Um formato muito explorado em histórias de mistério é o aprisionamento das personagens em determinado local, do qual elas não podem sair e precisam enfrentar monstros e/ou mistérios e/ou se enfrentar. As séries de tevê visitaram este formato muitas vezes, seja em adaptações de Agatha Christie (And Then There Were None, BBC, 2015) ou em produções como a antologia canadense Slasher (segunda temporada, 2017, Netflix) e a escandinava Svartsjön (2016, TV3). Isolar as personagens do mundo e obrigá-las a lidar com “o perigo do outro” ou “o perigo de si” abre muitas possibilidades dentro de uma narrativa. Percebe-se, através do recurso, que o pesadelo não está no mundo externo, naquele que ficou de fora.
Alto Mar (Alta Mar) estreou em maio deste ano. A série espanhola de mistério conta com oito episódios de mais ou menos quarenta minutos. Acompanhamos um cruzeiro de luxo que sai da Espanha com destino ao Rio de Janeiro nos anos quarenta. Mais do que nos familiarizar com os passageiros e seus dramas, a história foca em duas irmãs e o envolvimento delas na morte de um dos passageiros. Ainda sobra espaço para triângulos amorosos e demais dramas nessa verdadeira telenovela no mar.

Com um ritmo possivelmente próximo ao das produções espanholas, Alto Mar não prepara o telespectador, construindo delicadamente seu mistério. A história tem aspecto de aventura e em poucos minutos já temos uma trama de mistério nas mãos, além de um prólogo que revela antecipadamente algumas mortes a bordo. Ou seja, não temos aqui a mesma atmosfera séria e pesada de Marianne (Netflix), sobre a qual conversamos há pouco. Mesmo em seus momentos mais sérios, Alto tem um tom abaixo da gravidade das situações. Isso se deve, talvez, pelo exagero dramático das situações, a disposição dos atores em cena ou o texto que eles têm em mãos.
Mas não me entenda errado: essa mistura de melodrama e mistério funcionam bem para a série, torna-na divertida e cria-lhe uma aura singular. Temos aqui a mesma medida que forma as literaturas de banca, na qual mistérios “menos pesados” são deliciosas leituras por não abraçarem uma seriedade que a escrita não comporta. As qualidades novelescas da trama podem agradar o público que ama intrigas e seu desenrolar, dando-lhe algo para se apegar na falta de interesse por assassinatos e histórias de detetive.

Celebro o fato de termos duas irmãs como protagonistas. Diferentes desde o primeiro momento, Eva (Ivana Baquero) e Carolina (Alejandra Onieva) concordam no ponto mais importante: precisam se unir e proteger a família. Assim, agindo de maneira distintas, cada uma delas lida com os problemas que aparecem usando sua personalidade. Temos o atrevimento de Eva para torcer por suas atitudes petulantes, mas Carolina não deixa de mostrar uma transformação que sai da posição de intocável e ingênua para uma mulher que, mesmo às lágrimas, exige a verdade. Utilizar as duas irmãs também é a maneira do roteiro de focar em um drama familiar — tudo o que se passa aqui se passa por conta da família delas e o que foi feito durante a II Guerra Mundial.
Além de figurinos bonitos (as irmãs estão sempre deslumbrantes), Alto tem cenários bonitos, que dão cara ao luxo que a série faz referência ao focar na primeira classe do cruzeiro. A decisão de ver as coisas por esse ângulo, o das pessoas ricas, traz questões sociais para a história. Vemos o tratamento que as classes inferiores recebem, principalmente quando algo grave acontece. Perguntamo-nos qual o lugar das pessoas quando relações que cruzam os limites entre empregados e patrões são estabelecidas. Estudamos, nesse olhar intrometido que é o do telespectador, o que há por trás dessa classe privilegiada, quais seus segredos, em quê ela está envolvida. Vemos violência, trapaça e uma vida de aparências criando ambientes selvagens e perigosos para todos os envolvidos.

A série não foca nos mistérios que tem em mãos e em como solucioná-los, como já deu para perceber. No lugar disso, abre para diversos personagens e núcleos. Não acompanhamos apenas suspeitos e o que eles fazem para se incriminar ou se provarem inocentes, mas a criação e desenvolvimento de casais. Amores impossíveis dominam a cabine e criam uma mescla ainda maior de gêneros na história. A química de determinados casais cria uma empatia com o público e prova o carisma de certas personagens. Vale dizer, no entanto, que diversas delas não são bem desenvolvidas e nos parecem a manifestação de pecados ou comportamentos. Em outras palavras, são arquétipos — o ganancioso e o mulherengo, por exemplo.
Alguns dos desperdícios de Alto está na superstição que aparece muito pouco e é apenas referenciada no primeiro episódio. Com situações tão absurdas, ela poderia ser trazida mais vezes para o plano principal. Outro ponto negativo está nas muitas reviravoltas — e não digo da história em si, mas de certa personagem. Isto é, alguém é bom num momento, mau no seguinte, bom no outro e mau depois deste, ao ponto que o próprio bem e o mal ficam caricaturados — termo também muito bom para nos referirmos à atuação de certos atores, que vestem uma máscara de vilão quando têm seus segredos revelados. As idas e vindas da bondade e sua ausência nas personagens focadas deixam a história cansativa, pesando no ritmo que, depois de cinco episódios, pode frear sua maratona. Furos no roteiro também não ajudam, e eles estão por aqui se você quiser procurá-los.

Alto Mar deixa de debater somente o dinheiro e debate a honra, ponto interessante para percebermos, em seu fundo moral, que algumas coisas estão acima do dinheiro. Mas as constantes reviravoltas apagam essa tentativa. Não temos, portanto, grandes temas para refletirmos ou símbolos para procurar por aqui. Tenta valer-se pelo entretenimento, pela brincadeira que propõe ao telespectador durante os minutos de sua exibição. Vale-se, além, por apresentar personagens que não são detetives assumindo essas funções. É um grande jogo de encontrar e perder a verdade, como se a turbulência de uma tempestade tirasse-a de nossas mãos.
Visualmente atraente, mas desinteressante no roteiro, Alto Mar rende uma experiência divertida aos amantes dos gêneros investidos na série. Não há fortes dramas familiares por aqui, mas há esposas desaparecidas, personagens que ressuscitam, casais que se odeiam e ricos gananciosos — um prato cheio para os amantes de telenovelas, mas sem tempo disponível para investir em centenas de episódios. A nova temporada chega daqui a pouco, e não posso deixar de dizer que estarei, novamente, a bordo.

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Este post faz parte do quarto ano do #MêsDoHorror no Série Maníacos. O objetivo é falar, durante o mês de outubro, sobre séries de horror e mistério (ou que esbarram nesses dois gêneros) que não tiveram textos durante o ano — contemplado entre outubro de 2018 e setembro de 2019.















