Assim como na televisão, o cinema faz aniversário o tempo todo. Neste final de década, então, momento de rever em que pé estamos com tudo, dá para olhar para trás e confirmar alguns marcos. Na televisão, por exemplo, 2019 marca os dez anos da estreia de séries como The Good Wife, Glee e Modern Family, enquanto, no cinema, uma década se fecha sobre Avatar, filme de James Cameron que estreou em dezembro de 2009 e fez seu caminho para a maior bilheteria de todos os tempos, posto que ocupa até hoje.  

Se focarmos em nós, temos sessenta anos cravados que um filme falado em português levou o Palma de Ouro do Festival de Cannes, maior prêmio do festival. Dirigido pelo francês Marcel Camus, Orfeu Negro também levou o Óscar de filme estrangeiro para casa. Uma produção ítalo-franco-brasileira, o longa não nos representou na corrida, mas a França, o que significa que nosso placar ainda ficou zerado nos dois locais. Três anos depois, O Pagador de Promessas (Anselmo Duarte, 1962) levou o Palma, então pelo menos metade dessa dívida foi paga. Baseado na peça de Dias Gomes, conta a história de Zé Burro (Leonardo Villar), que tenta cumprir uma promessa feita em um terreiro de candomblé sobre carregar uma cruz, mas é impedido pela igreja.

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O Pagador de Promessas.

Ainda nas terras da França, Glauber Rocha levava, em 1969, cinquenta anos atrás, o prêmio de melhor diretor por O Dragão da Maldade e o Santo Guerreiro. Dessa vez, um prêmio todo nosso, porque Glauber, nascido na Bahia, além de brasileiro, foi um importante cineasta para sua geração, cujo trabalho, muito relacionado ao chamado Cinema Novo, tem influência até hoje. O filme segue Antônio das Mortes (Maurício do Valle) e mostra como ele se encontrou dentro das disputas de cangaceiros, povoados e coronéis e as decisões que tomou a respeito.

Aquele aniversário com gosto amargo  

Em final de semana de Óscar, no entanto, não dá para não reparar em uma data que infelizmente marcamos no domingo: há exatos vinte anos (ou melhor, cerimônias) o Brasil tinha um representante na categoria de Melhor Filme Estrangeiro. Depois de 1999, tentamos todo ano, chegamos aos pré-indicados, mas nunca fizemos a lista. Esta, em tal ano, compreendia Central do Brasil, nossa quarta e última tentativa nesta categoria. O filme de Walter Salles ainda conseguiu indicar Fernanda Montenegro como a primeira e única atriz brasileira na categoria de atuação — que nós vamos, sim, repetir por muito tempo que merecia levar. O drama, cuja estreia se deu por aqui em abril de 98, conta a história de Dora (personagem de Fernanda), uma mulher que trabalha escrevendo cartas para analfabetos na Estação Central do Rio de Janeiro. Sua rotina muda quando ela encontra Josué (Vinícius de Oliveira), menino que perde a mãe e sai, com a nova companheira, em busca do pai. 

Central do Brasil.

Seria incorreto dizer, no entanto, que passamos esse começo de século distantes do cobiçado prêmio norte-americano. Tivemos diversos representantes ao longo dos anos, mas não nessa categoria. Há três anos, por exemplo, O Menino e o Mundo (Alê Abreu, 2013) estava por lá, entre os cinco escolhidos em Animação. O curioso é que o filme, uma rica viagem por cores e sons, mas sem diálogos, havia estreado dois anos antes por aqui. Nosso representante não levou, mas se pensarmos que seu maior concorrente era Divertida Mente (Inside Out, Peter Docter), dá para ficar feliz com a indicação. 

Se deixarmos 2016 de lado e voltarmos bem mais no tempo, esbarraremos naquele que é impossível não citar: Cidade de Deus. Dirigido por Fernando Meirelles, o longa de 2002 é uma adaptação do livro de Paulo Lins e conta a criação e a estruturação da Cidade de Deus. Ele concorreu a quatro estatuetas: diretor, roteiro adaptado, edição e fotografia. As três primeiras foram perdidas para O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei (Peter Jackson), enquanto a última foi conquistada pelo filme Mestre dos Mares: O Lado Mais Distante do Mundo (Peter Weir). 

Nós já estivemos perto com dois documentários nesta década: Lixo Extraordinário (2011) e O Sal da Terra (2015), ambos co-produzidos por outros países, mas que possuem diretores brasileiros entre os responsáveis — João JardimKaren Harley no primeiro e Juliano Salgado no segundo. Vale mencionar que no primeiro caso, os concorrentes ao prêmio, no entanto, eram os britânicos Lucy Walker (diretora) e Angus Aynsley (produtor). Sim, o Óscar às vezes é meio confuso. 

O Menino e o Mundo (2013)
O Menino e o Mundo.

Não decidi fazer essa recapitulação das duas décadas para nos fazer lembrar que não estamos, novamente, vinte anos depois, entre os concorrentes em Filme Estrangeiro, mas para pensar por quais outros lugares do mundo andam os nossos filmes, como são contemplados. Se ausentes na cerimônia norte-americana, será que estivemos em outros tapetes vermelhos? Levamos outros troféus?  

 

O que foi produzido: uma (breve) retrospectiva desses vinte anos

 

2000-2009: A herança da Retomada

O cinema nacional se encontra na era que, por enquanto, é conhecida como pós-retomada. A Retomada, aliás, foi o período no qual o Brasil voltou a produzir filmes, uma vez que as leis de incentivo e os órgãos responsáveis por movimentar o setor foram extinguidos durante o governo Collor. Com o retorno da produção por aqui, durante os anos noventa, diversos filmes criaram movimento e chegaram lá fora. Falando em Óscar, em quatro anos tivemos três indicações: O Quartilho (Fábio Barreto) em 1996, O Que É Isso, Companheiro? (Bruno Barreto) em 1998 e o já citado Central do Brasil em 1999. 

Sobre o título de Central Station, o filme de Walter Salles que deu um pontapé nesse nosso diálogo é perfeito para começarmos a entender essa década, na qual tanto se experimentou e tanto se percebeu o cinema no exterior. O road movie (filme no qual as personagens saem em viagem pela estrada) foi elogiado no Brasil, mas reverenciado pelo resto do mundo: além de prêmios por aqui, que prestigiaram o perfeito casamento entre a direção e a atuação, o longa chegou às premiações dos países França, Espanha, Polônia, Alemanha, Itália, Cuba e ao Reino Unido. Venceu o Sundance, o Bafta, o Globo de Ouro, o Festival de Berlim e teve indicação ao César, considerado por muitos como o “Óscar francês” — mérito que só voltaríamos a conquistar com Aquarius em 2017, também indicado por lá. 

Entramos no século XXI com essa herança do anterior, essa possibilidade de explorar lá fora. Um dos que aproveitaram a deixa foi o filme Bicho de Sete Cabeças (Laís Bodanzky, 2000), que estabelece e prova diversas coisas: entre elas, a coragem do cinema nacional, que nunca foi de fugir de assuntos delicados e por isso foi tantas vezes alvo de represálias; e a presença da direção feminina por aqui, por mais que ela sempre tenha sido desprezada no momento de fazer a seleção do representante do Brasil ao Óscar. Para se ter uma ideia, nesses quase sessenta anos mirando a estatueta com quase cinquenta filmes, somente duas mulheres tiveram seus filmes selecionados: A Hora da Estrela de Suzana Amaral em 1986 e Que Horas Ela Volta?, de Anna Muylaert, em 2016. 

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Bicho de Sete Cabeças.

Voltando ao Bicho, temos Rodrigo Santoro protagonizando a história de um jovem que é internado em um hospital psiquiátrico quando seu pai descobre um cigarro de maconha em suas coisas. O longa estreou por aqui, mas fez carreira internacional e venceu prêmios na Colômbia, Itália, República Dominicana, Equador e França, em categorias de direção (ou filme) e atuação. Ainda forte e ainda poderoso hoje em dia, foi um dos que ajudaram Rodrigo a engatar sua carreira, que anos depois lhe renderia um troféu especial em Cannes como revelação 

Para sublinhar a presença das mulheres, mesmo então, vale citar: Através da Janela de Tata Amaral, que estuda uma problemática relação entre mãe e filho, premiado na Índia e nos EUA; Amélia de Ana Carolina, sobre a visita que a atriz Sarah Bernhardt fizera ao país no começo do século XX; Brava Gente Brasileira de Lúcia Murat, sobre conflitos entre portugueses e índios no século XVIII. Todos do ano 2000. Esses são só exemplos para mostrar que sempre houve a presença delas e qualidade também, afinal, são filmes prestigiados por crítica e público — O Bicho levou mais de quatrocentas mil pessoas ao cinema.  

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Brava Gente Brasileira.

E lá em 2000, iniciando o milênio, falávamos de quê?

Os temas eram diversos: Tivemos comédias, como Domésticas, adaptação da peça homônima, dirigida por Nando Olival e Fernando Meirelles, sobre o cotidiano e as desventuras de colegas domésticas; Xuxa e Renato Aragão ainda estavam na ativa com Xuxa Popstar (Paulo Sérgio de AlmeidaTizuka Yamasaki) e Um Anjo Trapalhão (Alexandre Boury e Marcelo Travesso). Ainda na benção de ter estrelado a maior bilheteria dos anos noventa com Lua de Cristal ao lado de Sérgio Mallandro, Xuxa continuou pelo cinema nos anos seguintes, aventurando-se pela fantasia e filmes infantis. Renato Aragão também, mas desacelerou e passou, nessa última década, a se dedicar à televisão.  

Tivemos mais um filme de Regina Casé: Eu, Tu, Eles (Andrucha Waddington). A atriz, comediante e apresentadora pegou muita gente de surpresa com o sucesso e a performance de seu trabalho em Que Horas Ela Volta?, mas antes dos seis anos de Esquenta que a marcaram na televisão, ela já tinha uma carreira no cinema, muitas peças no teatro e participações em novelas. Assim, aos mais velhos, não era tão estranho que ela saísse do Sundance com o prêmio de melhor atriz em 2015. Cá entre nós, ela merecia a indicação por atriz no Óscar de 2016, tanto tentada pelos produtores. Baseado em uma história real, o filme retrata o relacionamento entre uma mulher e seus três maridos.

Regina Casé, Lima Duarte, Stênio Garcia, and Luiz Carlos Vasconcelos in Eu Tu Eles (2000)
Elenco do filme Eu Tu Eles.

No ano seguinte, 2001, vale destacar o curta Palace II, dirigido por Fernando Meirelles e Kátia Lund, que resultaria na série Cidade dos Homens em 2002 e serviria de experimento para o filme Cidade de Deus; Lavoura Arcaica (Luiz Fernando Carvalho), baseado na obra de Raduan Nassar, é do mesmo ano. Atualmente em diversas listas de melhores já feitos por aqui, a melhor forma de descrever o filme é, na verdade, lembrar que ele foi realizado pela mesma pessoa que dirigiu Capitu, minissérie da Globo.  

Voltamos a Rodrigo Santoro com Abril Despedaçado (Walter Salles), baseado em um romance albanês sobre vingança e família. Com ele, chegamos ao BAFTA e ao Globo de Ouro novamente, mas não ao Óscar. Por último, destaco O Invasor, uma das diversas adaptações feitas pelo diretor Beto Brant e também presente na lista de melhores da Abraccine. Nos anos seguintes, o diretor viria a trabalhar com diversos outros romances, resultando nos filmes Crime Delicado (2005), sobre um ciúme criado por conta de um amor platônico, Cão Sem Dono (2007), uma jornada pelo alcoolismo, e Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios (2012), estrelado por Camila Pitanga e dono de um dos títulos mais bonitos da nossa história — literatura e cinema. Este último é sobre um triângulo amoroso formado por um fotógrafo, um pastor e sua esposa.

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Eu Receberia as Piores Notícias dos seus Lindos Lábios.

Em 2002, ganhamos o grande filme de Fernando Meirelles e Kátia Lund. O paulista co-dirigiu Cidade dos Homens, até hoje seu maior desempenho no cinema. O filme que faz dezessete anos de lançamento em agosto foi parar lá fora e gerou muito debate sobre a violência exibida, mas não só por isso. Bem realizado, Cidade aparece muitas vezes na lista de 100 melhores filmes de muitos veículos, tendo sua fotografia e edição apontadas positivamente. Dava para escrever um texto sobre seu legado — ou mesmo um documentário. Pois é o que aconteceu em 2013, quando o documentário de Cavi BorgesAlonquel Uchôa, “Cidade de Deus – 10 Anos Depois”, estreou. O filme entrevista o elenco e faz uma reflexão sobre o impacto do filme em nossa cultura.  

Do ano, dá para destacar ainda 2 Perdidos Numa Noite Suja (José Joffily), penúltima adaptação em forma de longa do escritor Plínio Marcos que, após o filme Querô (Carlos Cortez, 2007), tem passado mais de uma década sem servir de base no cinema. A surpresa está ao reparar que no teatro sua obra ganha novos contornos quase anualmente quando a peça Navalha Na Carne (1980) é reencenada, alterada ou adaptada.

O divertido Amarelo Manga (Cláudio Assis) não pode não ser mencionado. O filme retrata as desventuras de uma população em uma pequena cidade do Recife e é um bom exemplo do espaço que o nordeste vem tentando explorar nos últimos anos, quando muitos diretores se voltaram à região para contar suas histórias: Cláudio Assis, Hilton Lacerda, Kleber Mendonça Filho, Marcelo Gomes e Lírio Ferreira são diretores e roteiristas pernambucanos importantes para citar. O ressurgimento do Cinema Pernambucano rende um texto à parte e é uma boa dica para quem deseja estudar a parte contemporânea de nosso cinema. Em Amarelo, temos Matheus Nachtergaele, Dira Paes e Leona Cavalli como parte do elenco em papéis irreverentes e cenas constrangedoras no ótimo sentido da coisa. Além de outros, Cláudio tem Baixio das Bestas (2006) e A Febre do Rato (2011) no currículo.

Douglas Silva in Cidade de Deus (2002)
Cidade de Deus.

Lázaro Ramos encarou, então, seu primeiro protagonista no cinema em Madame Satã (Karim Aïnouz), e absolutamente tudo a respeito deste filme é fantástico. Falando sobre a impossibilidade da arte às personagens marginais do século passado, o roteiro se baseia na vida de Madame Satã, famosa personagem da noite carioca. No exagero que uma história sobre exageros precisa, Lázaro tem uma performance de encher qualquer estudante de teatro de orgulho, estando acima de muitas reverenciadas em premiações norte-americanas. Marcélia Cartaxo também está presente no filme. A atriz, em 1986, ganhou o Urso de Prata no Festival de Berlim ao viver a personagem mais famosa de Clarice Lispector no cinema. Assistir do filme A Hora da Estrela, mesmo hoje em dia, principalmente como leitor do livro, mostra por que ela conseguiu tal mérito — e assistir Madame Satã confirma seu talento ao se livrar da ingenuidade da personagem em outras circunstâncias.  

De 2002, por último, vale citar Edifício Master, um dos documentários mais famosos do saudoso diretor paulista Eduardo Coutinho. No filme, acompanhamos entrevistas com os mais diversos tipos de pessoas, todas moradoras do mesmo edifício. Eduardo deixou treze documentários para trás, num rico legado que aborda diferentes temas e histórias. Cabra Marcado Para Morrer, então, é uma obrigação para quem deseja entender nosso cinema, nossa cultura e nossa formação como sociedade.

Edifício Master (2002)
Edifício Master.

2003 dá para falar que é o ano de Acquária (Flávia Moraes), que tem como protagonistas a então dupla Sandy e Junior. Tudo bem, se a distopia sobre água não foi tão marcante assim, dá para lembrar que recebemos Carandiru (Hector Babenco) em abril. A grande produção retrata o cotidiano da antiga Casa de Detenção antes do massacre ocorrido no começo dos anos noventa. Localizado em São Paulo, o presídio foi demolido em 2002. O filme possui personagens marcantes interpretadas por grande elenco com nomes como Ailton Graça, Rodrigo Santoro, Gero Camilo e Wagner Moura. Hector Babenco concorreu à Palma de Ouro em Cannes pelo filme. 

Ainda nesse ano, dois programas de tevê fizeram suas estreias no cinema: Casseta & Planeta: A Taça do Mundo É Nossa (Lula Buarque de Hollanda) e Os Normais – O Filme (José Alvarenga Jr.). Fico devendo comentar os filmes e os programas com vocês, porque não sou parte do público em nenhum deles. Pulo, então, para Lisbela e o Prisioneiro (Guel Arraes) e aqueles monólogos que a gente está quase decorando de tanto que assiste. Estrelado por Selton Mello e Débora Falabella, o longa é uma adaptação da peça de Osmar Lins.

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Carandiru.

2004 é o ano de Olga (Jayme Monjardim), uma cinebiografia sobre Olga Benário Prestes estrelada por Camila Morgado. Sucesso de público, o filme não foi muito bem recebido pela crítica, que apontou o grande dramalhão que, hoje revendo, a gente identifica. Ainda assim, dá para elogiar a produção e o investimento na realização do filme.  

O Brasil se meteu entre os investidores do filme Diários de Motocicleta (Walter Salles), co-produzido por sete países, sobre a viagem feita por Che Guevara pela América do Sul. Protagonizado por Gael Garcia Bernal, foi parar no Óscar, concorreu em duas categorias e levou Melhor Canção, conquistado pelo compositor uruguaio Jorge Drexle — o que, novamente, não conta para nós. Ainda foi parar no César, mas por lá era representante de Cuba ao prêmio. Cito por cima o drama de suspense O Outro Lado da Rua (Marcos Bernstein): Fernanda Montenegro é uma mulher solitária que acredita que um vizinho cometeu um crime, fato testemunhado através de seu binóculo. Ela, quando desacreditada pela polícia, resolve se envolver com ele e provar a verdade. É um filme sensível e bonito que vale ser mencionado. 

Caco Ciocler and Camila Morgado in Olga (2004)
Olga.

2005 tivemos a primeira e única investida de Eliana no cinema com Eliana em O Segredo dos Golfinhos (Eliana Fonseca). Não assistiu? Talvez tenha visto, então, 2 Filhos de Francisco (Breno Silveira), aquele filme que minha mãe não cansa de assistir, que nos colocou a cantar sem parar uma música de Zezé Di Camargo & Luciano e que arrecadou mais de trinta milhões em bilheteria. Em maio, estreou Casa de Areia (Andrucha Waddington). No longa, Fernanda Montenegro e Fernanda Torres atuaram juntas, o que, por si só, já é um motivo para assistir ao filme.

Também do ano, Cinema, Aspirinas e Urubus (Marcelo Gomes) é outra importante produção nordestina. Na história, acompanhamos o encontro entre um alemão fugitivo e um nordestino em viagem. Participou de diversos festivais e recebeu prêmios e elogios na Argentina, México e Portugal. Fecho o ano com Cidade Baixa, responsável por um prêmio em Cannes para o diretor Sérgio Machado. Premiado também por aqui e em outros países, temos um trio amoroso vivido por Alice Braga, Lázaro Ramos e Wagner Moura.

Em novembro de 2006, estreou O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias (Cao Hamburger), nosso último quase na categoria de Filme Estrangeiro do Óscar, pois ficou entre os nove mais votados, mas não conseguiu ficar entre os cinco indicados. Isso aconteceu só lá em 2008, pois sua estreia norte-americana se deu apenas no final do ano seguinte. Michel Joelsas (Que Horas Ela Volta? e Malhação) teve seu primeiro papel no cinema aqui, ao interpretar um garoto que se vê sem família quando os pais precisam se exilar.

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O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias.

Voltando a 2006, este foi o ano em que mesmo quem pega no pé das comédias nacionais deu um desconto para Se Eu Fosse Você (Daniel Filho), grande sucesso estrelado por Glória Pires e Toni Ramos. A continuação veio três anos depois e mais uma está em planejamento. Aceno, ainda, para o filme de Lírio Ferreira, Árido Movie, outro para sua interessante carreira, adicionado a Baile Perfumado (1997) e Cartola – Música para os Olhos também de 2006.  

Passemos a 2007, o ano de 2 Girls 1 Cup (Marco Antônio Fiorito). Desculpe, quis dizer que é o ano em que Cidade dos Homens, depois de quatro temporadas, chega ao cinema sob a direção de Paulo Morelli. Tem mais um ótimo filme do Coutinho (Jogo de Cena), o elogiado O Cheio do Ralo (Heitor Dhalia), o divertido Ó Paí, Ó (Monique Gardenberg), tornado série no ano seguinte pela Globo e A Grande Família – O Filme, no caminho contrário, chegando ao cinema em janeiro com Maurício Farias na cadeira da direção. Sublinho Estômago (Marcos Jorge), uma bizarra e hilária história sobre um nordestino aspirante a cozinheiro (João Miguel) se virando na cidade grande enquanto aprende o ofício. Seu envolvimento com Iria (Fabíula Nascimento) complica as coisas, sendo um dos motivos para seu destino não ser o almejado sucesso na cozinha.

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Cidade dos Homens.

O mais marcante do ano, porém, foi a chega de Tropa de Elite. A estreia de José Padilha na ficção se tornou, talvez, o mais polêmico e comentado desde Cidade de Deus. Wagner Moura imortalizou uma personagem aqui, com falas que nós não vamos esquecer tão cedo. O filme levou o Urso de Ouro em Berlim e deixou um legado para a geração seguinte, não só pela sequência, três anos depois, mas pela ousadia das cenas e o realismo alcançado. Tropa não foi escolhido para disputar nossa vaga no Óscar, mas como O Ano chegou aos nove filmes, fica difícil imaginar se nossa indicação era certa. Isso foi corrigido na escolha do segundo (O Inimigo Agora É Outro, Padilha, 2010), mas este não obteve sucesso.  

2008 temos Ensaio Sobre a Cegueira, dirigido por Fernando Meirelles e produzido pelo Brasil, o Japão e o Canadá. Para quem não é muito chegado à literatura e não reconheceu o título, o filme é uma adaptação do livro do escritor português José Saramago — falando em prêmios, vale lembrar que o escritor foi um dos contemplados com o Nobel da Literatura, ainda o único em língua portuguesa. Como o nome deixa escapar, o filme fala sobre uma população que vai se tornando cega sem explicação. Julianne Moore interpreta a esposa de um homem que fica cego. Ela decide acompanhá-lo ao prédio onde essas pessoas estão sendo mandadas, em quarentena. O que ela, a única pessoa que enxerga, precisa presenciar é terrível, e só assistindo para sentir a complexidade da história — ou lendo o livro. Saramago aprovou, então talvez você deva fazer ambos.

Wagner Moura in Tropa de Elite (2007)
Tropa de Elite.

Cito ainda o retorno do Zé do Caixão. Encarnação do Demônio fecha a trilogia criada por José Mojica Martins para sua icônica personagem, antecedido por À Meia-Noite Levarei Sua Alma (1963), e Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver (1967). Este é, por enquanto, o último longa do diretor, hoje na casa dos oitenta anos. Ai que Vida! (Cícero Filho) é deste ano. Apenas o Fim (Matheus Souza), vencedor do Prêmio Netflix cinco anos depois, também. Para fechar, temos Linha de Passe (Walter Salles e Daniela Thomas) pelo qual a atriz Sandra Corveloni levou um prêmio em Cannes.  

Chegamos ao ano do Avatar — ou de Lula, o Filho do Brasil (Fábio Barreto). Este segundo, muito ao contrário do primeiro, foi um fracasso de público e crítica, não justificando o investimento de 17 milhões (!) na película. Ano também de Salve Geral (Sério Rezende), de Besouro (João Daniel Tikhomiroff) e aquele no qual o cantor Daniel decidiu encarar o cinema, assumindo o protagonista Diogo no filme O Menino da Porteira (Jeremias Moreira Filho).

Rui Ricardo Diaz in Lula, o Filho do Brasil (2009)
Lula, o Filho do Brasil.

 

2010-2018: o que estamos produzindo

 

2010 temos muito o que destacar e muita coisa para recomendar. Para quem quer começar a descobrir nosso cinema com muita calma e procura algo mais leve, As Melhores Coisas do Mundo (Laís Bodansky) é uma boa opção. Com um protagonista na fase dos quinze anos, o filme é divertido e tem esse clima adolescente sobre problemas que, à época, parecem terríveis demais. Tivemos também a estreia de Nosso Lar (Wagner de Assis), roubando o posto de filme mais caro feito no Brasil com vinte milhões (!) de orçamento. Em vez de deixar o valor assim, solto, fica mais fácil dizer que, dentro da nossa realidade, daria para produzir, no mínimo, dez bons filmes com esse dinheiro.  

É o ano do documentário Senna (Asif Kapadia), sobre a trajetória de Ayrton Senna na Fórmula 1. Produzido por Brasil, Estados Unidos, França e Reino Unido, o filme foi grande sucesso de público e crítica, marcando bons números de bilheteria em diversos países. Arrecadou muitos prêmios — incluindo o BAFTA para o diretor. É o ano do primeiro De Pernas Para o Ar (Roberto Santucci), comédia estrelada por Ingrid Guimarães. O enorme sucesso garantiu um segundo filme em 2012 e há outro com previsão de sair esse ano. 5x Favela – Agora por Nós Mesmos (Manaíra Carneiro, Wagner Novais, Rodrigo Felha, Cacau Amaral, Luciano Vidigal e Cadu Barcellos), também de 2010, é creditado como o “primeiro longa-metragem brasileiro totalmente concebido, escrito e realizado por jovens moradores de favela“. O título faz alusão ao filme de 1962 chamado Cinco Vezes Favela, também uma reunião de histórias. 

Senna.

Bruna Surfistinha, famosa personagem da nossa história contemporânea graças ao best-seller O Doce Veneno Do Escorpião: o Diário de uma Garota de Programa, chega ao cinema em 2011. Estrelado por Deborah Secco, o drama biográfico fez o triplo de seu orçamento em bilheteria. É o ano de Trabalhar Cansa (Juliana Rojas e Marco Dutra), um dos melhores exemplos de como o nosso cinema pode criar histórias enigmáticas e envolventes. O filme segue um casal que acaba de comprar um mercado, mas enfrenta coisas estranhas acontecendo em seu cotidiano.

Destaco Hoje (Tata Amaral) que tem Denise Fraga fazendo drama de uma maneira louvável. Há uma linguagem e jogo teatral no filme, lembrando-nos muito uma peça. Nele acompanhamos uma ex-militante se mudando para uma casa nova, onde é assombrada por lembranças. O Palhaço, segunda direção em longa de Selton Mello, que também atua, é outra boa lembrança. Na história, acompanhamos a relação de pai e filho, ambos atuantes em um circo nos anos setenta.

Hoje.

Se você me pedir recomendação de um documentário nacional, há uma grande possibilidade de eu te indicar Elena (Petra Costa), uma das produções mais bonitas dos últimos anos. De 2012, o filme tem a própria Petra narrando a vida da irmã mais velha, que viajara para os Estados Unidos na esperança de se tornar uma atriz de sucesso. A relação das irmãs é definitivamente cortada quando Elena, a irmã mais velha, se suicida. Anos mais tarde, agora também atriz, Petra decide viajar para reencontrar vestígios da irmã pela cidade. Além de pré-indicado ao Óscar, nosso fio condutor deste texto, o documentário chegou a premiações em diversos países: México, Croácia, França, Polônia, Estados Unidos e Cuba. 

2012 também é o ano da estreia de Doce de Mãe (Ana Luiza Azevedo e Jorge Furtado), estrelado por Fernanda Montenegro, que dois anos depois viraria série e renderia à atriz um Emmy Internacional. O Diário de Tati (Mauro Farias) chegou seis anos atrasado, uma boa prova de como infelizmente funciona o processo de produção do cinema por aqui. A estreia perdeu o timing em volta do quadro cuja personagem, interpretada por Heloísa Périssé, fazia sucesso na televisão.  

Elena (2012)
Elena.

Para 2013, temos o lançamento do mega sucesso Minha Mãe É Uma Peça (André Pellenz), que eu acredito que não precise apresentar para ninguém. Paulo Gustavo se afirmou como uma personalidade no cinema através deste filme baseado em uma peça também sua. Se Paulo é muito conhecido, vale falar de outras produções que talvez você não conheça. Tatuagem (Hilton Lacerda) é um bom exemplo. Estrelado por Irandhir Santos e Jesuíta Barbosa, dois nomes que têm transitado entre o cinema e a televisão, o filme relata o relacionamento de um soldado e o diretor de uma companhia de teatro nordestina em plena ditadura. É bonito, é divertido, tem atuações irretocáveis e um roteiro tão realista que chega a ser dilacerante — há uma fala sobre cheiro e uma música sobre… Bom, uma música, que provavelmente ficarão na sua cabeça. 

Cine Holliúdy (Halder Gomes), que se passa no Ceará, usa a metalinguagem para abordar o cinema em época que a televisão ameaçava sua importância. O Som ao Redor (Kleber Mendonça Filho) já deve ter sido citado por aquele seu colega cinéfilo. Não é por nada: numa investigação da vida consideravelmente comum de alguns moradores de uma rua de classe média, temos um quase conto místico sobre nossa sociedade. Venceu e foi indicado a prêmios no Canadá, na Sérvia, na Inglaterra, na Polônia e aqui pelo Brasil.

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Tatuagem.

Se você, muito agradecido, disser que gostaria de uma recomendação dentro da ficção porque não gosta de documentários, há uma grande (grande) possibilidade de eu te recomendar O Lobo Atrás da Porta (Fernando Coimbra) de 2014. O longa conquistou críticas internacionais em textos de encher os olhos e que podem ser lidos pela internet. Leandra Leal protagoniza a narrativa não-linear que mostra o envolvimento de sua personagem com um homem casado (Milhem Cortaz). A atriz ganhou um prêmio no México e, se há algo que eu defendo, é que, se fosse uma atriz norte-americana, já teria conquistado uma indicação ao Óscar há certo tempo. Eu sou meio viciado em caçar reações sobre o final deste filme, então se você quiser ver e depois voltar aqui, fica o convite.

Também é deste ano o longa Hoje Eu Quero Voltar Sozinho (Daniel Ribeiro), baseado no curta do mesmo diretor, sobre um jovem cego descobrindo a própria sexualidade. O filme passou pela estranha “benção” do público brasileiro ao ser escolhido como o representante do Brasil — mesmo sendo indicado a mais de trinta prêmios no Brasil e no mundo, muita gente decidiu que o filme era ruim, tinha sido escolhido só pela temática e passou a torcer contra, comemorando (!) quando ficamos de fora. Algo parecido aconteceu com Que Horas anos depois. O mencionado e excelente Tatuagem é um filme com cenas de sexo impressionantes, então se você quer algo mais leve, para matar a saudade de Skam, vale o filme adolescente.

Leandra Leal and Milhem Cortaz in O Lobo Atrás da Porta (2013)
O Lobo Atrás da Porta ou Veja Esse Filme.

Gata Velha Ainda Mia (Rafael Primot) traz Regina Duarte e Barbará Paz num jogo de gato e rato meio perturbador, mas envolvente. O filme tem sua base nos diálogos e nas personagens das atrizes: uma escritora de muito sucesso e uma jornalista que decide entrevistá-la. Confissões de Adolescente, série dos anos noventa da TV Cultura, chega ao cinema em filme de Daniel Filho, com aquela música do Gilberto Gil que não vai sair nunca da nossa cabeça — mas como é o Gil, não dá para reclamar. É divertido, mas há um grande risco de você se perguntar, na metade de sua sessão particular, por que você está mesmo acompanhando a vida dessas pessoas. E por que a única personagem negra do filme aparece (literalmente) apenas para servir um copo de água. É sério. Sobre adolescência, vale recomendar Casa Grande (Felipe Barbosa), que é quase uma retratação cínica da vida das pessoas do filme anterior. 

2015 temos Boi Neon (Gabriel Machado), um daqueles filmes que gostamos, mas talvez não saibamos explicar por quê. Estreando por aqui apenas no ano seguinte, quando também ganhou exibições em outros lugares, a produção apareceu no TOP 10 dos críticos do New York Times, ao lado de Aquarius. Ambos representaram as nossas melhores chances no Óscar em muito tempo, mas se envolveram em polêmicas quando o elenco do segundo fez um protesto durante sua estreia em Cannes. O responsável por selecionar nosso filme representante deu declarações públicas sobre o acontecido, indicando seu descontentamento com isso, o que, obviamente, apontava para que, por razões pessoais e egoístas, Aquarius acabasse não sendo o selecionado. Vendo que o júri se comprometia dessa forma tão vergonhosa, os diretores de Boi Neon e Mãe Só Há Uma retiraram seus filmes como propostas à comissão.

Boi Neon (2015)
Boi Neon.

Tudo Que Aprendemos Juntos (Sérgio Machado) é uma tocante história envolvendo música e superação, também uma recomendação por aqui. Mais forte, ainda, é A História da Eternidade (Camilo Cavalcante), que tem uma das cenas mais bonitas que eu já vi no cinema brasileiro — para quem já viu, me refiro à cena do mar. O enredo retrata três histórias de amor e desejo de uma maneira intrigante e angustiante. Tem os já citados Irandhir Santos e Marcélia Cartaxo. 2015 também foi o ano em que, finalmente, vimos o polêmico Chatô, o Rei do Brasil (Guilherme Fontes). O filme estava em produção desde 1995 (!), envolvendo-se, pelo caminho, em suspeitas de mau uso das verbas que conseguiu arrecadar. Vale pesquisar a história por fora. 

2016 é ano do citado Aquarius (Kleber Mendonça Filho), indicado no meu coração. Para quem ainda não viu e não conhece a história, ele retrata a luta de Clara (Sônia Braga) para permanecer no apartamento em que mora há décadas enquanto uma empresa compra o restante do prédio e faz de tudo para que ela mude. Com ótimo elenco, ótimas cenas, ótimo argumento e ótima trilha sonora, não dá para ficar melhor do que isso.

Sônia Braga in Aquarius (2016)
Aquarius.

Do ano, recomendo Nise: O Coração da Loucura (Roberto Berliner), estrelado por Glória Pires, que está excelente nele. A história é baseada na vida da psiquiatra Nise da Silveira e mostra uma doutora tentando interagir e ajudar os pacientes de uma clínica através da arte. É muito forte, mas é belo. Temos Divinas Divas, documentário de Leandra Leal, que venceu prêmios no Festival do Rio e nos Estados Unidos. No mesmo festival norte-americano, O Roubo da Taça (Caíto Ortiz) ganhou o prêmio do público. 

O maior nome de 2017 foi Bingo: O Rei das Manhãs (Daniel Rezende), excelente retrato dos anos 80, investigando de forma indireta a vida e os problemas de um ícone daquela época. O ano foi bombardeado por filmes de youtubers e celebridades, mostrando uma tendência para tentar arrastar os fãs deles para o cinema. Por outro lado, tivemos exemplos de gêneros ainda em constante pesquisa, como o terror O Rastro (J. C. Feyer). Como Nossos Pais (Laís Bodanzky) é outra recomendação. Na trama, Rosa (Mari Ribeiro), uma profissional infeliz e aspirante a escritora, vive crises na vida pessoal e no trabalho. Tudo piora quando algumas revelações familiares são feitas.

Bingo: O Rei das Manhãs (2017)
Bingo.

Por fim, em 2018, chegou por aqui As Boas Maneiras (Marco Dutra e Juliana Rojas), depois de já ter estreado lá fora. Protagonizado por Isabél Zuaa e Marjorie Estiano, o filme retrata a relação entre as duas, patroa e empregada, durante a gravidez da primeira. Tenho medo de contar qualquer coisa e estragar o filme, então fica dito só isso. E que é mais um exemplo de como os idealizadores daqui estão prontos para experimentar. Diamantino (Gabriel Abrantes e Daniel Schmidt), teve sua estreia em maio de 2018 no Festival de Cannes, onde ganhou o Grande Prémio da Semana da Crítica e o Palme Dog. Chuva É Cantoria na Aldeia dos Mortos (João Salaviza e Renée Nader Messora), também estreando por lá, levou o Prêmio do Juri na sessão Un Certain Regard.

Outros exemplos de experimentos e pluralidades são O Doutrinador (Gustavo Bonafé), A Repartição do Tempo (Santiago Dellape), Todas as Razões para Esquecer (Pedro Coutinho, Egisto Betti, Heitor Dhalia e Ducha Lopes) e Motorrad (Vicente Amorim). Destaco, por fim, O Processo (Maria Ramos), premiado documentário sobre o processo de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff. O escolhido para nos representar no Óscar em 2019 foi O Grande Circo Místico (Cacá Diegues), por motivos que só essa comissão há de explicar.  

 

Conclusões: daqui para frente, a próxima década
 

Um dos últimos marcos foi o recorde de 2013, quando mais de cento e vinte produções nacionais estrearam e os ingressos vendidos passaram de vinte e seis milhões. Há disparidade de público, no entanto: se alguns fecharam milhões em arrecadações, boa parte não conseguiu esse mérito por ter ficado pouco tempo em cartaz pela presença escassa de plateia, na casa dos milhares. Uma das perguntas que gostaria de responder com esse texto, feita lá no começo, é: se não estamos no Óscar, estamos em algum lugar? A resposta é sim, estamos ganhando prestígio lá fora. No breve resumo dessas décadas e suas conquistas, tentei mostrar alguns casos notáveis que nos orgulham do material que vem sendo produzido pelo nosso audiovisual.

O desejo de “defesa” pelo cinema nacional não vem só para contrapor este estranho aniversário, mas é algo que surge no susto que muitas vezes me acomete. Este, por exemplo, manifesta-se ao abrir o Metacritc, famoso site que levanta uma pontuação para filmes, séries, álbuns e jogos de videogame, baseada na recepção dos críticos, há alguns meses, e encontrar Arábia (João Dumas e Affonso Uchoa) acima dos oitenta pontos — quem acompanha o site sabe a dificuldade que é chegar nessa marca. Para se ter uma ideia, três dos oito filmes indicados este ano a Melhor Filme sequer chegaram à marca dos 70 no site. O mesmo susto vem quando ficamos sabendo que um curta-metragem nacional foi premiado em Cannes — em 2018 tivemos três vitórias.

Murilo Caliari in Arábia (2017)
Arábia.

Pelo que percebo, os recordes e a ida ao cinema podem também estar, ironicamente, relacionadas à internet. Muito se vai ao cinema para prestigiar o novo trabalho de celebridades ou comediantes que as redes sociais tornaram famosos. Assim, temos parte do setor ajudando a consolidar carreiras, trabalhando na construção não de roteiros e histórias, mas de nomes. É assim que se firmam nomes como Paulo Gustavo, Fábio Porchat e Tatá Werneck 

Há uma reclamação de como as comédias tomam para si o espaço do cinema, mas há de se perceber que diversos gêneros estão sendo explorados nos últimos anos nos filmes citados. Com certa paciência, investigando o catálogo do Canal Brasil Play (gratuito para quem tem o canal) ou a programação dos canais de televisão, encontramos esses filmes e podemos, através da citada comoção da internet, gerar o apoio que a não-comédia precisa. Nesse aniversário de 20 Anos, percebemos que temos, sim, muita chance de faturar o prêmio aqui abordado. O envolvimento da política em questões que sabotam nossas oportunidades é um problema que deve ser resolvido o quanto antes. Com isso, é uma questão de tempo para que o próximo grande sucesso (de público ou de crítica) surja e comova o resto do mundo. Profissionais e talentos para isso nós temos. Ah, se temos!

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Se você leu até aqui, agradeço a companhia. O texto ficou longo dentro do costume do SM, mas vale lembrar que são duas décadas (!) resumidas. Ficou muito filme de fora, muito diretor de fora, eu sei, mas a ideia era olharmos por cima o que estamos produzindo e fazermos recomendações entre a gente. Eu ia deixar uma lista aqui no final de recomendações, mas acho que já o fiz durante o texto.

Se você quer mais textos nesse estilo, recomendando e debatendo curiosidades e filmes nacionais, deixe nos comentários, assim como sua opinião sobre esse aniversário e os filmes que tenha visto da lista.

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Welson Oliveira
Ator e escritor. Fascinado por horror, literatura brasileira e conteúdo televisivo.