Na onda de antologias deste ano, ganhamos mais uma. O ocidente e o oriente se encontram nessa vontade de contar histórias que começam e terminam em um episódio, independente de sue tamanho. Prova disso é que o Brasil e a Tailândia conversam nessa proposta, dividindo o horror e o mistério como escolha de formato. Tudo impulsionado, sabemos, pela produção britânica mais famosa no meio e que retornou junho passado para três episódios não tão bem recebidos por seu público.
Nessa corrida começada pela Netflix e sustentada com produções que vão além de Black Mirror (Love, Death & Robots e Garota de fora, a citada tailandesa, por exemplo), outros serviços de streaming entraram na disputa. CBS All Acess trouxe The Twilight Zone de volta, Amazon Prime comprou e distribuiu Electric Dreams, a Hulu produziu a divertida Dimension 404, o YouTube Premium apareceu com Weird City e mesmo o PlayPluss da Record se arriscou com Terrores Urbanos. E olha que essa breve recapitulação deixa canais abertos e a tevê a cabo de fora… Parece uma disputa para ver qual serviço tem as melhores histórias para contar — algo que dificilmente você me verá reclamando. Shudder, plataforma de vídeo sob demanda da AMC, entrou na competição com a série desse post.
Em seis episódios, Creepshow é uma continuação da franquia de mesmo nome cuja estreia se deu em um filme dirigido por George A. Romero e roteirizado por Stephen King — ou seja, um grande legado para carregar nessa transição. É a difícil tarefa que Ash vs Evil Dead (Starz) e a citada The Twilight Zone tiveram que lidar, ambas provindas de clássicos em seus gêneros e, portanto, esperadas num misto de antecipação e descrença. A proposta aqui é seguir a mesma receita do filme, trazendo novas histórias na temporada de estreia, duas por semana. A plataforma parece a casa perfeita para a ideia, já que a Shudder tem um rico catálogo de produções de horror, suspense e ficção-científica.

Vale lembrar (e tentar explicar) a inusitada linha de transição de Creepshow: o filme (de 1982) tem nos quadrinhos de Tales from the Crypt dos anos 50 sua inspiração. Esses viraram uma (ótima) série pela HBO no final dos anos 80 — tem um TOP 13 de episódios aqui no site. Creepshow, o filme, adaptou contos de Stephen King e trouxe algumas histórias originais. O longa, então, influenciou a publicação de quadrinhos com esse nome em livro publicado há alguns anos no Brasil pela Darkside. Agora entra em cena a série. Ou seja, passeamos por literatura, quadrinhos, cinema e televisão para chegar aqui. Não deixa de dar a Shudder certa responsabilidade.
Nas cadeiras principais, temos nomes como Greg Nicotero na produção executiva. O artista, muito conhecido por maquiagem em efeitos visuais, trabalhou com Romero no passado, inclusive. Em uma carreira prolífica e prestigiada, Nicotero tem Óscar, tem Emmy, assina a direção de The Walking Dead (AMC) e ainda encontra tempo para fazer participações como ator nos filmes. Ele e alguém que entende do gênero, conhece seus mecanismos, a história e a física da coisa.
A antologia terá episódios de vinte minutos, sempre um desafio para roteiristas e diretores. Nada impossível, prova Room 104 (HBO) e sua ida direto ao ponto. Contexto à parte, vamos analisar os dois primeiros seguimentos e a estreia positiva da série.
“GRAY MATTER”
Dirigido por: Greg Nicotero / Escrito por: Byron Willinger e Philip de Blasi (baseado no conto de Stephen King)

Nicotero não só ajuda a tirar a série do papel, mas dirige o primeiro episódio da antologia. Na ausência de um saudoso Romero para repetir a parceria com King, temos este frequente membro de sua equipe. Ambos trabalharam nos mesmos projetos em Day of the dead (1985), Creepshow 2 (1987), Tales from the darskside: the movie (1990), entre outros. O conto aqui adaptado, por sua vez, foi retirado da primeira coleção do escritor norte-americano. Mesmo publicando coletâneas mais recentes, é em seus primeiros trabalhos que a série vai procurar referências, o que já diz muito sobre o conteúdo do episódio. Há uma atmosfera King primitiva — algo que talvez só faça sentido para alguns.
Creepshow chega com diversos desafios que a televisão lida constantemente nessa era de tantos produtos e meios. O inovador virá desgastado meses depois, então a linguagem precisa ser reinventada para que o público se apegue às narrativas. Para vencer essa barreira, o interesse de um telespectador que passa tempo demais na internet, a série parece investir muito em seu visual, no verdadeiro recreio que cria aos olhos. A abertura, que apresenta nomes desconhecidos nas cadeiras principais da produção, faz uma brincadeira com dimensões e apresenta uma estética que retorna durante o episódio. Temos, nas transições, uma figura cadavérica que fecha as histórias fazendo referência, de algum modo, ao que acabamos de assistir. Diferente de Crypter, no entanto, não se comporta como um narrador e se comunica com o público — pelo menos neste primeiro momento, o que é uma pena. Talvez isso seria ultrapassar o limite da referência, já que a figura vista aqui nos lembra muito daquela da antiga produção da HBO.

Encontramos uma zona vítima de um furacão. Na tempestade causada por ele, temos uma cidade com aquele clima deserto. As pessoas que não puderam deixá-la são orientadas, ouvimos na rádio, a buscar abrigo. Refletindo sobre a situação, um trio se encontra em um restaurante-mercado. Ele é composto por sua dona, o médico da cidade e seu xerife. Na escuridão dessa noite tempestuosa, os três são surpreendidos por um jovem que chega ali para comprar algo para seu pai, mas que confessa, quando perguntado, que está assustado e não quer voltar para casa. Enquanto ele espera ali, onde é seguro e pode explicar com mais calma o que aconteceu, os dois homens vão à casa dele ver o que teria acontecido com Richie, o novo alcoólatra da cidade.
Gray Matter lembra em muito um horror antigo, de televisão ou de contos; um horror de pequenos espaços, de pouca grandiosidade e num épico comedido. A atmosfera de apocalipse da história se dá para as personagens retratadas, já que não vemos o restante da cidade. É diferente de outras antologias que levam o horror para a escala social ao mostrar o coletivo. De fato, conforme a história se desenvolve, vemos como se comporta essa sociedade de cidade pequena, mas isso é mostrado quando nossos olhos se voltam aos atos individuais. Em Black Mirror, por exemplo, temos episódios nos quais vemos a reação pública a alguns fatos. Aqui, é diferente, vemos o micro para enxergar o macro.

Já que começamos o Mês do Horror falando sobre as metáforas presentes no horror, vale dar uma investigada nas propostas do episódio. Temos um homem adulto de luto e sob a responsabilidade de criar um filho adolescente. Há muitas barreiras para a expressão da dor masculina mesmo em nossos tempos. Isso traz consequências sérias para o psicológico das pessoas, uma vez que aquele que não tem um processo saudável de luto não consegue seguir com sua vida com a sanidade necessária. Richie começa a se transformar, sinal da permanência do luto em si, que atrapalha suas responsabilidades paternais, sua vida social, seus hábitos higiênicos e sua vida profissional. Ele fica preso à televisão e tem na violência a medida para se assegurar como o homem da casa.
Pessoas se transformam quando diante de traumas marcantes. Às vezes a transformação é física, quando corpos se mutilam ou emagrecem, por exemplo; às vezes a transformação é mental. O antagonista da história (mesmo que não saibamos em quê, sabemos o grande mal do conto), passa pelas duas coisas. A permanência do sofrimento, nesse caso, conversa com um horror físico, de efeitos visuais e que não se explica. No lugar da lógica, deslumbrantes efeitos práticos e uma maquiagem feita pela empresa de Nicotero (KNB EFX Group).
O episódio é previsível em seus desdobramentos, mas tem um gosto de horror cotidiano que nos leva aos experimentos dos anos oitenta. Desenvolvimento de personagem é muito para se pedir nessa duração, principalmente quando a proposta não é essa. Ainda assim, temos a figura do pai e do filho trocando papéis e camadas de forma perceptível e gradual. Fica difícil saber quem está em risco na história, quem é o lado mais fraco — aquele que vê seu corpo mudando ou aquele que precisa saciar a constante sede trazida por essas mudanças.

A atriz Adrienne Barbeau, conhecida por diversos papéis na tevê e no cinema no gênero, representa-nos dentro da história, dando voz para nossa curiosidade e perplexidade. Seu papel é mais interessante do que o também conhecido Tobin Bell (Jogos Mortais). Aquele que leva o público até o “monstro da história”, não há muito a se fazer com sua personagem. Por último, temos Timmy interpretado por Christopher Nathan na única decisão que me incomodou quanto ao elenco.
Quando o perigo se revela, Gray Matter se torna uma divertida história asquerosa. Quem gosta do horror exagerado, com tons de aventura e que quase chega ao humor em sua histeria, vai ter bons minutos acariciando a nostalgia proposta pela história. Vale também destacar os segredinhos ocultos na narrativa, como o anúncio do desaparecimento de um cachorro chamado Cujo na parede. É uma experiência bem King, mas de um King limpo, reescrito: mais conciso.
“THE HOUSE OF THE HEAD”
Dirigido por: John Harrison / Escrito por: Josh Malerman

A originalidade que talvez falte ao episódio anterior é compensada nesse. A história, macabra e que flerta com gore, coloca uma criança em seu protagonismo. É arriscado, mas aqui funciona. Saímos do sério mundo adulto anterior, onde alcoolismo e luto são questões fortes, para entrar no mundo infantil e falar sobre maturidade. O horror assombra a menina do conto como os assuntos dos mais velhos assombram os mais novos. O que o horror faz em sua rotina delicada é uma invasão, na mesma medida em que nós não deixamos, também, de sermos intrusos em seu mundo.
Evie (Cailey Flaming) tem o mesmo hábito da protagonista de The Miniaturist — adaptação sobre a qual conversamos por aqui ano passado. Ela tem uma casa de bonecas para a qual os pais compram diversos móveis, miniaturas, feitas sob medida. Em sua brincadeira, a menina dá nome à família que vive lá, constrói uma narrativa para os membros que a compõe. É uma brincadeira boba, mas que conserva em si muito do que a sociedade reflete, desde cedo, nas mulheres. Evie tem um conceito sobre família, espaços e comportamento que percebe nos pais, mesmo que isso não seja explorado no roteiro com tanta claridade.

Um dia, uma miniatura estranha aparece: a de uma cabeça. Esta passa a assombrar os outros bonecos dentro da casa deles. Trata-se de um plano dentro do plano geral; uma nova narrativa dentro da narrativa. O que acontece nessa segunda, entretanto, só é visto pela personagem, e, por consequência, nos é mostrado, no movimento dos bonecos pela casa. Enquanto a garota está fora, a posição deles vai se alterando; quando ela confere e os percebe encarando a escada, neste plano menor, é sinal de que há algo no primeiro andar. Eles, os bonecos, estão tentando fugir e lidar com esse convidado estranho em suas vidas.
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A partir disso, a história se torna uma aventura que passeia entre o divertido e o macabro, numa tensão que nunca se intensifica no seu potencial, mas que tem boas decisões do roteiro. Evie tem quase uma intervenção de roteirista no plano da casa. Além de trocá-los de lugar, ela oferece ajuda aos bonecos, enviando-lhes policiais ou figuras religiosas. As coisas, no entanto, não saem como ela esperava. Tudo se intensifica num desenvolvimento frágil, quase infantil, sem aquela coragem que vemos em alguns filmes também com crianças protagonistas — A Órfã (2009) e Deixa Ela Entrar (2008) para citar alguns.

Uma grande fábula sobre amadurecimento, The House of the Head prova que podemos ter surpresas mesmo em antologias. Não é agressivo o bastante para dar um bom susto ao telespectador, mas não é sensível demais para perder a essência de seu gênero. Lembra um Are you afraid of the dark? revisitado. No fim, aponta bons caminhos para as próximas semanas.
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Este post faz parte do quarto ano do #MêsDoHorror no Série Maníacos. O objetivo é falar, durante o mês de outubro, sobre séries de horror e mistério (ou que esbarram nesses dois gêneros) que não tiveram textos durante o ano — contemplado entre outubro de 2018 e setembro de 2019.















