Provavelmente todo mundo já passou pelo luto de perder um ente querido. Sendo praticamente inefável a dor gerada pela morte de um familiar, o sofrimento pode vir acompanhado de outros sentimentos como a culpa e a raiva. A sensação de impotência após a perda mostra que não possuímos qualquer controle sobre a vida e que deveríamos ter dado mais importância para momentos que pareciam bobos. Nesse sentido, é comum repassarmos na cabeça situações em que poderíamos ter agido diferente, como se tivéssemos certeza de que voltar no tempo nesse instante salvaria a pessoa da tragédia que aconteceria.

Infelizmente, a morte é um tema pouco discutido e a dificuldade de superá-la se deve muito pelo tema ser considerado tabu. Como visto no episódio, Glassman precisou chegar à beira da morte para enfrentar a morte da sua filha e todos os sentimentos misturados de raiva, revolta e culpa que ele tentava ignorar. Procurando enterrar suas dores e fugindo do desabafo e diálogo com qualquer pessoa, Aaron permaneceu por muitos anos em um estado de negação, fugindo de qualquer situação que o obrigasse reviver a perda e falar sobre.

The Good Doctor nos entregou nessa semana um episódio focado em Glassman. Não vimos Aaron quando sofreu com a perda de sua filha, bem como não assistimos o início de seu luto. Fomos apresentados desde o piloto, ao presidente do hospital. Quem ele era como pessoa, seu passado, motivações, medos e prazeres foram sobrepostos e escondidos pelo profissional competente, respeitado e que atuava como um pai para Shaun diversas vezes. Ainda que saibamos um pouco de seu passado por falas e lembranças do Dr. Murphy, não conhecíamos Glassman de verdade. Até agora.

A psicóloga Elisabeth Kübler-Ross após analisar a reação psíquica de pacientes em estado terminal, elaborou as cinco fases do luto – negação, raiva, barganha, depressão e aceitação. Explicando de um jeito mais didático esses estágios, o vídeo abaixo ilustra de uma forma bem simples e clara:

Glassman aparentemente ficou preso entre o primeiro e segundo estágio. Talvez Shaun tenha servido como um escape. Talvez Shaun possa ter sido a barganha que ele precisava para preencher um vazio que era doloroso demais. Todavia, não existe ninguém que possa preencher esse vazio e em algum momento essa barreira iria se quebrar.

É interessante perceber como Aaron criou uma própria prisão mental ao longo dos anos, impossibilitando-o de viver fora da sua bolha e não o permitindo ser mais do que uma máquina humana que salva a vida das pessoas enquanto estava morto por dentro. Como desabafado por ele na discussão calorosa com a filha, ele morreu junto com ela. Embora seu corpo tenha continuado funcionando e por fora ele aparente ter seguido com a vida, a verdade é que sua mente ficou perdida no dia em que a tragédia aconteceu. E como a mente prega truques que muitas vezes não conseguimos compreender o motivo, chegou o momento de Glassman passar para o último estágio do luto.

Aaron não foi o melhor pai de todos. Aaron não soube lidar bem com situações em que Maddie claramente pedia silenciosamente atenção e cuidado. Não obstante, seja lá o que tenha acontecido, afinal não ficou muito claro como ocorreu a morte, não existe culpa ou culpado. Glassman dentro de suas qualidades e defeitos procurou fazer o seu melhor, da mesma forma que Maddie cometeu erros e acertos buscando fazer o que parecia correto no momento. Colocar a culpa em alguém ou em algo seria um alívio, afinal daria um sentido à morte, porém às vezes tragédias acontecem sem qualquer motivo aparente. Sem qualquer explicação. E é necessário que aceitemos isso. É necessário que saibamos nos perdoar, perdoar o outro e entender que a dor nunca passará, a saudade sempre estará presente, mas a aceitação permite com que esses sentimentos sejam menores e mais fáceis de lidar.

Em paralelo a esse plot emocional, o caso da semana aliado ao passado de Shaun mostrou outro tipo de perda. Ainda que seja mais clara a dor de uma morte, o desapontamento com aqueles que amamos e ainda estão vivos, pode gerar um afastamento e um sofrimento tão grande quanto. Ultrapassando o tratado no episódio, existem diversas pessoas que sofrem por não serem aceitas pelos seus familiares seja pela religião, orientação sexual, condições neurológicas e outras questões.

Sendo obrigadas a lidarem com esses desapontamentos e procurarem outras pessoas para terem apoio, algumas pessoas nunca conseguem reatar os relacionamentos perdidos uma vez, deixando de conversar e conviver literalmente até sua morte. Discursos relacionados à falta de compreensão das atitudes por amor não costumam fazer muito sentido em minha opinião e admito que fiquei com um gosto amargo na boca no final do episódio, afinal os pais trataram a filha como louca para fazer algo que eles queriam, ignorando sua maioridade, sua vontade e a possibilidade de perdê-la, ligando apenas para seus egoísmos. Entretanto, a discussão colocada em pauta é bem interessante e nos faz lembrar que não é apenas a morte que separa as pessoas que se amam.

E então The Good Doctor, no meio de tantos sofrimentos, nos traz um pouco de alegria ao vermos pessoas que estavam separadas possivelmente reatarem seu relacionamento. Lea continua sendo a melhor companhia de Shaun para seu desenvolvimento como pessoa e esse episódio demonstrou muito bem o porquê. Tratando-o como uma pessoa comum, sem pisar em ovos ou relevar condutas inadequadas por sua falta de habilidade social, Lea trata Shaun de igual para igual, levando-o a compreender que ele não tem uma carta branca para fazer o que quiser e sua condição neurológica não será desculpa para agir como um idiota.

Sendo extremamente fofas e engraçadas suas tentativas de pedir desculpas a Lea, foi interessante vê-lo ser obrigado a conversar e falar a verdade, por mais difícil que parecesse, sem se esconder atrás de músicas de karaokê ou donuts. Não sei se Lea gostou ou simplesmente achou estranho ele ter alugado o apartamento para os dois dividirem, porém espero que eles mudem e convivam juntos, pois da mesma forma que ela pode se beneficiar da sinceridade extrema dele, ele pode desenvolver muito socialmente com ela, melhorando exatamente no que Andrews tanto o persegue desde o piloto.

> Elite, The Innocents e Kiss Me First – SÉRIES PERDÍVEIS!

The Good Doctor trouxe mais um ótimo episódio, carregado de drama emocional com aquela pitada de humor que nunca falta. Abordando mais a vida pessoal dos personagens e nos permitindo conhecer um pouco mais de suas histórias, a conexão telespectador-personagem será mais fácil de acontecer, fazendo com que aqueles que assistem se importem mais com os dramas e os possíveis impactos semanalmente. Após conhecermos mais Aaron, espero que a irmã de Melendez seja apenas o pontapé inicial para que nos seja apresentada sua vida pessoal e possíveis situações complicadas que o moldaram a ser a pessoa e o profissional que é hoje.

REVISÃO GERAL
Nota:
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the-good-doctor-2x04-tough-titmouseThe Good Doctor trouxe mais um ótimo episódio, carregado de drama emocional com aquela pitada de humor que nunca falta.