Amigas e amigos, iniciamos mais uma cobertura por aqui. E mais uma vez, minha parceira nesta jornada incrível é minha amiga e dramaturga (entre uma milhão de outras coisas que ela é) Vera Tocantins. Sem mais delongas, vamos as considerações desse segundo episódio explosivo de Black Earth Rising. Looking At The Past começa exatamente onde o episódio anterior terminou. Fica claro que algo trágico vai acontecer, durante o julgamento de Nyamoya. Para esclarecer um pouco as coisas, algumas informações sobre o funcionamento do Tribunal Penal Internacional (TPI) e o Estatuto de Roma serão citadas logo abaixo.
Depois das tratativas iniciais do TPI, o roteiro que parecia estar morno, ferve rapidamente. Três importantes figuras são tiradas de cena. A direção rápida de Hugo Blick nos deixa em choque e apresenta poucos segundos de pura crueza e desentendimento. Por que tirar tão rápido de cena essas personagens? Foi essa pergunta que me fiz logo de cara. No entanto, não demora muito para o telespectador perceber que essa decisão narrativa garantiu todo o desenrolar do restante da série.

Black Earth Rising/Kate
Os segredos ficam ainda mais latentes, nesse momento da história. Percebemos claramente que o passado de Kate Ashby (Michaela Coel) é mais complicado do que aparenta. Neste ponto, temos a introdução de uma nova peça no jogo: Alice Munezero (Noma Dumezweni). Tudo é sussurrado, dito por entrelinhas. Os mais apressados podem se incomodar um pouco por essa escolha narrativa, mas isso se faz acertado para a história. A única coisa que posso lhes dizer é: sigam em frente! O resultado é inesperado e extremamente positivo.

Black Earth Rising/Michael
Depois do choque inicial, Looking At The Past nos surpreende novamente com a prisão de uma figura que acabara de ser introduzida na trama: Munezero. Michael Ennis busca, então, uma abalada Kate para tentar livrar Alice da prisão, porém as coisas não são tão simples assim. Abro aqui um parêntese para parabenizar o roteiro da série. Ficamos com a sensação que sempre tem algo a mais, as respostas não são diretas e cabe a nós juntarmos as peças desse quebra-cabeça. Em tempos de tramas rasas, é uma satisfação assistir algo tão bem construído.
Kate me representou em vários momentos, perdidíssima. Não ter respostas é angustiante. Somos transportados para França, onde Alice Munezero deve responder por seus “crimes”. Defendendo sua inocência, temos uma das falas mais emblemáticas desse episódio:
“Porque, senhor, por muitos anos o seu país apoiava os organizadores do genocídio. E quando o genocídio aconteceu e meu exército acabou com ele, o seu país ficou envergonhado de admitir sua culpa e resolveu tentar manchar minha inocência”.
O desconforto do juiz, depois de ouvir essa fala, é evidente. Isso prova que Black Earth Rising não irá se abster de colocar dedos em feridas, que muitos insistem em fingir que já foram curadas. A busca por provas da inocência de Munezero, leva a investigação de Kate à Antoine Barré (Ronald Guttman, Preacher). A ironia do diálogo que se segue é a prova de como muitos enxergam o colonialismo europeu. Em um palacete construído da extração da borracha, Barré parece um homem saído do final do século XIX tentando reafirmar a sua pseudo superioridade de homem branco. Citando o Congo, local de onde foi extraída a borracha, Kate não deixa de evidenciar as mazelas provocadas pelos belgas na região. Tentando minimizar a participação francesa no genocídio tutsi e colocando a culpa apenas em tutsis e hutus, Barré é a verdadeira expressão de algo abominável. Confesso, como Kate, fiquei enojada com essa cena. Não assumir a responsabilidade de seus atos é o que as potências coloniais fizeram e continuam fazendo. Simplesmente jogar a culpa naqueles povos é algo deplorável. Até porque certos problemas só existiram devido a intervenção colonial. Culpar Munezero é a forma de Barré provar seu ponto de vista.
Com um segundo episódio potente, Black Earth Rising amplifica sua trama e nos deixa curiosos e ansiosos por mais. Como bem disse Kate, “alguém não está dizendo a verdade” e é em busca dessas respostas que seguimos fisgados por essa trama intrigante.
África de pé e outras curiosidades históricas
– Os tribunais penais internacionais foram criados após a Segunda Guerra Mundial, para julgar crimes de guerra e crimes contra humanidade. Os campos de extermínio nazistas geraram a necessidade de resposta da comunidade internacional. O mais famoso tribunal penal internacional é o de Nuremberg (1945).
– No entanto, esses tribunais não eram permanentes e só se reuniam para tratar de questões pontuais. Para resolver essa questão, foi assinado o Tratado de Roma (2002), tornando o Tribunal Penal Internacional Permanente, com sede em Haia, Países Baixos. Alguns países não concordaram com o tratado, entre eles Estados Unidos, China, Israel e Iraque. Por que será né?
– As disputas entre etnias, no continente africano, sempre existiram. Como existiram guerras entre franceses, ingleses, portugueses, russos e espanhóis. Esse processo de guerras se intensificou com o processo de partilha do continente africano, na Conferência de Berlim (1884-1885), pelas potências europeias. Colocando etnias inimigas para viverem em um mesmo território, os colonialistas tornaram a região ainda mais explosiva.
– Ruanda foi colônia, inicialmente, da Alemanha. Após sua derrota na Primeira Guerra Mundial, o território passou para as mãos da Bélgica. O país tornou-se independente, em 1962.
– Ruanda faz fronteira com a República Democrática do Congo. Essa região foi designada à Bélgica pela Conferência de Berlim. Leopoldo II, rei da Bélgica, provocou um dos maiores massacres em território africano. Os números não são precisos, mas estima-se que entre 8 e 10 milhões de pessoas foram mortas sob a sua tutela. Um verdadeiro genocídio, desconhecido do grande público.















![Black Earth Rising 1×08: The Forgiving Earth [Season Finale]](https://seriemaniacos.tv/wp-content/uploads/2019/02/Black-Earth-Rising-1x08-218x150.jpg)