Não é de se estranhar que, em certo momento, ao vermos certo personagem descendo uma escadaria, Hugo Blick faça questão de dar um close na escadaria para mostrar que esta é do mesmo tipo utilizado nos filmes de Hitchcock…

Spoilers Abaixo:

Porque esse penúltimo capítulo já foi um banho de sangue que deixariam o Mestre do Suspense orgulhoso. Além de conseguir intercalar isto com o andamento, e até mesmo conclusão, de várias subtramas..

O encontro da trama da polícia com a do outro lado foi finalmente feito, a partir das descobertas que são feitas no capítulo e ao ser abordada uma união não convencional entre Glickman e Gabriel. Particularmente, achei a dinâmica dos dois muito interessante, por ambos saberem que deveriam estar lutando de lados opostos e se juntando a partir de um inimigo comum. Desde as atuações, até a forma como os diálogos de ambos são travados, tudo consegue funcionar de forma admirável ao enfatizar este clima de “união pragmática”. Percebam o olhar fixo de ambos no momento em que conversam, como se eles tivessem sempre desconfiando no que o seu interlocutor pode fazer.

Esse capítulo, por sinal, foi o que mais exigiu de Ejifor até agora. Desde as descobertas referentes a sua vida profissional, até os fatos que ocorreram até culminar na morte de seu filho,  tudo exigiu que o ator aproveitasse o máximo de seu personagem. Eu continuo achando que falta um pouco de carisma no sujeito, ao ponto de eu sentir o drama mais pela situação do que pela própria simpatia pelo personagem, mas ele conseguiu se sair surpreendetemente bem. Particularmente, gostei de vê-lo abandonar todo aquele olhar de preocupação que caracterizou o personagem e substituir por uma tristeza na cena do enterro.

Já o dilema moral envolvendo Gabriel e a morte de seu companheiro não me agradou muito. Ver um universo como este, tecido sempre de ambiguidade moral em todos os personagens, optar pelo caminho mais fácil de dizer que o policial havia sido desde o início “bonzinho”  foi algo covarde com o público.

A trama de Bede e sua amante, por sinal, conseguiu mostrar a que veio e fugir do lugar comum que me preocupava um pouco. Para começar, a dor de Bede por estar traindo a esposa conseguiu dar bons momentos dramáticos, e méritos novamente para Eccleston neste sentido, que foi culminada com uma metáfora sofisticadíssima sobre Bach.  Fora isto, vemos Petra mostrar suas presas e  fugir do clichê de mulher em perigo que demonstrava, em um momento belíssimo em que mata Glickman e em seguida se dirige em direção às sombras, como se tivesse fugindo do próprio espectador. O grande dilema agora é saber a serviço de quem ela realmente estava…

Falando nisto, Gatehouse conseguiu mais uma mostrar o porquê de ser o grande vilão da série, mostrando sempre controle da situação e ameaça por trás de sua suposta calma. Entretanto, aquela cena final em que ele acorda do coma e em seguida já comete um homicídio me soou forçada.

Apesar de alguns defeitos, Shadow Line nos proporciona um grande momento da televisão britânica do ano. Se fosse uma série de televisão americana, com certeza seria uma das mais comentadas aqui no Brasil.

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