Final de Game of Thrones dá a vitória do jogo aos Starks, mas falha terrivelmente em ajustar seus planos de futuro às bases do passado.
Quando defendo que Lost foi a produção mais importante para o universo seriado nos últimos anos não estou falando só a respeito de impacto midiático, mas de impacto dramatúrgico mesmo. Damon Lindelof e Carlton Cuse provaram para as redes de TV e para os setores especializados, que o público estava preparado para uma mudança nas carpintarias textuais, que desafiassem mais, provocassem mais, com bases mitológicas e referenciais que não fossem óbvias e recorrentes. Eles provocaram uma onda de desconstruções narrativas que se refletem na indústria até hoje.
Uma das coisas mais importantes desse contexto foi oferecer ao espectador a sensação real de planejamento. Logo nos primeiros episódios da série, Locke pega uma pedra escura e outra clara, coloca em foco e explica a dinâmica entre bem e mal que vai parecer tola naquele momento, mas que é uma das bases para todas as decisões que serão reveladas no futuro. A outra – a relação entre fé e ciência – também fica evidente no decorrer dos eventos. Quando a hora de contar as verdades chega, essas bases podem conseguir deixar o entendimento (e a aceitação) mais fluídos.
Embora não seja uma série da mesma natureza, GameofThrones também tinha seus segredos e também precisava estabelecer corretamente suas bases, para que quando o final chegasse, a sensação fosse de familiaridade. Isso não é o mesmo que ser previsível, não se enganem. Algumas decisões podem ser inesperadas, mas se as bases forem seguras, logo compreenderemos quais foram os caminhos que levaram até ali. Em parte, foram as fragilidades dessas bases que causaram tanta rejeição ao que aconteceu em The Bells, na penúltima semana do show. Quando o público se dividiu e passou a interpretar a jornada de Daenerys de duas maneiras diferentes, isso sinalizou que a carpintaria do texto da série estava demonstrando insegurança.
The Iron Throne, a esperada finale de Game ofThrones, confirmou várias dessas fragilidades e se concentram em Daenerys as maiores delas. E é curioso, porque nós temos a visão da segunda temporada, onde a sombra do dragão sobrevoa a cidade, onde a sala do trono aparece destruída e ele mesmo coberto do que achamos que seria neve e, na verdade, eram cinzas. Ali estava nossa maior evidência de que tudo parecia levar a um destino muito seguro, que provavelmente se repetirá nos livros em alguma instância. Como foi dito na review anterior, The Bells não revelou um final estapafúrdio quando colocamos em perspectiva todo o passado da série, mas acabou sendo estapafúrdia a transição entre o planejamento e a execução dos fatos. Assim, acabamos percebendo que esse foi o maior problema da temporada: executar, transpor, traduzir.

Drag Queen
Diante dos eventos de The Bells, não havia saída para The Iron Throne, ele precisava seguir o fluxo dos acontecimentos. Se fôssemos corrigir algo em The Iron Throne teríamos que voltar em The Bells, que foi o mais problemático episódio da história do show. Para corrigir The Bells teríamos que voltar a uma série de outros episódios e refazer conexões, revisitar períodos, fazer mudanças… o ciclo seria longo e intenso. Uma mudança levaria a outra, um reflexo levaria a outro e acabaríamos diante de uma outra história, uma outra Game ofThrones. Será que é isso que a gente quer? Sim ou não, a resposta esbarra na impossibilidade de fazê-lo, o que nos obriga a aceitar os tropeços de planejamento que nos trouxeram onde estamos hoje. Avaliar The Iron Throne como uma finale que respeita apenas os eventos da oitava temporada pode amenizar nossas dores. De certa forma, esse foi um final que privilegiou o presente e parece sempre pior quando tentamos ponderá-la a partir dos eventos do passado.
Quando o episódio abre com Tyrion buscando os corpos dos irmãos nos escombros, o roteiro está respeitando apenas os acontecimentos de The Bells. Os roteiristas tentam nos fazer acreditar que existe justiça poética em Tyrion vendo Cersei e Jaime soterrados, mas esse é só um reflexo do episódio anterior. Se colocarmos em perspectiva o passado, as conexões que os dois fizeram com outros personagens e narrativas, provavelmente ter dado para Cersei– sobretudo – um embate com Daenerys, Arya, Tyrionou Sansa, teria sido mais honroso com a personagem. Não existe uma justificativa plausível para que ela tenha sido protegida desses reencontros, porque a série nunca foi anticlimática (até aqui). A prova disso foi a forma como Joffrey, Ramsay, Mindinho, entre outros, tiveram suas punições diante de um embate com seus algozes. Até mesmo a vingança de Arya contra quem matou sua mãe e irmão reproduz esse compromisso da série em sublinhar o que foi plantado pouco a pouco nos personagens e em nós mesmos. Termos sido privados do encontro entre a Rainha Lannister e a Rainha Targaryen (pelo menos) foi lamentável em muitas instâncias. Essa não era a hora de “surpreender”, era hora de respeitar.
O mesmo se aplica a Dany, que nessa final estava só cumprindo o destino estabelecido em The Bells. Ela deu sinais de uma personalidade afetada pelo legado da família, mas a série construiu uma contra-argumentação ao “chamado do DNA”, nos conduzindo a acreditar que mesmo disposta a agir pelo sangue, ela seguiria um código ético primordial. A decisão de fazê-la trair esse código foi apoiada quase totalmente nos eventos de The Bells, o que obrigou o roteiro do episódio seguinte a continuar nessa estrada. A morte era o único destino possível para ela, o que continua sendo lamentável do ponto de vista conceitual. Havia ali a tomada histórica do dragão abrindo as asas por trás dela (que será lembrada por anos e anos), mas havia também uma perigosa correlação com aspectos maléficos, com Hitler, com as roupas pretas depois de ser o branco seu vetor, com algo excessivamente delusional em seu discurso, que não parece saído da mesma pessoa que acompanhamos até aqui.

King Nothing
Também é evidente que os roteiristas queriam o momento em que o trono é destruído. De fato, tive uma esperança de que o conselho formado pelos líderes restantes chegasse a conclusão de que aquela coisa toda de rei dos reinos era desnecessária e que a destruição do trono fosse também a destruição da “roda”. Porém, eles tinham em mãos um outro personagem que precisava seguir com seu planejamento: Tyrion. E Tyrion depende da “roda” para ser relevante. Então, por mais esdrúxulo que pareça, o sistema é mantido (com direito a uma bela gargalhada para a democracia) e Tyrion faz em um episódio o que não fez a temporada toda: articula. Primeiro com Jon e depois com o conselho. Escapa ileso dos horrores da finale, mas termina como começou, como se não tivesse passado nem um dia. Toda nossa excitação quando ele aproximou-se de Dany foi destruída, tornando todo esse arco inútil, oco, o que tornará a experiência de rever a série bastante amarga.
Jon não foi morto pelo dragão, provavelmente porque também era um Targaryen. Mas, difícil conseguir explicar porque ele não foi morto pelo exército ou mesmo por Verme Cinzento (que vagou sem função pela finale). Difícil conseguir explicar porque Sansa consegue independência no Norte e ao mesmo tempo os outros reinos se mantém subordinados a King’sLanding. Difícil explicar porque Bran é escolhido como Rei quando tudo que ele fez na temporada foi dizer umas frases de efeito e sumir durante a batalha dos mortos para não sabemos onde. E se ele sabia que seria Rei, porque deixou todo aquele horror acontecer? Difícil explicar porque uma patrulha da noite ainda é necessária. Difícil explicar porque Arya, uma personagem com uma storyline programada em níveis de tensão altíssimos, ganha um desfecho apático. Difícil explicar o surgimento de todos aqueles líderes das casas que não deram as caras em toda a temporada ou simplesmente desapareceram sem nenhuma justificativa. Todas as nossas expectativas de ver mais mitologia aparecer foram frustradas… Não tivemos mais do Rei da Noite, não tivemos as profecias sendo cumpridas categoricamente, nada de desdobramentos que revelassem boas estruturas. Até a ótima teoria de que Tyrion também era um Targaryen, se perdeu. The Iron Throne só seguiu o fluxo de The Bells, definitivamente, ignorando descaradamente tudo que Game ofThrones estabeleceu nos anos anteriores. Mas, sendo justos com eles, ainda que não tenha sido o final que nos prometeram, foi um final.

A montagem nos minutos derradeiros fica devendo em catarse. De fato, não tivemos nenhuma. Seguindo a tradição das outras temporadas, o penúltimo episódio foi bem movimentado e o último bem arrastado. O romance entre Dany e Jon deveria ter causado alguma comoção justamente para que esse fim tivesse mais impacto, mas ninguém se importava com o shipp. A ação da finale fugiu da supervalorização do “bastardo”, mas mesmo que isso tenha sido válido enquanto decisão dramatúrgica, Jon termina a série muito aquém do que esperávamos. Apenas um regicida, de volta ao mundo além da muralha, só que agora sem um propósito claro, só para desbravar, descobrir, numa última sequência que encerra o show no ponto onde ele começou, mas sem nenhuma emoção verdadeira, sem nenhuma força. Foi burocrático… Simplesmente burocrático.
Brinquei no twitter que agora Damon Lindelof tinha encontrado a paz, afinal. Comecei citando Lost porque, de certa forma, estamos diante de um momento em que o final de GoT ocupa o mesmo lugar de frustrações onde Lost foi colocada durante muito tempo. Talvez, também, seja o momento de rever isso. Ainda que Lost tenha frustrado os que queriam praticidade nas respostas, seus elementos humanos NUNCA frustraram nossas emoções. A finale foi cheia de catarse, de reencontros emblemáticos, corretos perante tudo que foi construído e tomada da mais pura sensibilidade. A maior deficiência do trabalho de Weiss e Benioff estava justamente em compreender os personagens que criaram, respeitar esses personagens não só enquanto reflexo do imediato e sim como produto de uma trajetória humana única. Game of Thrones não queria desenvolver, ela só queria terminar.
> GAME OF THRONES O Fim! (Comentários do episódio 8×06)
Ao menos tivemos o espetáculo… E foi um grande espetáculo. Destruição, dragão, trono destruído, mortes de personagens importantes, tudo que uma grande série precisa ter em sua temporada final. E a HBO não poupou despesas. Game of Thrones foi uma produção belíssima, muito bem produzida, em muitos momentos teve seus pecados textuais perdoados justamente por isso. Ela nos ofereceu uma experiência maravilhosa, fez aquilo que a arte dramatúrgica faz por todos os amantes da ficção: nos desligou do mundo e fez nossa vida um pouquinho mais feliz. O único problema é que as decisões finais foram tão alheias ao que nos foi dito até aqui, que rever as temporadas provavelmente não terá o mesmo sabor. Mas, tudo bem, ainda assim valeu a pena. A última temporada foi o nosso epílogo indesejado, que por mais que estivesse cheio de equívocos não apaga o incrível privilégio que tivemos de ver os reinos jogando, de ver os dragões nascendo, de ver o inverno chegando e de ver os Starks, enfim, vencendo.
A Última Revoada dos Corvos
- Pensando bem, teve um Lannister que acabou ganhando também. Tyrion pode acabar sendo o Rei indireto que nasceu pra ser.
- Limparam a cidade toda rapidinho né?
- Para onde foi O Dragão Que Sobreviveu?
- A decisão de Sansa em declarar independência foi acertadíssima, assim como foi bom que Brienne tivesse ficado com o cargo que sempre sonhou ter. Duas mulheres a frente de um séquito e isso, para a esburacada função social do show, é o mínimo.
- Ainda é hediondo que tenhamos visto Brienne chorar por Jaime, mas quando ela termina de escrever a trajetória dele no livro somos capazes de ver nisso certa sensibilidade.
- Sansa interrompendo a candidatura de Edmure Tully: não tem preço.
- Ghost e Jon tiveram um momento, enfim.
- Martin publicou uma declaração provocativa a respeito da finale, fazendo parecer que veremos esse final em uma versão que se reflete e também refuta os eventos. Só acho que ele deveria parar de dar declarações e terminar logo esses livros.
- Lady Stoneheart: eu ainda queria você.
- Quero agradecer a todo mundo que nos acompanhou até aqui, agradecer também em nome da Steffi, que tão brilhantemente cobriu boa parte da série e não pode estar com vocês esse ano. Foi um prazer imenso e um privilégio para mim comentar esses episódios finais e espero que os spinoffs que estejam sendo preparados nos aqueçam e tragam de volta o verão.














