Harry Potter foi uma franquia mágica e não somente por sua temática. O grande trunfo da obra criada por J. K. Rowling foi o de crescer juntos com seus leitores e espectadores, emulando muitas das mudanças que a adolescência e a vida adulta trazem, além de tratar de temas importantes mascarados pelos fantásticos contornos da mitologia do mundo bruxo. Foram oito filmes, uma das maiores bilheterias conjuntas da história do cinema e milhões de fãs encantados pelo universo criado em 1997. Então, foi com uma mistura de excitação e desconfiança que o anúncio da nova franquia, “Animais Fantásticos”, foi recebido. Por um lado, era uma nova oportunidade de adentrar o mundo bruxo novamente, desta vez no passado, bem antes das aventuras de Harry, Rony e Hermione. Por outro, as coisas poderiam desandar e matar a magia que outrora encantara o planeta.

Baseado num almanaque sobre a fauna mágica (com 63 páginas na versão brasileira), “Animais Fantásticos e Onde Habitam” acabou se mostrando uma mistura das duas expectativas: uma nova visita com um gosto amargo. Os principais problemas foram as conveniências do roteiro e o imediatismo das situações que não conseguiam dar sustentação ao visual mágico já característico da franquia. O trabalho de Rowling como roteirista não se equiparava ao de escritora e o resultado dividiu a fanbase. Dois anos depois, chega aos cinemas “Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald” (Fantastic Beasts: The Crimes of Grindelwald, 2018), que consegue melhorar a qualidade da nova franquia, mas também explicita sofrer dos mesmos problemas do seu antecessor.

Um ano após ter sido preso, Grindelwald (Johhny Depp) escapa das garras da MACUSA e foge sem deixar paradeiro. Todas as pistas indicam que ele foi para Paris, França. Isso faz com que Newt Scamander (Eddie Redmayne) se envolva mais uma vez, obrigado a ir para a capital francesa onde não só uma batalha pessoal se desenrolará, como também todo o destino do mundo bruxo está em jogo.

Em determinado momento do filme o personagem interpretado por Callum Turner (Theseus, irmão de Newt) diz que “Está chegando a hora em que você terá de escolher um lado”. E isso exemplifica bem a evolução que o roteiro sofreu nesses dois anos que separam os dois filmes. Rowling deixou o clima solar e leve do longa anterior e trouxe a seriedade necessária para uma ameaça do porte que dá título à sequência. A sobriedade e seriedade latentes na narrativa são a manifestação do preço pago pelas escolhas tomadas durante as pouco mais de duas horas de exibição. Se antes tínhamos uma despreocupação com o destino dos personagens, aqui ficamos apreensivos em como essas escolhas moldarão o futuro dos mesmos nos filmes que virão. Foi uma jogada inteligente que faz com que o nível do filme seja elevado e demonstre um vislumbre do quão genial essa história pode se tornar.

Se nesse quesito houve evolução, em outros Rowling continua forçando situações que não agregam em nada a trama. Personagens mal aproveitados, ligações com Harry Potter que beiram a destruição do conceito de linha temporal, viradas de roteiro que soam forçadas ou construídas no mais fraco dos motivos, vários dos elementos que tornaram o anterior uma experiência aquém, retornam neste segundo volume. A direção de David Yates também começa a mostrar sinais de cansaço, ele mesmo se rendendo aos seus vícios diretoriais depois de cinco longas dirigidos para o “Wizarding World”. Enquanto algumas sequências são verdadeiras pérolas visuais que colocam o espectador sob o mais forte dos feitiços de admiração, outras são uma maçaroca de elementos conflitantes em cena, fazendo com que os limites de figura e fundo se borrem e confundam ainda mais algo já confuso.

Dos novos nomes que entram no elenco, o principal destaque é Jude Law e sua versão “jovem” de Albus Dumbledore. Com uma mistura de charme e displicência calculadas, Law cria uma nova versão do famoso professor/diretor de Hogwarts que conversa com as duas outras atuações já feitas no papel, mas que também abre caminho para uma nova faceta desconhecida do personagem. Outra grande surpresa é Depp. Com toda a polêmica envolvendo sua vida pessoal e o preguiçoso caminho de atuação que ele tomou, a sua aparição no último filme foi alvo das maiores críticas. Neste ele consegue mostrar um pouco do brilho de outrora (pré Jack Sparrow), com um Grindelwald que mete medo e ao mesmo tempo fascina, apesar da maquiagem díspar que continua irremediavelmente bizarra. Zoë Kravitz (Leta Lestrange) completa o time de novatos, como um dos vértices narrativos mais importantes do longa, mesmo que esta importância não tenha tanto espaço assim para ser demonstrada.

O principal “crime” de “Os Crimes de Grindelwald” é não saber trabalhar o que precisa no tempo disponível. Ao recorrer a soluções batidas para dar andamento à trama, o filme acaba perdendo toda a força que conseguiu nas mudanças de tom de sua narrativa. Na tentativa de expandir ainda mais seu universo, J. K. Rowling acabou se perdendo num caminho megalomaníaco de criação que pode cobrar um preço alto mais na frente. Ainda há tempo para mudanças, afinal temos três histórias para completar a nova empreitada, mas a permanência no erro que esse segundo demonstra começa a preocupar. Em meio a tantas escolhas, a decisão entre uma delas é a pior das tarefas.

* O Série Maníacos assistiu ao filme a convite da Warner Bros. Pictures Brasil 

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REVISÃO GERAL
Nota:
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Lucas Fernandes
Cinéfilo, sériemaníaco e designer não praticante nas horas vagas.
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