outro não confia, por isso que vemos sempre os dois discutindo isso), conseguiu fazer dele seu maior aliado também com base na honestidade com que sua relação com ele se constrói. 

É verdade que JP também tem defeitos, como a mania de apontar para os outros pra dizer que “jogam sujo”, mas o problema é que todo o cast parece estar fazendo isso. A leitora Grethi fez um comentário bastante interessante no texto passado: a caça aos fakes é, na verdade, apenas uma desculpa que os jogadores dão a si mesmos para eliminar alguém sem peso na consciência. Se a pessoa é fake, ela é falsa, está mentindo, então merece sair. 

Isso não faz sentido nenhum para alguém que está jogando The Circle para vencer, e felizmente tivemos uma jogadora icônica que abriu os olhos de todos para tal fato. Mas falaremos sobre isso mais tarde. A questão aqui é que, com o fim da caça aos fakes, os jogadores começaram a precisar de uma nova desculpa. E foi aí que a redtégui #JogoSujo entrou para os Trending Topics do The Circle. 

O fim de um Gay…bol

Começamos a semana com uma eliminação bastante prevísível: Gaybol, via bloqueio automático. Não há muito o que dizer aqui. Gaybol já havia sido o último colocado anteriormente, e infelizmente, ao contrário de JP, não conseguiu se recuperar da situação ruim em que se encontrava.

Apesar de ter sido um péssimo jogador no The Circle, Gaybol foi um participante muito interessante de acompanhar, e é possível entrar até em uma discussão antropológica interessante baseando-se na participação dele: quando alguém passa muito tempo preocupando-se em se encaixar e ser aceito, sua essência acaba sendo perdida, e a pessoa não consegue mostrar sua real personalidade. Por mais que tenhamos muitos padrões valorizados socialmente – ainda mais em tempos de curtidas e de fotos no Instagram -, vivemos em uma era em que diferenciar-se é a alma do negócio. Gaybol se perdeu em meio a essas questões, e a sensação é de que sua busca por aceitação foi seu pior inimigo no jogo.

Polos em guerra

Se Gaybol nos deixou de forma bastante calma, o mesmo não pode ser dito sobre Lucas/Loma, uma eliminação que definitivamente representou uma guinada de 180° no modo como The Circle Brasil é jogado. E tudo começou com um pequeno grupo de 3 pessoas chamado “Aliança Norte-Nordeste”.

A origem dessa aliança se deu porque nosso caro JP percebeu algo bastante simples: existiam relações já consolidadas no prédio. E essas relações não o levavam a uma boa posição no ranking. Assim, era necessário começar a trabalhar para construir as suas próprias e virar o jogo. E a melhor maneira de executar essa ideia era convocar as duas jogadoras recém-chegadas, que não estavam integradas à dinâmica inicial que havia cimentado Duma, Marina e Lolô nas posições confortáveis que eles agora ocupavam.

Ajudado por sua beleza (que atraiu o flerte de Ray e o fez perceber que ela seria uma boa aliada), JP decidiu que, em vez de ficar cozinhando Ray e Luma separadamente em banho maria, ele iria partir para o jogo. E assim, juntou as duas em um chat só e propôs explicitamente uma aliança, prometendo lealdade e proteção às jogadoras e pedindo o mesmo a elas. 

Deu certo! Enquanto alguns jogadores, alienados dessa dinâmica, usaram um pouco de estratégia e subestimaram JP para tentar controlar as avaliações, suas duas aliadas o puseram em primeiro lugar, elevando-o assim ao topo do terceiro ranking e alçando-o ao posto de influenciador da semana junto com Lorayne. E foi aí, meus amigos, que a guerra oficialmente começou.

A tensão na dinâmica entre JP e Lorayne para decidir a eliminação estava fortíssima, e foi a melhor discussão entre influencers que já vi em toda a franquia The Circle (superando até mesmo o ciclo Tim-Georgina no The Circle UK season 2, também um dos momentos mais épicos da franquia). Porque, desta vez, não havia consenso. Não havia voto fácil ou jogador descartável, alguém que algum dos dois concederia com facilidade. 

JP queria o sangue de Akel, um jogador inútil para ele, mas que ajudava muito o lado oposto. Mas Akel era o boy da Lorayne, que queria o sangue de Lucas, alguém que estava numa posição de excluído da aliança dominante do jogo, e que JP, portanto, não tinha interesse em descartar. Nesse cabo de guerra, Lorayne vence, e Paloma deixa a competição. Mas a questão que ficou clara foi: será que Lorayne venceu mesmo?

Revolucionária

Antes de analisar as consequências da decisão de Lorayne de lutar por Akel a todo custo e eliminar o boy da amiga, precisamos falar sobre esse ícone que é Loma. Carismática e inteligente, não me canso de dizer que Loma só cometeu um (enorme) erro nesse programa: não ter entrado como ela mesma. Seu Lucas era totalmente superficial e morno, e jamais teria vida longa na competição. Mas um perfil real de Loma, esse teria decolado!

É claro que alguém desse naipe não iria sair da competição sem causar uma segunda revolução no jogo. Loma abriu os olhos de Marina da forma como eu gostaria que eles fossem abertos e, depois, mais superficialmente, deixou sua máxima para todos: pra quê perder tempo caçando fakes quando vocês podem usá-los para beneficiar o seu jogo? 

E assim, simplesmente, Paloma oficializou o fim da caça aos fakes em The Circle Brasil, e um início de uma jogabilidade de altíssimo nível. A nova era chegou, amigos, e nela, meninas vestem azul e fazem quadradinho para as câmeras, enquanto meninos vestem roupas multicoloridas e babam pelo bombeiro estrategista. 

A queda de um power couple

Meu maior sonho se realizou, e Marina, livre de Lucas, se tornou a jogadora que eu sempre quis que ela fosse. JP, espertíssimo, correu e contou a ela o que houve, deixando claro que ele lutou por Lucas e jogando Lorayne embaixo do ônibus. Nenhum problema aqui, visto que JP apenas usou a verdade ao seu favor de maneira muito inteligente.

Lorayne, por outro lado, teve zero sagacidade para seu controle de danos. Escorregou para todos os lados ao tentar falar sobre o bloqueio, entrou em múltiplas contradições e não chamou Marina para uma conversa particular honesta para tentar explicar seu ponto de vista. Isso sim, é ficar #TodaCagada né amore?

Sentindo-se abandonada pela amiga, Marina não apenas se afastou dela, como também, influenciada pela conversa com JP, estabeleceu como meta um novo alvo: Akel, o boy de Lorayne. E faz todo o sentido que ela tenha adotado esse objetivo. Não por nenhum tipo de vingança (embora esse seja um motivo maravilhoso sim!), mas sim porque, vejam bem, se Lorayne libertou Marina do “fake” e a fez acordar para o jogo, então talvez esteja na hora de Marina retribuir o favor. Lorayne está cega por Akel, e ninguém melhor que Marina para compreender a importância de remover esse obstáculo para que Lolô volte a enxergar o jogo como precisa.

O alvo rapidamente é estabelecido no grupo “Elas que lutem”, e Dumaresq, que também tem uma ótima percepção estratégica (aliás, Duma melhorou bastante nessa segunda semana, hein?), já entendeu que Akel está muito mais enfraquecido do que JP, e portanto seria um alvo bem melhor. Gostaria de frisar essa última questão para quando formos conversar sobre o cliffhanger da semana. Guardemos a informação, portanto.

Vilões se divertem mais

Além dessa dinâmica maravilhosa, surge uma nova personagem para o nosso círculo: Ana, feminista, gorda e orgulhosa do seu corpo, ou melhor dizendo, Raf, uma verdadeira definição ambulante de bicha má. 

Ana parece ter sido feita sob medida para agradar Marina, e o próprio Raf enxerga isso e corre para se conectar com ela, com aparente sucesso. Ele também se gaba de ter manipulado Dumaresq, o que não é exatamente mentira, mas também não é tão verdade assim, pois Dumaresq provavelmente teria salvo Marina do bloqueio de qualquer forma. Além disso, manipular para fortalecer a relação entre Duma e Marina não me parece um tipo muito inteligente de manipulação. 

O que Ana/Raf não percebe é que sua personagem dificilmente se sustentará por muito tempo. O jogo do The Circle é traiçoeiro para os fakes, principalmente aqueles que não escolhem perfis tão próximos do seu próprio. Fazendo um paralelo entre Luma e Ana, é notável que os gêmeos escolheram uma persona que lhes permitiria ser exatamente que eles são, com todos os gostos, regionalismos e conhecimentos dos quais os dois estivessem munidos para manter a personagem. Já Ana, apesar de ser a melhor amiga de Raf, é alguém muito diferente dele, e por isso só será sustentada até certo ponto. 

Raf já se mostrou inteligente suficiente para contornar algumas situações, mas não consigo vê-lo chegando ao fim do jogo. Eu, no lugar da produção, teria feito exatamente isso: colocado Raf mais no final do game, já que ele, como a maioria dos vilões, é um excelente personagem para garantir good tv, mas não para vencer o jogo. Sabemos que quem entra após a metade do game tem suas chances de vencer praticamente nulas, então a melhor hora para introduzir esse tipo de personagem é justamente no ponto médio do decorrer do jogo. 

50 tons de shade

Se imaginávamos que Raf seria a pessoa mais ferina a desenhar um quadro, estávamos bastante enganados. Surpreendentemente, Dumaresq e Luma foram os que mais jogaram bombas em seus adversários, atacando Lorayne a Marina direto na jugular. Marina é tão Ella (The Circle UK Season 2) que ganhou exatamente a mesma crítica que ela nessa atividade. “Cuidado, amiga de todos, forçada”. 

A crítica a Lorayne, por outro lado, foi mais criativa. Gostei da rosa com espinhos. Foi um pouco injusta? Foi. Lorayne está longe de ser vilã. Mas ela precisava de um sacode no jogo. Sou um pouco manteiga derretida e fiquei com pena da menina? Sou. Mas, ao mesmo tempo, gostei. Adendo: Raf incomodado porque Dumaresq estava dizendo gostar do quadro, mesmo com sua crítica, foi sensacional! O famoso “Titia tá tomando na cara e tá agradecendo” se tornando um mantra no The Circle Brasil.

O curioso é que as críticas saíram pela culatra, pois Marina e Lorayne acabaram se reconectando por meio do seu sofrimento. Desde a eliminação de Lucas, as amigas haviam se perdido uma da outra, e os quadros catalisaram seu reencontro e sua reconciliação. As duas parecem mais unidas do que nunca, e algo me diz que isso irá refletir no jogo, o que não pode ser bom para a concorrência.

O bloqueio

Finalizamos a segunda semana com um gancho bem meia boca, mas primeiro precisamos comemorar nossa querida Luma em #1. A Aliança Norte-Nordeste segue firme no topo, preservando seus membros. Mas com um porém: há um membro a parte, do qual JP e Ray não estão cientes. Luma, nada boba, abocanhou Dumaresq para si e se tornou uma de suas aliadas mais próximas, disputando com Marina a posição #1 do nordestino. 

Assim, Luma e Duma seguem para a sala azul e começam sua discussão, e já começamos a ver os gêmeos sendo geniais novamente. Eles escolhem salvar Ray, uma aliada cuja relação precisa ser fortalecida e que também seria bem mais difícil de defender numa discussão com o outro influencer do que JP. O motivo – ou melhor, a desculpa – também foi perfeito. Se Ray ficou em #3 no ranking, faz todo o sentido dizer que o critério foi respeitar a decisão do prédio, quando sabemos que a decisão não teve nada a ver com isso. 

Duma não choca ninguém ao salvar Marina, mas também tomou uma decisão corretíssima, reforçando uma relação que é muito boa, mas já havia sido melhor. Vale uma menção à competência da produção do programa em mudar um pouco as regras desse bloqueio. Na versão americana, os influencers continuaram salvando pessoas individualmente, o que levou a um resultado que odiei, mas que foi perfeito como twist. Aqui, porém, a dinâmica é mais interessante. Eles salvam uma pessoa individualmente, mas ainda precisam discutir entre si para decidir o eliminado entre as 3 que restaram. Gostei bem mais assim, e também celebro o fato de não estarmos lidando com uma cópia xerox da versão americana. 

Muitas pessoas afirmam que a promo da última semana está entregando spoilers do próximo bloqueado e dos finalistas. Eu nem assisti para não correr riscos, mas me lembro muito bem de que pensei exatamente a mesma coisa da promo do final da versão US, e me dei mal, pois a edição havia sido toda feita para nos dar spoilers falsos. Desta forma, não levo a ferro e fogo essa certeza da galera.

Isso posto, não vejo margem nenhuma a dúvida de que Akel será o próximo bloqueado. Ele vem sendo discutido como alvo há dois episódios e está socialmente bem mais isolado que Lorayne. Akel chega a comentar que espera não ter afundado o jogo de Lolô, mas, ao meu ver, o que aconteceu foi o contrário. Foi a própria Lorayne que afundou o casal e eliminará Akel ao defendê-lo com tanto afinco em sua semana anterior como influenciadora. O problema é que, por mais que Lorayne gostasse de Akel e ele fosse benéfico para seu ranking (o que, no caso, não fez diferença nenhuma, pois os dois ficaram na lama no ranking seguinte), o mineiro não gerava nenhum dividendo para o jogo dela. Pelo contrário, não tinha conexões com ninguém e tinha até relações estremecidas com alguns. Desta forma, ao evidenciar sua lealdade a Akel acima de tudo, Lorayne se isolou junto com ele e jogou fora todo o trabalho que teve para se posicionar bem nos ciclos anteriores em nome de defender seu boy. Já podemos dizer que a lição do The Circle Brasil é: meninas, esqueçam esses machos, eles só afundam vocês!

Ainda assim, acredito que o jogo ainda não acabou para Lorayne. Uma vez livre de Akel, ela tem tudo para se libertar, da mesma forma como Marina se libertou e começou a jogar de verdade. Ansioso para ver como essa amizade do pop reagirá às últimas reviravoltas do prédio, porque, ao que parece, a união entre as duas pode ter sido um primeiro sinal de que elas acordarão. 

Ranking

#1 Luma: já falei bastante sobre o quanto Luma está jogando bem e, se eu já apostava nos gêmeos como finalistas da temporada, agora eu começo a acreditar que eles são quem mais tem chance de vencer. É impressionante o quanto eles são estratégicos enquanto navegam com inteligência o jogo social.

#2 JP: foi o grande responsável pela reviravolta no jogo e por transformar o The Circle Brasil em um jogo de alto nível. Apesar disso, não o vejo bem relacionado suficiente para garantir uma vitória no ranking final, mas não descarto a possibilidade e sigo apostando nele como finalista, como sempre.

#3 Marina: ela se tornou tudo que eu sonhava pra ela depois da eliminação de Lucas, e agora eu já amo com todas as minhas forças. Se vencer, vai ser merecido, e as chances são bastante razoáveis. A final eu já vejo garantida.

#4 Dumaresq: conseguiu melhorar bastante em relação ao seu começo conturbado, e está um pouco mais contido e tomando decisões mais inteligentes. Também está garantido na final com chances de vencer, mas menores do que as de Luma e Marina.

#5 Ray: aqui começa a minha dúvida sobre para quem vai a última vaga da final do The Circle Brasil. Tudo parece favorecer Ray neste momento. Ela está muito mais bem posicionada e bem relacionada do que Lorayne no jogo. Entretanto, algo me diz que as raízes do jogo vão falar mais alto e que Marina pode definir essa questão no futuro. Vejo Ray com grande chance de ser eliminada pelo super-influencer ou como a última eliminada do ranking final e, portanto, barrada do Top 5. Uma observação: achei muito interessante o contraste entre o date da versão americana, que foi levado mais a sério pelos participantes e por isso rendeu muita diversão assistindo Adam e Seaburn, e o date de Ray com Lorayne, que foi 100% estratégico.

#6 Lorayne: Ela está na lama, mas se tem uma coisa que Lorayne já provou que sabe fazer é conquistar popularidade. Como previsto, Akel afundou o jogo dela, e acredito que, sem ele, ela tem tudo para se recuperar e ser a quinta finalista do jogo, ainda que por pouco.

#7 Ana: alguns comentários de Raf me incomodam muito, especialmente em relação a pessoas gordas (ele parece o tipo de pessoa que responderia “mas minha melhor amiga é gorda, não tenho preconceito”). Algo me diz que a edição não iria inserir esse tipo de comentário se quisesse que torcêssemos por ele. Vejo Ana como provável eliminação em algum momento em que os influencers não quiserem se comprometer. 

#8 Akel: irei me surpreender muito se ele for escolhido para continuar no jogo no lugar de Lorayne. Pra mim, já até saiu. E a falta de noção de ficar lavando roupa suja no chat dos flopados na hora de sair não desperta nenhuma expectativa de saudades.

REVISÃO GERAL
Nota:
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Guto Cristino
Guto Cristino é engenheiro químico, jornalista e administrador. Nessa salada toda, o tempero constante é a paixão por séries e por Christina Aguilera, sempre presentes em seu cada vez mais curto tempo livre. No Série Maníacos desde 2011, é especializado em cretinice televisiva, com foco em novelões e realities, mas garante que vê série boa de vez em quando.
the-circle-brasil-01x05-08-pintando-verdadesCom excelentes personagens e elevando o nível do gameplay da franquia, versão brasileira do reality decola de vez em sua segunda semana e se mostra potencialmente a melhor temporada de The Circle já exibida em nível mundial.