Depois das revelações explosivas do episódio anterior, este quarto capítulo já começa com o General Lesage (Olivier Rabourdin) revelando a verdade em torno da participação da França no genocídio tutsi. Cansado de esconder um segredo dessa dimensão por mais de 20 anos, Lesage escancara os reais interesses por trás das acusações contra Alice Munezero. Uma vingança pessoal aliada com a necessidade do governo francês de se afastar ao máximo do massacre ocorrido em Ruanda quase condenou uma mulher inocente.

Michael, apesar de oferecer um conselho contrário à Kate nos episódios anteriores, não se contém e interrompe a todo o momento a arguição do procurador Marc Previeau (Serge Hazanavicius) à Lesage. Sua postura compara-se a nossa, caro telespectador, quando percebemos a profundidade dessa trama. Indignação, essa é a melhor definição para isso. Kate, no final do interrogatório, pergunta a Lesage os motivos daquele intricado jogo e o seguinte diálogo acontece:

Lesage: Por que a entrevista não está sendo conduzida em francês?

Kate: Porque o time da defesa fala melhor o inglês.

Lesage: A defesa de Alice Munezero fala melhor inglês do que francês?

Kate: Sim

Lesage: Então, mademoiselle, já tem sua resposta.

Depois dessa fala, o General Lesage se levanta e a câmera focaliza no brasão do seu quepe militar. Esse detalhe e esse diálogo podem parecer pequenos, mas eles se remetem ao nacionalismo exacerbado que motivou as disputas coloniais do final do século XIX e início do século XX e às duas Grandes Guerras Mundiais. Como Michael explica para Kate, o jogo colonial pode ter acabado, mas a busca por poder continua a mesma. No final das contas, trocam-se nomes, mas a situação continua a mesma. Fechando esse arco, o procurador manda prender uma das mentes por trás dessa trama: Antoine Barré. Como covarde que é, ele tira a própria vida. Depois desse ato, a câmera focaliza no mapa da África atrás dele e o sangue escorrendo. Analogia brilhante feita pelos produtores da série. Parabéns Black Earth Rising, por nos proporcionar essa riqueza de detalhes e de não se furtar de discussões tão importantes.

Ao comemorar sua inocência e liberdade, Munezero faz um discurso altamente politizado cheio de força e coragem. Lutar naquele tribunal representava para ela, e cada ruandês, mais uma vitória contra o passado colonial e mais um passo rumo a verdadeira liberdade. Cada fala, como  Vera Tocantins disse no texto anterior, tem um significado potente. Não dá para assistir Black Earth Rising fazendo outras coisas. Você perderá cenas grandiosas e detalhes incríveis.

Com habilidade o arco de Alice Munezero se encerra e já somos apresentados à trama que, provavelmente, servirá para encerrar essa temporada: Patrice Ganimana (Tyrone Huggins). Misteriosamente, um dos arquitetos do genocídio tutsi aparece em Londres. Isso possibilita que o TPI possa julgá-lo. Por que depois de tantos anos escondido, ele simplesmente aparece? Essa pergunta provoca muitos questionamentos em Michael, Kate e eu. Depois de quatro episódios de Black Earth Rising sabemos que tem algo a mais nisso tudo.

Diminuindo o ritmo, as relações interpessoais entre Michael e Alice são aprofundadas. Percebemos que os dois tem um passado amoroso e Munezero está decidida a esperar o julgamento de Ganimana para voltar para Ruanda. Claramente ela tem intenções com relação ao governo do seu país e quer guardar sua grande cartada. Agora, ela é uma heroína nacional e suas palavras têm peso. Resta saber quais são suas reais intenções. Temos um momento direcionado a Kate e Michael também. Duas personagens complexas e que tem se apoiado um no outro para encontrarem um lugar no mundo. A linha dessa relação fica mais tênue neste episódio, provando como eles são frágeis e humanos. Perceber essas nuances só é possível graças ao trabalho magnífico realizado por Michaela Coel e John Goodman.

O caso contra Ganimana começa a patinar quando testemunhas simplesmente retiram suas acusações. Michael, então, começa a puxar suas cordas, tentando manipular o jogo ao seu favor. Buscando saídas temos um diálogo interessante de Ennis e Eunice sobre o segredo que eles têm guardado. Toda vez que citam isso na série, fico cada vez mais ansiosa e curiosa. O que é tão importante assim? Como Kate está envolvida? Qual a relação disso com o julgamento de Ganimana?

O TPI retira as acusações contra Ganimana por falta de provas e David Runihura (Lucian Msamati), conselheiro da Presidente Mundanzi, reivindica o julgamento em um tribunal em Ruanda, porém as coisas ficam nubladas novamente. Como Kate, acreditamos que julgar um genocida, onde quer que seja, é o que importa, mas o “Grande Jogo” não é tão simples assim. Quais são os interesses reais para impedir essa extradição? Não sei! O que sei é que temos o caminho preparado para uma nova trama intricada e cheia de reviravoltas, pois Black Earth Rising provou que sabe fazer isso como ninguém. 

África de pé e outras curiosidades: históricas ou não

O intragável advogado de Ganimana, Blake Gaines, nada mais é que o diretor e escritor dessa série incrível: Hugo Blick

Não confundir o Tribunal Penal Internacional com o Tribunal Internacional de Justiça. São órgãos diferentes. O primeiro julga pessoas, enquanto o segundo julga Estados. Até hoje, o TPI julgou 21 casos, todos eles referentes a crimes ocorridos no continente africano.

Os Estados Unidos assinaram o Estatuto de Roma durante a presidência de Bill Clinton, porém, com a posse de George W. Bush, o país retirou sua assinatura. A Rússia retirou sua assinatura, em 2016. Lembrando que ambos países assinaram, mas nunca ratificaram o Estatuto. Por que será? Geórgia, Ucrânia, Iraque, Afeganistão…

– Para julgar os culpados pelo genocídio em Ruanda, foi criado em novembro de 1994, o Tribunal Penal Permanente para Ruanda, com sede em Arusha, na Tanzânia. O tribunal encerrou suas atividades em 2005. Ao todo, 93 pessoas foram indiciadas. 61 foram julgadas e condenadas, 14 foram postas em liberdade. Outras morreram ou foram remetidas a tribunais nacionais.

REVISÃO GERAL
Nota:
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black-earth-rising-1x04-a-bowl-of-cornflakesTemos o caminho preparado para uma nova trama intricada e cheia de reviravoltas, pois Black Earth Rising provou que sabe fazer isso como ninguém.