No universo das revistas em quadrinhos, sempre existe um slogan para cada herói. Ao Super-Homem (me desculpe sou velho e me recuso a chamar este personagem de “Superman” somente porque virou uma marca) o “homem de aço”, para o Homem-Aranha o adjetivo “espetacular”. Para o Demolidor existe “O Homem Sem Medo”. Pois na vida real existe uma pessoa assim, sem medo, e não se chama Matt Murdock mas Alex Honnold.

O escalador norte-americano Alex Honnold é especializado em escalar no estilo solo (a designação deste estilo em inglês é “free solo”), que em linhas gerais é não utilizar nenhum equipamento de segurança. Nenhum mesmo. A esta altura uma pergunta parece óbvia: “Mas se ele cair ele não morre?”. Sim, se ele cair ele morre. Para se ter uma ideia a quantidade de praticantes de escalada que adotam este estilo um tanto suicida, é menor de 1%. Além disso, alguns que fazem parte deste percentual já morreram.

Uma segunda pergunta parece inevitável, que é “Mas por que ele faz isso?”. Pois a tentativa de responder a esta pergunta, é o que os produtores Elizabeth Chai Vasarhelyi e Jimmy Chin tentaram decifrar no documentário “Free Solo”. A produção de 100 minutos é uma mistura de filme de suspense, terror, romance e documentário.

O filme “Free Solo” é uma produção de um gênero que vem crescendo a cada dia, que são os documentários esportivos, em especial os de esportes de montanha. Conhecidos popularmente como “Filmes de montanha”, anualmente há festivais todos os anos em vários lugares do mundo, incluindo no Brasil. Portanto, quem já frequenta este ambiente já está “acostumado” com as realizações de Alex Honnold. Mas para quem é apresentado de supetão ao escalador Alex Honnold com “Free Solo”, pode até pensar que em algumas partes que é montagem ou encenação. Mas não é, tudo ali é real, por mais absurdo que possa parecer.

Free Solo
Free Solo

“Free Solo” começa apresentando o personagem principal e sua filosofia de vida. Basicamente é: viver para escalar e escalar para viver. Sem laços familiares muito fortes, poucos amigos e uma dedicação quase religiosa ao esporte que pratica, Honnold é uma figura enigmática e ao mesmo tempo fascinante. Parece uma mistura de Forest Gump (personagem de Tom Hanks no filme de mesmo nome) com Oskar Schell (personagem autista de “Tão Forte e Tão Perto”) à primeira vista. Mas sua aversão a sentimentos e frieza em escalar o faz parecer de certa forma o personagem Dexter, da série de mesmo nome. Até mesmo a ausência de sentimentos e a dificuldade em mostrar afeto é a mesma.

Quem não entende o esporte, muito menos a paixão que o desperta, talvez fique confuso com o estilo de vida de Honnold. Ele mesmo no início do filme admite que a vida amorosa dele não é grande coisa, já que ele mesmo afirma categoricamente que sempre vai preferir escalar do que ficar com uma mulher. Mas a verdade é que no universo do montanhismo mundial, Alex Honnold é um astro. Fazendo uma comparação rápida com outro ídolo do esporte, é uma espécie de Cristiano Ronaldo (por causa de sua dedicação ao treinamento e ao esporte) ou Messi (pela sua maneira discreta e calma todo o tempo) da escalada.

Mas o que o expectador menos espera é o aparecimento de um personagem que nem mesmo o público da escalada conhece: Sanni McCandless. Para espanto de todos, McCandless não é escaladora, nem tampouco vive no universo de montanha e, mesmo assim, torna-se namorada de Honnold. Na escalada, assim como no futebol, existem muitas “marias chuteiras” (na escalada são chamadas de “maria sapatilha”), e para o espanto de todos Sanni não é uma. É uma menina “comum” que o escalador conheceu em uma viagem.

Paralelo à entrada de uma namorada em sua vida, Alex Honnold planeja realizar uma escalada em solo nunca antes feita no mundo. Honnold, para espanto de todos (inclusive dos amigos), se propões a escalar em estilo solo o El Capitan, um rochedo de mais de 915 metros de rocha sólida, totalmente vertical. Caso alguma coisa aconteça errado nesta escalada, Honnold pode cair e morrer. Uma escalada normal a esta rocha (com equipamentos de segurança), no geral, leva em torno de 3 dias. Alex quer fazer de maneira continua, em um dia somente.

Assim que define o desafio, começa a sua preparação. E é aí que todos os elementos se juntam. Outrora avesso a sentimentos e laços afetivos, seu relacionamento com Sanni começa a influenciar a sua escalada. Até acidentes, que nunca aconteciam, começam a acontecer. Dentro de Honnold há uma nítida guerra interna de sentimentos. Assim como acontece com Dexter, Alex começa a sentir sentimentos mais profundos a respeito de sua parceira, e isso acaba afetando o seu rendimento esportivo. Outrora ele era o “ditador da própria vida”, agora começa a não saber priorizar direito as coisas.

Como então fazer uma escalada sem nenhum equipamento de segurança com o fator psicológico abalado? Muitos irão concluir erroneamente no decorrer do filme, que se trata de um relacionamento abusivo. Mas na verdade é um pouco mais sobre uma outra coisa. O que entra em questão é algo que todo “solteiro convicto” passa quando encontra a sua “outra metade” e em como o carinho por outra pessoa, afeta o que cada um sente pelas coisas da vida. E é a partir daí que “Free Solo” faz o expectador fazer parte do filme. Pois a cada momento há a vontade de convencer Honnold de abandonar a ideia, em outro existe o desejo de gritar para Sanni larga-lo e seguir a vida e fazer a fila andar e, mais adiante, de prender a respiração no momento que o escalador encara o desafio.

Free Solo
Free Solo

Mas o grande mérito de Elizabeth Chai Vasarhelyi e Jimmy Chin foi trazer para dentro do filme a própria equipe de filmagem. Enquanto Alex Honnold começa a escalada, a qual ele pode morrer no menor erro cometido, a equipe começa a ficar aflita e mais tensa. O diretor de fotografia começa a quase ter um faniquito, tamanha a tensão que sente. Isso porque, trata-se de um documentário, ali o que está sendo documentado é o que está de fato acontecendo. Portanto poder ser que estejam filmando uma conquista épica ou uma tragédia.

Se Alex Honnold consegue, ou não, terminar a escalada e dar um final feliz a tudo, você, caro leitor, terá de ver com seus próprios olhos. Claro que após uma simples procura no Google, você saberá o que aconteceu. Mas mesmo assim ficará abismado ao saber, que alguém realizou o que Alex Honnold fez para as câmeras. Sem sentir um pingo de medo ou nervosismo.

Entretanto, o filme “Free Solo” não chega a ser um filme perfeito. Quando procura aprofundar nos problemas familiares de Honnold, e na resiliência de Sanni em ficar com o escalador, a produção começa a se arrastar. Muitos aspectos da vida de Alex parecem se repetir, com o claro objetivo de fazer com que fique evidente que o protagonista é fruto de uma vida longe do normal. Quando os diretores tentam explicar porque um cara que mora em um furgão, arrisca a vida a um nível tão inimaginável e, ainda assim, tem uma namorada, parecem perder o rumo da história.

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Mesmo este alongamento desnecessário no meio, “Free Solo” é um filme com várias camadas. Nos faz pensar em nossos relacionamentos, lembranças de nossa infância, riscos que tomamos para fazer o que amamos e, principalmente, as renúncias que fazemos para ser quem somos. Tudo isso é questionado e convida o expectador para refletir junto da história. A produção, claro, não servirá de anuncio para quem tiver curiosidade de escalar. Somente as imagens de escalada em estilo solo de Honnold, já faz até mesmo quem escala ficar com as mãos suadas. Mas para quem procura um documentário diferente e que até mesmo os produtores e equipe de filmagem acabam fazendo parte da própria história, “Free Solo” irá mudar a sua vida.

REVISÃO GERAL
Nota:
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Luciano Fernandes
Luciano é escalador há 20 anos. Já viajou para 15 países (escalando em 8 deles), tem o sonho de morar na Patagônia. Quando não está escalando, é fanático por séries e documentários.
critica-free-solo-documentario-sem-medoFree Solo” é um filme com várias camadas. Nos faz pensar em nossos relacionamentos, lembranças de nossa infância, riscos que tomamos para fazer o que amamos e, principalmente, as renúncias que fazemos para ser quem somos.