Retornando de uma viagem dolorosa e marcante do seu país natal, Ruanda, Kate encontra uma casa arrombada e evidências de que o caso Ganimana continua perseguindo-a. Em Double Bogey on the Ninth delineiam-se os caminhos que encerrarão a jornada de Black Earth Rising. Sem tempo a perder e depois de seis episódios bem construídos, chegou a hora de sabermos o segredo guardado por Eve, Michael, Alice, Eunice e Ed. E eu não poderia ficar mais feliz com o caminho escolhido para entregar está revelação.

Numa tentativa de apagar todas as provas sobre o passado de Ganimana, Nkanza a Nkanga (Nicholas Beveney) faz mais uma vítima: Mark Viner (Julian Glover). O processo de queima de arquivo perpetrado pelos comparsas de Patrice Ganimana deixa claro para Michael que o círculo está se fechando. É preciso fazer algo, e rápido, antes que não sobre ninguém para revelar a história. Essa situação eleva o nível de suspense da trama e nos deixa ansiosos pelo o que acontecerá. Depois de tantas mortes, é crível acreditar que esse segredo pode nunca ser revelado. Parabéns, Hugo Blick, por saber criar um verdadeiro clima de suspense e surpresa.

Em Londres, Kate parte em busca do arquivo que está faltando nas provas contra Ganimana. Logo descobrimos, que o fatídico envelope amarelo que Eve carregou para Haia, e que agora está nas mãos de Frank, marido de Alice Munezero, é a prova que todos estão buscando. Então a seguinte pergunta nos passa pela mente: por que a prova que seria apresentada no caso Nyamoya é tão importante no caso Ganimana? Eles não estavam em pontos opostos dessa disputa? A defesa de Patrice, tentando evitar sua extradição, dá sua última cartada: ele não estaria em Ruanda durante o genocídio, porém, eles não sabiam que esse seria seu caminho para o fim.

Black Earth Rising/Alice Munezero

Nesse momento, Eunice Clayton (Tamara Tunie), Secretária Adjunta do Departamento de Assuntos Africanos dos Estados Unidos entra de carrinho com os dois pés no “Grande Jogo”. Apresentando provas contundentes e seu próprio testemunho, ela é chave para derrubar de vez o genocida Ganimana. De quebra, cabe a ela revelar o segredo que tem permeado toda a série. Desde o início, imaginei que a revelação viria de Munezero, porém, confesso que fiquei feliz por essa surpresa.

Mudando um pouco de foco, em Ruanda, somos apresentados a uma grande corporação – Kromin –  que deseja estabelecer negócios no país. De cara, isso já não me passou confiança. Pelo histórico, sabemos que essas grandes empresas vão para o continente africano com segundas, terceiras e quartas intenções. Essa temática não é uma novidade e já foi abordada em outras produções como o filme Jardineiro Fiel, veremos como Black Earth Rising irá trabalhar com isso.

As peças do xadrez foram, enfim, posicionadas. Eunice está pronta para fazer sua declaração e Alice voltará para seu país natal. Primeiramente, vamos nos focar na Secretária de Estado. Sua declaração foi explosiva e enfim, nos revelou a verdade sobre o passado de Kate. As voltas de um procedimento cirúrgico, Eunice adiantou-se em dar seu depoimento para juíza do TPI. Revelando informações cruciais, ficamos sabendo que sua presença em território africano ocorreu entre 1987 e 1998, trabalhando para o Fundo Humanitário para Refugiados John Hopkins. Provando sua presença em território ruandês, Clayton apresenta documentos e um testemunho incontestável de uma figura pública extremamente importante. Ganimana foi colocado em xeque e sua extradição deve acontecer. Apesar dessa vitória, o melhor ainda estava por vir. Pronta para revelar o tão aguardado segredo, somos surpreendidos com um novo massacre ocorrido em selvas congolesas, dessa vez, as vítimas seriam da etnia hutu.

Utilizando-se de um recurso já usado na série, a animação, Hugo Blick acerta mais uma vez. Ao colocar Eunice Clayton para fazer a narração do segredo, ele nos sensibiliza e choca, ao mesmo tempo. Perceber que o massacre ocorrido em Ruanda fez ainda mais vítimas é trágico. Em uma espécie de retaliação, membros da Frente Patriótica de Ruanda (FPR), liderados por Simon Nyamoya, assassinaram 50 mil pessoas da etnia hutu. No maior estilo da lei do Talião e seu lema “Olho por olho, dente por dente”, o massacre foi ainda maior. Para completar essa revelação, descobrimos que Kate foi a única sobrevivente desse massacre. Tudo que ela passou a vida inteira acreditando, era uma mentira. Ela era uma hutu, no final das contas. Confesso que essa possibilidade chegou a me ocorrer, mas não desse jeito, não com a revelação de um novo massacre. O roteiro acertou muito ao utilizar-se de um pano de fundo real (falarei mais no final do texto) para criar esse segredo. Parabéns a todos os roteiristas por esse trabalho estupendo.

Black Earth Rising/Michael e Kate

Enquanto a revelação ocorria, acompanhamos Michael contar a verdade para Kate. As reações de Kate foram tão expressivas que sofri junto com ela. Trabalho estupendo de Michaela Coel. Coube a Alice, finalizar o jogo, revelando o áudio que comprovava o massacre ocorrido no Zaire. Porém, o jogo ainda não tinha acabado. Para nossa surpresa a fita desapareceu! E de acordo com as leis de Ruanda, ao “incitar uma insurreição”, Alice foi presa. Por essa eu não esperava. O show nos reservou muitas arestas para serem aparadas no seu capítulo final. Simplesmente incrível. Com um episódio urgente e revelador nos resta apenas mais um capítulo dessa história. Pelo caminho traçado até aqui tenho grandes expectativas por seu encerramento. Veremos para onde ele vai nos levar. 

África de pé e outras curiosidades: históricas ou não

Depois do FPR (Frente Patriótica de Ruanda) derrotar as forças de governo hutu, o genocídio chegou ao final, porém, muitos hutus, participantes ou não do massacre, temendo represálias por parte dos tutsis, fugiram de Ruanda para o país vizinho: Zaire (atual República Democrática do Congo), tornando-se refugiados. Neste país, porém, já viviam tutsis (refugiados de Ruanda e originários do próprio Congo) e a presença hutu desestabilizou a região. Ou seja, o genocídio de Ruanda desencadeou uma guerra civil no Congo. Grupos de direitos humanos afirmam que os tutsis assassinaram milhares de hutus dos campos de refugiados da região, um verdadeiro massacre.

– Alguns estudiosos chamam os confrontos que se sucederam na República Democrática do Congo de “Grande Guerra da África” (1998-2003). Vários países da região se envolveram no conflito, inclusive Ruanda. Estima-se que mais de 5 milhões de pessoas morreram. Para alguns, os desdobramentos desse conflito têm consequências até os dias atuais.

– O TPIR (Tribunal Penal Internacional para Ruanda), citado nas reviews anteriores, sofreu algumas críticas durante o período de sua atuação, justamente por não julgar os crimes cometidos pelos rebeldes tutsis depois do genocídio.

Lei Dodd-Frank foi criada pelo presidente Barack Obama, em 2010, para regular o mercado financeiro estadunidense. Com mais 2300 páginas, o documento não é uma unanimidade. Um dos pontos dessa lei refere-se aos “minerais de conflito” (estanho, tântalo, tungstênio e ouro), comuns na África Central. A seção 1502 da lei exigia que todas as empresas deveriam verificar se utilizavam na manufatura de seus produtos os “minerais de conflito” e se estavam ou não financiando a guerra e violações de direitos humanos na região. A citação feita nesse episódio não foi aleatória. Veremos como isso será abordado no season finale.

– A oposição entre Mundanzi e Munezero pode ter sido livremente baseada em casos reais de Ruanda. O atual presidente ruandês, Paul Kagame, está no poder a 18 anos. Várias prisões políticas têm ocorrido no país, utilizando como base o artigo 54 da constituição do país: “organizações políticas estão proibidas de terem como base raça, grupo étnico, tribo, clã, região, sexo, religião ou quaisquer outras divisões que venham a alimentar a discriminação”. Ou seja, qualquer crítica contra o governo é listada como incitação.

– A cena na redação de um jornal estadunidense é emblemática. O descaso com os problemas que ocorrem são uma realidade. Observem que dificilmente somos informados sobre as questões que assolam a África. Como a repórter diz, “ninguém se importa”. Simplesmente repugnante!

– David Runihara mostrou de vez suas garras. E Eunice Clayton pagou um alto preço por se envolver em algo que muitos preferiam manter enterrado.

Antes de encerrar esse texto imenso, só gostaria de mencionar a cena belíssima entre Kate e Michael na água. Ao temer que ela tente algo drástico, Ennis se joga na água e quase afoga. Ao alternar com o recurso da animação, vemos uma menina perdida e que renasce como mulher. Enquanto isso, Kate resgata Michael das águas. Poesia pura!

REVISÃO GERAL
Nota:
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