Roma ou Colonia Roma é um bairro localizado na Cidade do México, famoso por ser habitado pela classe média alta mexicana desde a década de 20, local onde Alfonso Cuarón cresceu e é nesse ambiente que o aclamado diretor, vencedor do Globo de Ouro de melhor diretor, nos presenteia com seu mais novo filme de mesmo nome, “Roma”.

Existem vários aspectos para serem abordados na obra, desde seu contexto histórico até a construção de arquétipos nas personagens tão bem trabalhadas e interpretadas, além dos fatores estéticos do filme, como seu estilo de direção e escolha pelo preto e branco.

Cuarón consegue retratar de forma brilhante uma das piores tragédias da história do México, que é o massacre de Corpus Christi ou “Halconazo”, que aconteceu dia 10 de junho de 1971, onde muitos jovens morreram no protesto pela libertação dos presos políticos, entretanto por mais que o filme retrate o acontecimento com cuidado e fidelidade o foco do filme gira em torno da vida de Cleo, o trabalho de contextualizar a situação político-social do país é feita através de referências muito bem colocadas no desenvolvimento da história, como os lutadores, do qual Fermin fazia parte, que mais tarde seriam os responsáveis pela morte dos estudantes no “Halconazo”. A sutileza que Roma possui ao trabalhar tal momento histórico em segundo plano deve ser reconhecida, deixando apenas elementos que podem ser reconhecidos sem interferir diretamente na história principal.

Existe um fenômeno estudado na literatura brasileira chamado a “cultura do agregado” que vem desse passado escravocrata e explorador, onde um empregado doméstico, na maioria das vezes latino, negro ou indígena é colocado em uma posição denominada aquele funcionário que vive em função da família dos patrões, estão sempre inseridos no ambiente familiar, porém de forma subalterna, são os chamados “quase da família”, pois nunca serão iguais aos patrões ou parentes dos mesmos, nem terão as mesmas regalias, este termo foi criado para que tais funcionários se sentissem menos explorados, mas sim parte desse núcleo familiar, um grande exemplo desse arquétipo está presente em “Dois Irmãos”, obra de Milton Hatoum, com a personagem Domingas.

Roma
Roma

Alfonso Cuarón então constrói Cleo, interpretada pela sensacional Yalitza Aparicio, inspirada em Liboria Rodriguez, para quem o filme é dedicado, mulher indígena que começou a trabalhar na casa de Cuarón quando o mesmo tinha nove anos. Em Roma, vemos a rotina da empregada, como é a primeira da casa a acordar e a última a dormir, por mais que Cleo seja amada por todos da casa, desde os filhos até a patroa, a moça ainda é reprimida nas pequenas coisas, como ligar a luz de seu quarto, pois sua patroa, Sofia, não gosta que as empregadas fiquem com a luz ligada até tarde e é nesse ponto que Cuarón crítica de forma sútil e nos faz enxergar através da perspectiva das domésticas como Cleo, que vivem em função do seu trabalho.

Vemos então a protagonista conhecer Fermin, um jovem muito de uma comunidade muito pobre que vive para seus treinamentos de luta, que mais tarde descobriremos ser apenas uma forma que o governo tinha de usar jovens pobres para agredir seus opositores, o relacionamento entre a moça e o rapaz logo gera um fruto e Cleo engravida do rapaz, que a abandona. A atuação de Yalitza é tão poderosa que vemos na personagem alguém reprimido, a todo momento, mesmo que ela não concorde e seja contra àquilo imposto, a moça se fecha e aceita de cabeça baixa. O momento em que ela vai contar à Sofia que está grávida e o pai abandonou foi muito aliviante, pois tinha certeza que ela seria demitida, talvez este seja o único ponto no filme que tenha me incomodado no momento em que vi, pois pareceu um tanto quanto fantasioso a patroa aceitar e apoiar Cleo da forma que fez.

Todas as cenas em que Cleo encontra Fermin são importantes, seja para nos encher de raiva, como quando o rapaz acusa a moça de mentir sobre a paternidade, ou nos deixar aflitos, como quando a loja é invadida e Cleo entra em trabalho de parto, fazendo com que sua filha nasça morta.

Todavia, Cleo não é a única passando por um abandono, Sofia foi deixada por seu marido por uma moça mais jovem. A trajetória das duas em seus diferentes ambientes sociais constroem a história até seu ápice, onde Cleo finalmente desaba e Sofia conta aos filhos que o seu marido a deixou. A maneira como a patroa consegue se reerguer e planejar uma vida com os filhos é louvável, porém podemos perceber mais uma vez a diferença de realidades entre Sofia e Cleo. O momento em que a moça diz que não queria ter a criança, o que a faz sentir culpa leva qualquer um que esteja envolvido pela obra ao choro, nessa mesma cena podemos observar como a personagem era reprimida e que neste momento ela finalmente consegue colocar pra fora sua dor, mais uma vez parabéns à Yalitza e à Marina de Tavira, atriz que interpreta Sofia.

A maneira como o filme concebe essa perspectiva da vida de Cleo consegue criar uma atmosfera transformadora para seu telespectador, retratar como a vida de uma doméstica como Cleo, que existem muitas em diversas culturas, dá ao filme uma importância sem precedentes, trazer um olhar mais cuidadoso a como essas pessoas possuem suas lutas e questões pessoais, humanizando e elevando as mesmas ao papel de protagonismo.

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Roma é um filme completo e repleto de camadas, tanto em suas personagens quanto em sua concepção, cheio de referências, não só à infância de Cuarón, mas à história de seu povo, além de trazer elementos de seus filmes anteriores, envolve o telespectador e o insere no universo criado em preto e branco, nos anos 70 no México. O vencedor do Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro merece todo o prestígio que está recebendo e todas as possíveis indicações ao Oscar.

REVISÃO GERAL
Nota:
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