Existe no mundo da investigação forense uma linha de processamento chamada de Teoria de Locard, criada pelo cientista forense Edmond Locard. Essa teoria exprime que através do contato entre dois itens (corpos), irá haver uma permuta. O Princípio de Locard, como também é conhecida essa teoria, sustenta a premissa que cada contato deixa seu próprio rastro, ou seja, toda vez que uma pessoa se encontra em uma cena de crime ela acaba trazendo algo dela para a própria cena, porém, leva consigo algo da cena que em algum momento vai repercutir e se voltar para ela de forma inquestionável. Excetuando a questão do crime, já que não estamos falando de C.S.I., claramente podemos aplicar o Princípio de Locard na bagunça que a vida de Lucas está se tornando a cada dia. O estudante fez uma declaração explicita de amor para Chloé no pátio da escola, esteve muito próximo dela na festa e levou para a garota a esperança de que ambos estão envolvidos romanticamente. Da mesma forma, Lucas aceitou as investidas de Eliott, dando provas de que gosta do rapaz, apesar do mesmo ser comprometido com Lucille. Por outro lado, ele vem sonegando informações para Yann, o seu melhor amigo, simulando um comportamento passivo-agressivo dentro do squad dos garotos e, contraditoriamente, vem tendo uma atitude reativa com a recém-chegada Manon, alguém que poderia realmente compreender o seu dilema. Lucas está trazendo muitos elementos para as cenas que vem adentrando, contudo, tenho certeza que em algum momento tudo isso vai repercutir negativamente e se voltar contra ele tal qual uma evidência forense que fala mais do que mil palavras. Bem, vamos aos fatos propriamente ditos do episódio 04!

Skam France/Projeto Polaris

Vou começar falando do ponto mais alto desse episódio, que claro, foi o momento do primeiro beijo do casal Evak francês. Eliott recriou a sequência de Polaris… O menino que tinha medo do escuro e o garoto que tinha medo da luz… Não poderia ter ficado mais satisfeita com uma decisão criativa, como a de adaptar a já conhecida sequência da animação de Eliott para o Projeto Polaris em substituição à icônica cena da piscina, inspirada na livre adaptação de Romeu e Julieta de Baz Luhrmann. A sequência do primeiro beijo desse casal sempre é aguardada com muita expectativa e, por isso, tudo tem que ser feito com muito cuidado, muita delicadeza e apuro. Skam France, na cena do ponto de ônibus e na sequência em que Lucas toca piano para Eliott, já havia mostrado que não está para brincadeiras quando o assunto é a produção de cenas sofisticadas, delicadas e com uma boa montagem. Ponto para o remake francês que foi um desastre em cenografia, edição e iluminação na primeira temporada, mas que conseguiu se recuperar a partir da segunda. Apesar das decisões criativas terem sido acertadas, segundo o meu ponto de vista, não gostei da escolha da paleta de cores; sei que o tom azul e as suas gradações, como também, os tons marrons e o bege, têm sido recorrentes nas cenas envolvendo esses dois personagens, contudo, com o tom soturno adotado nessa sequência tudo ficou mais denso, complexo, sombrio e realista, tirando um pouco da leveza e da visibilidade do momento. Talvez essa escolha tenha relação com a tentativa de nos mostrar um pouco da profundidade psicológica confusa de Eliott, apresentando, dessa forma, um possível quadro de depressão ou de bipolaridade do rapaz, já que ainda não sabemos com clareza qual é o transtorno dele.

Skam France/Projeto Polaris Reencenado

Tenho certeza que a câmera durante as gravações dessas cenas foi pensada como se fosse um participante, as lentes de zoom não foram usadas, mas, se moveram fisicamente, representando o espectador. O foco de luz da lanterna alternando entre ambos os personagens, nos davam a justa perspectiva do ponto de vista de cada um, no entanto, era como se estivéssemos dentro da cena, sendo Lucas com medo do escuro ou sendo Eliott iluminando os caminhos obscurecidos. A chuva, acrescentou o elemento fluido, visto em Skam Noruega e Skam Itália, representado pela piscina em ambas as séries. Essas escolhas sempre me agradam muito, percebe-se claramente que houve um tempo de maturação para que pudessem obter um resultado visual final tão interessante. A trilha sonora ajudou a dar um acabamento digno ao momento, o barulho da chuva foi inserido como elemento auditivo complementar da situação ampliando a nossa experiencia imersiva. Sobre o beijo propriamente dito… Terei que esperar pelo próximo episódio para ver essa interação em um ambiente menos escuro. Confesso que tive que ver alguns vídeos com a cena em zoom para entender o mecanismo da interação entre Lucas e Eliott no momento do beijo. Estava tudo muito escuro, Max é bastante alto e essa desproporcionalidade acabou encobrindo Axel em alguns momentos. Mas é inegável a química que existe entre esses dois atores.

Skam France/Lucas e Chloé

No outro extremo do episódio temos a volta de Manon, as consequências da festa na Sala Comum e a complicada dinâmica estabelecida entre o quarteto Lucas, Eliott, Chloé e Lucille. Aliás, precisamos falar sobre Chloé e também sobre Lucille!!! Lucas realmente não gostou muito do retorno de Manon à sua convivência; tenho muita dificuldade para saber qual sentimento Axel está tentando expressar nessas horas, já que ele é um ator de poucas expressões. Cheguei à conclusão que ela estava descontente por ter sido preterido no aparamento, mas também estava desconfortável diante da possibilidade de ser desmascarado por Manon. Sei que a moça do batom vermelho foi bem invasiva fazendo perguntas sobre Eliott para Lucas, no entanto, creio que essa foi a forma que ele encontrou para demostrar preocupação e interesse real na situação dele. No entanto, Lucas foi rude demais nos dois momentos de interação que ele teve com Manon, a amiga que lhe foi solicita no momento em que ele precisava de moradia na temporada passada. Sei que ele está com muita coisa na cabeça, tentando entender o que se passa na sua casa mental, mas isso não justifica descortesia e falta de trato com Manon. Para piorar a situação, a forma como ele manipulou Chloé foi terrível! Assim não tem como te defender, garoto!

Ao ser confrontado por Manon sobre Eliott, Lucas não só manipulou Chloé, como também a iludiu, beijando-a e apresentando-a como sua namorada para a amiga, dando esperanças de que ambos estão no mesmo livro e na mesma página. O rapaz se utilizou desse mesmo expediente quando foi interpelado por Eliott, ostentando Chloé como se a estudante fosse uma espécie de troféu, um selo ou um comprovante público da sua masculinidade frágil. Fiquei bem triste com esse comportamento lamentável de Lucas. Sei que que estamos falando de relacionamentos entre adolescentes em uma série teen; sei que estamos aqui para torcer pelo shipp, que queremos ver cenas refrescantes, quentes e emocionantes como a do primeiro beijo de ambos, mas, ao optar pelo aprofundamento da personagem Chloé, Skam France abriu margem para mergulharmos de cabeça na relação afetiva unilateral que a garota construiu incentivada pelo próprio Lucas. Se em Skam Noruega eu já sofria por causa de Emma e de Sonja, mesmo sem conhecê-las muito bem, nesse remake eu já estou com meu coração oprimido por pensar que lá na frente essas duas garotas vão sofrer bastante. Lucas trouxe para Chloé a esperança de estar em um relacionamento com um garoto bonito e mais velho que ela, mas está levando dela a sua confiança e a sua leveza. Tenho certeza que essa garota vai se sentir usada, traída e vulnerável ao perceber o jogo desonesto que Lucas está fazendo com ela. Por outro lado, Lucille se mostrou madura, segura e um pouco possessiva em relação a Eliott, porém, ambos estão juntos por muito tempo e, naturalmente, já existe um desgaste nesse relacionamento, talvez por causa do estado emocional do rapaz. Não sabemos ao certo quantas crises Lucille teve que contornar para manter acesa a chama da sua relação afetiva com Eliott. Percebi que ela gosta dele e não parece querer finalizar a sua relação, apesar dos desentendimentos. Ao reunir esses quatro personagens e ao humanizar essas duas garotas, Skam France criou uma armadilha para si mesma, pois aponta os seus holofotes para os piores traços das personalidades de Lucas e Eliott e nos faz gostar de duas personagens que já sabemos que irão ser preteridas, Chloé e Lucille. Se, por não termos nos aprofundado na narrativa de Emma e Sonja na série norueguesa, não tínhamos parado para refletir sobre a dimensão desse imbróglio, aqui está tudo as claras e temos em cena os elementos clássicos da traição e da manipulação tirando um pouco o brilho da paixão avassaladora de atingiu esses dois rapazes. Eu encontraria mil e uma justificativas para o comportamento errático de Lucas e justificaria a conduta de Eliott como uma fase complexa e confusa, mas princípios e responsabilidade humana não são moldáveis às circunstâncias, ou você os têm ou eles vão fazer muita falta na hora de discernir entre o correto e o que menos prejudique o outro.

Skam France/Chloé, Lucas, Eliott e Lucille

Espero que o remake francês saiba contornar essa situação com a delicadeza que ela merece, sem transformar Chloé na garota iludida e chata que persegue o garoto bonitinho, como também espero que Lucas não seja transformado em vilão por mostrar esses traços menos honestos da sua personalidade. Afinal, ninguém é somente bom, todos nós temos o nosso lado mais agridoce que, por vezes, tentamos ocultar. Tanto Lucas, como Chloé, ou mesmo Eliott e Lucille são muito jovens ainda, passíveis de arroubos intempestivos, dados a decisões imediatistas como se o mundo fosse acabar a qualquer momento. O que me preocupa é que já estamos no episódio quatro, em uma temporada com apenas dez capítulos, e mesmo assim a versão francesa continua desenvolvendo a relação entre Lucas e Chloé, dando bastante visibilidade a essa personagem, porém, sabemos que dentro em breve o Evak francês será uma realidade permanente, daí qual será o melhor caminho? Sumir com Chloé da trama? Emparelhá-la com Yann? Ou dar a ela ares de garota traída vingativa? E Lucille, qual será o seu destino, já que estamos nos apegando a ela também e somos solidários a ela diante da forma descortês com que Eliott a tratou em frente aos amigos? Algumas das pequenas mudanças inseridas na atual temporada de Skam France vêm sendo muito oportunas, embora reconheça que elas, as mudanças, estão nos guiando na escuridão retratada na caverna de Eliott.

Skam France/Imane

A conversa que Imane teve com Lucas, apesar de ter sido muito jogada na trama, provavelmente foi um dos momentos mais maduros que o estudante já apresentou em cena. Foi um bom debate e confronto de ideias, inclusive a estudante muçulmana usou Basile como um bom exemplo de comportamento deplorável e isso me lembra que deveremos ver em breve o emparelhamento dele com Daphné. Pelo amor de Deus, que Daphné se apaixone por Arthur! Basile é o personagem que menos gosto nesse remake, ele é caricato, estereotipado e observa as mulheres meramente como um corpo disponível para ser usufruído. Voltando a conversa entre Lucas e Imane, que considerei relevante, apesar de deslocada na trama, ela apenas confirma o que eu já vinha observado, Lucas tem pouco maturidade e tem uma visão de mundo que precisa ser ampliada urgentemente. Não vejo nesse personagem os elementos necessários para compreender e intervir no transtorno emocional de Eliott, talvez isso se dê por conta da pouca expressão de Axel em cena. Por exemplo, eu não faço a mínima ideia de qual foi a reação dele diante das colocações feitas por Imane sobre religião e sobre a teoria da evolução; ele apenas ficou lá, com a mesma expressão de sempre. O remake francês vai ter que ajustar o tom ao falar sobre o Islamismo na próxima temporada, apesar da conversa ter sido oportuna, achei o tom bastante agressivo e impositivo e isso não combina com o que prega o Islã. Em um momento tão complexo onde a França enfrenta uma onda crescente antissemita com ataques diretos e vandalismo contra túmulos e monumentos da comunidade judaica e onde direitos conquistados pela comunidade islâmica em solo francês estão sendo repensados, é preciso tratar desses temas com apuro, com respeito e de forma assertiva. Skam France precisa ajustar essas pontas soltas agora, já que estamos chegando ao meio da terceira temporada, para que o Princípio de Locard não venha cobrar o rastro de bagunça narrativa deixado desde a primeira temporada.

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Na falta de tantas situações criativas e bem resolvidas, o episódio 04 de Skam France oscilou entre confuso e bom. Foi confuso por projetar os seus protagonistas em um abismo comportamental inesperado ao emparelhá-los com personagens que deveriam ter menos projeção dentro da narrativa, arrastando-os para um beco sem saída. Foi bom por ter tido romance, sensibilidade, entrosamento entre os protagonistas, visual impecável, apesar da questionável paleta de cores obscura, e uma trilha sonora empolgante que delineou o espírito único da história a ser contada sobre o primeiro beijo do casal Evak francês.

Até a próxima semana!

PS1: O que vocês acham da possibilidade da existência do casal Basile e Daphné?

PS2: Vocês gostaram do primeiro beijo do shipp francês? Foi bom? Zero defeitos? Ou poderia ter sido melhor?

REVISÃO GERAL
Nota:
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