Leitoras e leitores do Série Maníacos, sejam todos bem-vindos de volta ao nosso programa. Essa semana temos muitos assuntos para debater e grandes questões para serem perguntadas. The Morning Show, nosso assunto principal, deu-nos muita coisa para pensar em seus cinquenta minutos de duração. Quase uma semana após o evento, e acompanhando a repercussão, talvez consigamos analisar com calma o que “That Woman”, quarto episódio da série, fez com as possibilidades que tinha em mãos. Diferente do que fora reportado no texto anterior, não tivemos uma semana ao redor de Jennifer Aniston e sua personagem, mas que fez um retrato de Bradley Jackson. No especial de hoje, avaliaremos como esse perfil foi traçado e quais as consequências futuras para as ações da última cena.
Percebi que em diversos lugares, That Woman foi avaliado como o melhor episódio da série. Para que você chegue a essa conclusão, é preciso que tenha percorrido um caminho que não será comum a todos. É preciso que aceite como possível algumas possibilidades que assim não soarão a todos. Como nosso programa não tem o objetivo de apenas jogar essa teoria a você, mas tentar fundamentá-la de alguma forma, vamos juntos refletir o que fora mostrado na produção da Apple Tv+. Nosso programa será dividido em dois blocos, no qual cobriremos duas questões diferentes: no primeiro, falaremos sobre verossimilhança; no segundo, falaremos sobre adivinhação.

Para que nossa audiência não fique confusa quando entrarmos em questões reflexivas, fica o registro de que eu gostei do episódio. É divertido. Ele reafirmou o mesmo senso de familiaridade falado por aqui anteriormente, do qual se beneficia. O que ficou dele, no entanto, foi um estranhamento, a sensação de que algo estava fora de lugar, e é esse algo que buscaremos descobrir juntos.
PRIMEIRO BLOCO: VEROSSIMILHANÇA
Ou coerência. Este é um dos elementos que te afastará ou te aproximará do episódio. Gostar do desenvolvimento de The Morning Show tem muito a ver com o quanto você acredita no desenrolar da série. Se o caminho percorrido aqui pela personagem da Bradley soou natural, racional e fez sentido para você, That Woman provavelmente se destacará como um grande episódio. A personagem de Reese Witherspoon, que ocupou poucos parágrafos na nossa conversa anterior, é o grande foco dessa vez. O roteiro se aproxima dela, desfocando as outras personagens e lhe doando uma semana para se apresentar novamente a nós. Novamente porque, mesmo depois de quatro horas (e duas semanas) com essa personagem, ainda há uma sensação de imprevisibilidade. Parece que não a conhecemos, e isso não soa tão divertido quanto soaria na vida real.
“Ela é uma artista performática”.
“Isso é o que a América ama sobre você” diz Alex a Bradley no primeiro programa das duas como âncoras. Mas o que a América ama, de fato? Há uma resposta concreta e segura sobre isso e que satisfaça ambos os lados — nesse mundo ocidental polarizado em que estamos vivendo? Mais difícil do que responder isso é perceber aonde quer chegar essa personagem e por que o roteiro traça esse caminho para ela. Não só ela, mas Cory (Billy Crudup) também representa um grande problema, tornando improvável que cumpramos o acordo entre o objeto fictício e sua plateia. Isso porque, quando assistimos a uma série ou a um filme, há um acordo não dito de que aquilo irá nos entreter e terá alguma imitação da verdade, conceito explorado por Aristóteles. As duas personagens, no entanto, não parecem pessoas, quebrando um pouco do encanto que mesmo mundo medievais conseguem recriar em nosso contemporâneo.

Bradley é apontada como alguém que passou décadas trabalhando como jornalista. Ela passou por diversos lugares, o que nos diz que é uma pessoa inquieta. Houve uma menção a um incidente que teria ocorrido ao vivo, no qual falara um palavrão. A repórter, no entanto, nos diz que não é definida por aquele momento, mas pelos longos anos de trabalho duro — temos uma prova disso em seu discurso durante aquele protesto, no qual mostrou conhecer bem mais sobre o assunto do que as próprias pessoas se atracando no local. Essa pessoa inquieta, frustrada, mas que tem uma vida devota à profissão, ganha espaço e a chance de uma vida para alcançar aquela meta que o pessoal do partido da meritocracia defende como possível.
O que ocorre é que o episódio desmente essa Bradley que apresentou nos três primeiros episódios. Não só ela erra novamente nos primeiros sete minutos, como decide entrar numa missão estranha para afundar o próprio programa. Faz sentido que a inquietação exista e seja manifestada, mas por que alguém tentaria, de propósito, prejudicar a si próprio e à própria plataforma uma vez que tem o seu auge profissional alcançado? Assim, parece que Bradley não é a mulher da pesquisa e do trabalho duro, mas a que surtou e se tornou viral na internet. Bradley é, portanto, o estresse do momento, os gritos sobre os protestantes, a que fala palavrão ao vivo. Se nós, telespectadores, não somos definidos pelos nossos escorregões, pelo nosso momento de ira, parece que a personagem o é.

Temos duas opções: ou Bradley não sabe quem é como pessoa, está passando por uma crise e a série será sobre como se descobre uma arma ou um peão nesse jogo de poder da emissora; ou Bradley é a pessoa rebelde e petulante que eu acabei de apresentar. No primeiro caso, é como se tivéssemos tornado Sansa Stark (Game of Thrones) a grande protagonista durante toda a série. Ou seja, uma personagem que ainda precisa se descobrir, entender sua força e seu posicionamento na história. Muitas séries erram por tentar tornar essas as suas personagens protagonistas. O que gostamos, pelo contrário, são protagonistas que se entendem. É por isso que Alex foi por mim elogiada anteriormente. É por isso que quase todas as personagens de Game of Thrones foram exaltadas durante a série — mesmo quando o roteiro não sabia o que queria, as personagens pareciam saber. Mesmo sendo as pessoas confusas que somos, nós gostamos da ideia de alguém que pareça completo e saiba o que quer.
No segundo caso, caímos no mesmo problema que nos distancia da personagem de Jennifer Aniston: o privilégio. Imagine você, leitor, tendo a oportunidade de trabalhar na maior plataforma da sua área. Imagine, agora, você se comportando da mesma forma que Bradley. Chega a ser insultante que alguém se porte dessa forma diante das milhares de pessoas voltando para casa com diplomas nas mãos, mas sem conseguir fazer parte da área que estudaram na faculdade. De crível, temos a reação imediata da internet, obrigando que mesmo cantoras pop assumam lados. As referência ao que seria o mundo externo à emissora são sempre interessantes e não deixam de se fundamentar em alguma verdade.

Essa desconstrução (ou confusão) da personagem parece ter sido elaborada para que chegássemos a última cena, quando Bradley entrevista Ashley Brown. É o grande momento do episódio, “a grande cena” sobre a qual me referi semana passada. Como eu tinha dito, mesmo através de decisões confusas, a série chega a essas grandes cenas. Para que tivéssemos as revelações dramáticas da vítima de Mitch (Steve Carell), era preciso que algo fosse o catalizador. Esse algo se torna a personagem de Reese, a um custo grande demais para o programa. Rende-nos, por fim, uma cena brega de confronto — na qual, aliás, Aniston reage bem, e Reese faz umas caretas medonhas de se assistir. Vale também mencionar que o que ela fez, provocando uma mulher fragilizada a falar sobre sexo oral ao vivo, foi, em alguma medida, cruel. Fica a conclusão de que se a série se arriscar a ser mais sobre Bradley do que sobre Alex, estará se condenando. Se quiser ser sobre as duas, terá que tornar Jackson tão crível quanto Levy.
Cory traz outro estranhamento para a história. Que ele tenha usado Bradley para importunar Alex, nós compramos. Que ele tenha apostado em alguém que ficou famoso na internet para apresentar seu programa e abafar um escândalo, nós (até) compramos. Mas a partir disso, é pedir demais que não soe estranho o quanto ele empurra a personagem para que caia diante do público ou para que coloque o programa em risco. Num mundo em que as pessoas fazem boicotes a marcas e lojas, faria sentido que ele gostasse que a apresentadora desmascarasse seu próprio telejornal ao vivo? Pode ser uma aposta, mas é uma aposta séria demais, arriscada demais — e burra demais. E se não acreditamos, não nos interessamos. É a rota mais curta para que acabemos com o celular na mão, ouvindo a série como barulho de fundo.

Ainda fazendo referência a nossa conversa anterior, quando eu disse que as personagens secundárias às vezes (em The Morning Show) são mais interessantes que as protagonistas, temos exemplos disso no quarto episódio. A segunda grande cena que eu destacaria é a conversa de Mia (Karen Pittman) com a condutora da pesquisa sobre comportamento, Vicki Manderly. Karen parece bem mais apropriada e promissora do que Resse em seu papel. Há um jogo entre falar muito e falar pouco, entre olhares que explicam coisas que ela não gostaria de revelar e uma constante decepção e irritabilidade por estar distante do poder que preferiria assumir nas situações.
SEGUNDO BLOCO: ADIVINHAÇÃO
Assim como no bloco anterior, este tem um tema que acabará nos levando à subjetividade. Talvez não em seu conceito, mas na influência que ele tem sobre a experiência individual, de cada telespectador. Para explicar melhor, preciso recorrer ao teatro. Diante do palco, a plateia se reconhece em um momento de encenação, por mais que possa se perder na narrativa. A plateia sabe que tudo é truque e está atenta ao mínimo erro dos atores, sendo mais difícil que estes desapareçam nas personagens. Ou seja, não adianta tentar enganar a plateia, iludi-la com truques bobos. O pacto ali não é o do cinema e da manipulação através da decupagem. Nós vemos os truques. Dependendo da peça, nós vemos o cenário sendo montado, nós vemos, respirando, a personagem que acabou de morrer, nós vemos uma cortina abrindo e fechando para colocar na caixinha esses brinquedos da dramaturgia. Na televisão, no entanto, o jogo é outro.
Na televisão, o quanto você consegue adivinhar de um roteiro mostra o quanto ele é simplista e óbvio. Pessoalmente, acredito que nós não podemos antecipar reviravoltas, falas e mesmo olhares de uma narrativa porque isso a empobrece — principalmente em alguns gêneros. Em The Morning Show, por exemplo, que é esse acumulado de reviravoltas numa luta constante por poder, é um erro que todo o episódio seja previsível aos olhos do público. É um erro que tenhamos adivinhado, nos dez primeiros minutos, que a entrevista sairia do controle e que Bradley exporia a emissora de televisão na qual trabalha atualmente. É um erro que tenhamos antecipado que Alex ficaria com inveja da atenção que a nova colega de painel está ganhando e que o episódio seria pingado por algumas cenas sobre isso.

Mesmo não adivinhando, quando o caminho é muito claro, parece que há algo fora do lugar — ou muito no lugar. Isto é, os roteiros precisam de sutileza, de compor uma poética narrativa que não é a poética da vida; e não é, obviamente, a poética do teatro. Em ambos os casos, a nossa atenção vai estar sempre relacionada ao quanto nos deixamos enganar pela condução do enredo. Ao sentarmos para assistirmos, nós nos entregamos nas mãos deles (quando não assistimos de má vontade) e só pedimos que seja crível e que seja divertido. No caso desse episódio, é como se estivéssemos assistindo a alguém fazer um vídeo de cinquenta minutos com operações básicas da matemática. Sabemos como a conta é feita, sabemos o resultado e conhecemos os símbolos usados para que o matemático se comunique conosco.
As séries mais celebradas este ano o foram porque pegaram seus telespectadores no imprevisível. Fleabag (Amazon/BBC), When They See Us e Russian Doll (Netflix) Succession e Los Espookys (HBO) são alguns exemplos. Esse comprometimento nos tira do conforto que parecemos estar nesse momento da teledramaturgia em que tudo parece ter sido contado em todos os formatos possíveis. As séries se arriscam em novas estruturas, novas personagens e novas perspectivas para tomar nossa atenção e nos dizer que ainda podem render muito. É uma forma de guerrear contra a internet e tantas outras coisas que lutam para obter nossa concentração. Com The Morning Show, a batalha não ocorre. É tudo visto de longe e somente uma experiência miópica, provavelmente causada pela simpatia dos atores por trás das personagens, proporcionaria seu bom aproveitamento.

Neste cenário, Bradley não é um fenômeno “Categoria 5” apenas ao mundo fictício de Morning, mas ao próprio seriado. Ela representa uma deformação à construção ascendente que vinham estabelecendo até aqui. Torna a série precipitada ao lidar com um assunto cuja repercussão ainda esteja em fase de digestão aqui fora. Torna a série irresponsável por, mesmo que sem querer (o que é pior), apresentar cenas que coloquem (novamente) olhos dúbios sobre o comportamento que parece condenar — a cena de Claire e Yanko na cama, por exemplo, pode abrir precedente para que o telespectador queira primeiro investigar a vida da vítima para depois saber se ela é vítima de fato. Ou seja, se ela for rica e o cara pobre, ela deixa de ser vítima? Bradley torna a série uma versão com palavrões (demais) de um programa cafona sobre mulheres (que não se sabem) controladas por homens, brigando entre si, que poderia passar na tevê aberta norte-americana, e não em uma plataforma de streaming. Não tem a crueza que tornou Orange Is The New Black (Netflix) possível, ou o texto rico de House of Cards (idem). A trama acaba imatura, inconsciente e mais problemática do que progressista.
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No próximo episódio, fecharemos a primeira parte da temporada. Assim, teremos uma ideia mais abrangente do que a série pretende, enfim, contemplar. Muito comparada no texto anterior com The Good Wife (CBS), que fez uma jornada em volta de uma protagonista forte, complexa e sem remorso algum, dessa vez fecho pensando em The Morning Show como uma versão menos charmosa de Revenge (ABC) — mesmo que não saibamos, nesse caso, o que está sendo vingado. É óbvia na maior parte do tempo. No restante, é incrível — e não como sinônimo de “extraordinário”, mas de descrença em como as peças se alinham em torno da protagonista, a rainha do jogo. Bradley é vendida como protagonista e Reese é produtora executiva da série, então não sei como nos recuperamos dessa, porque é necessário, urgente, imprescindível que ela volte a ser um peão e deixe o The Jennifer Aniston Show voltar a ser sobre esta.
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ps:
(01)
Não tivemos Mitch essa semana. A série parece ter percebido algo que apontei no outro (longo) texto: ele não faz a menor falta.
(02)
Gostei bastante da participação de Kelly Clarkson. As séries poderiam usar mais da não-ficção em seu jogo ficcional.















