É comum séries médicas, policiais, jurídicas, beberem da fonte de suas predecessoras, utilizando de algumas técnicas que não costumam falhar e podem ser refeitas com uma nova roupagem. Abrir a caixa de pandora, criando um caos na vida de praticamente todos os personagens e deixando suas resoluções para o episódio depois do hiatus é uma das jogadas de roteiro mais básicas e conhecidas. Já vimos isso em E.R., Greys Anatomy e outras séries repetidas vezes, porém assim como uma conversa com o crush, somos trouxas e morremos de amor, ódio e ansiosidade todas as vezes.

Embora seja uma jogada de marketing e uma forma de sustentar o interesse na série enquanto ela se encontra no hiato, para criar um cliffhanger bom o suficiente para deixar os telespectadores arrancando os cabelos de curiosidade, as tramas de tais episódios costumam ser extremamente ágeis, caóticas e importantes para o desenvolvimento dos personagens, o que em grande parte das vezes sobe o nível da série e obriga os roteiristas a quebrarem a cabeça por mais ideias mirabolantes.

Assim, ao som de “Sleep In Heavenly Peace”, uma música extremamente promissora para ocupar lugar junto a “Chasing Cars” em músicas que nos fazem suar pelos olhos, o caos foi instalado no Hospital San Jose St. Bonaventure, colocando a vida da Dra. Lim em perigo, Melendez e Claire prontos para serem despedidos e processados, Shaun em um surto no pior momento possível, Glassman sendo obrigado a aceitar o pior cenário da sua doença e Alex sofrendo mais uma vez acreditando ter falhado como pai. Tramas extremamente tristes e por isso tão empolgantes para nós telespectadores.

Não acredito que a Dra. Lim morrerá. Ainda que David Shore tenha dado uma de Shonda Rhimes, Audrey é uma médica essencial para o hospital e cuja participação na série ganhou espaço recentemente. Atuando como mentora dos residentes, concorrência e possível interesse amoroso de Melendez, não vejo a morte da Dra. Lim sendo mais importante para a série do que sua participação ativa. A morte muitas vezes funciona como um personagem necessário para o desenvolvimento geral do enredo, todavia, não acredito ser esse o caso nesse momento.

Não obstante, Melendez não tem a menor ideia de quanto tempo Audrey continuará viva, sendo provavelmente um dos motivos para sua reação extrema, perigosa e contrária as diretrizes do hospital e da sua profissão. Não é que Neil não tenha pensado no seu paciente ao ressuscitá-lo, porém creio que sua mente já criou um plano para auxiliar Dra. Lim, uma vez que Andrews nunca o permitiria chegar perto da ala em que ela se encontra.

Entretanto, Melendez não está sozinho e o que ele e Claire estão fazendo não apenas pode decorrer em suas demissões como pode levá-los direto para um julgamento no tribunal. O desrespeito à ordem de não reanimação é uma grave violação ao Código de Ética Médica e a autonomia do paciente. Já existem casos em que até mesmo tatuagens de “não ressuscitar” foram aceitas como forma de expressão da vontade do paciente, sendo proibido que os médicos realizassem procedimentos para a reanimação. Dessa forma, Melendez e Claire provavelmente não sairão ilesos de suas ações, o que poderá trazer uma trama interessante e cheia de dilemas éticos para debatermos.

Tratando de outra pessoa que daria tudo para estar dentro da ala hospitalar em quarentena, a vida pessoal de Parker não foi muito abordada até o momento, nos sendo dadas informações por meio de algumas falas do personagem com a Morgan ou o Shaun. Não obstante, se tem algo que sabemos de Alex é que ele acredita ter falhado como pai e deseja reverter essa imagem que deixou ao seu filho. Independente dos motivos que fizeram os dois se afastarem, o desespero de se sentir impotente vendo seu filho não conseguir respirar, sem poder ajudá-lo, com certeza é um dos piores sentimentos que um pai pode ter. Não acredito que ele tenha sido infectado e provavelmente sua situação será resolvida no início do próximo episódio, porém todo esse caos afetará Alex diretamente e talvez ele até mesmo se mude para voltar a morar perto do filho. Não consigo ver um futuro promissor para Park na série e após tanto tempo sem lhe dar abertura, acho difícil que alguém se importe muito com sua saída.

Por outro lado, o medo de perder Glassman fica mais real a cada episódio, sendo complicado pensar que o personagem conseguirá sobreviver à situação em que se encontra. Diferente de Audrey, a morte de Aaron causaria um impacto em todos os personagens, sendo mais significativas as consequências de sua morte do que as ações, ou falta delas nos últimos episódios. Glassman foi um mentor para todos que estão trabalhando no hospital e um pai para Shaun. Ainda que Murphy tenha Lea ao seu lado, sua relação com seu irmão e Aaron é totalmente diferente, existindo uma dependência e uma crença no personagem de que ele não conseguirá dar conta da vida sem a ajuda de alguma dessas pessoas.

Dessa forma, com a morte de seu “pai”, Shaun será obrigado a dar mais um passo grande no desenvolvimento que vem tendo desde criança, assumindo que precisa de ajuda em alguns momentos, mas que consegue viver em grande parte sem depender de outra pessoa. Com a trajetória dos dois personagens até o momento, ainda que seja triste, vejo o falecimento de Glassman como uma necessidade para o desenvolvimento essencial da trama principal.

O surto de Shaun mostra que ele sempre precisará da ajuda de alguém. O incômodo da falha na luz e suas consequências mostram claramente que o personagem possui dificuldades devido a sua síndrome e é simplesmente impossível desejar que ele aja e seja como uma pessoa neurotípica, todavia não acredito que isso seja algo que o impossibilita de ser médico ou que o obrigue a ser 100% dependente de outra pessoa. Shaun não deixou de ter algumas peculiaridades que mostrou no episódio piloto, ele apenas aprendeu a lidar melhor com elas. Da mesma forma que ele aprendeu a lidar com seu medo de dirigir, Murphy possui um longo caminho a ser percorrido, mas já demonstrou ser totalmente capaz de fazê-lo.

Entretanto, não é todo mundo que pensa desse jeito e acredito que esse surto poderá custar caro para Shaun. Vigiando a la Big Brother, Andrews observará que Murphy não foi capaz de auxiliar o filho do Park e um paciente infectado em um momento de extrema importância, podendo ser o que faltava para ele justificar a demissão do personagem. É impossível confiar na humanidade de Andrews e só espero que ninguém morra devido a falta de assistência de Shaun durante o surto.

> SUPERNATURAL, uma série do CORAÇÃO!

Quarantine foi um excelente episódio, elevando a série e prometendo um ritmo mais alucinante, dramático e impactante na volta do hiato. Ainda que no início dúvidas tenham pairado sobre uma possível relação da luz e da infecção, não imagino existir qualquer relação uma vez que foi confirmada a doença na Malásia. Como Shaun sempre é o responsável por descobrir soluções mirabolantes acredito que ele conseguirá salvar Lim e isso poderá atenuar as consequências do seu surto. Apenas espero que os roteiristas criem uma solução verossímil e não testem a nossa inteligência.

REVISÃO GERAL
Nota:
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the-good-doctor-2x10-quarantineQuarantine foi um excelente episódio, elevando a série e prometendo um ritmo mais alucinante, dramático e impactante na volta do hiato.