Charmed apresenta sua nova forma, deliciosamente ridícula e extremamente relevante.

Caso você não esteja familiarizado com Charmed, a produção que gira ao redor de três irmãs bruxas, Mel (Melonie Diaz), Maggie (Sarah Jeffery) e Macy (Madeleine Mantock), é um reboot da série de mesmo nome, que estreou no finado The WB channel em 1998. Dotadas de poderes fantásticos, as três são bruxas com poderes próprios, Mel é capaz de parar o tempo, Maggie consegue ler a mente de outras pessoas e Macy tem o dom da telecinese, essas três bruxas precisarão lutar contra as forças das trevas enquanto investigam a misteriosa morte da mãe. E em termos de reboot, Charmed 2018 conseguiu capturar bem a essência da original, mesmo que tenha mudado algumas coisas e unido tramas que só aconteceriam lá na quarta temporada, com o surgimento de uma meio irmã – na primeira versão essa meio irmã, Paige, só surgiu depois que uma das atrizes foi demitida, abrindo as portas para uma nova irmã (ao invés de simplesmente substituírem a atriz).

Sejamos honestos, eu compreendo a memória afetiva envolvida quando qualquer produção, popular ou não, recebe o tratamento do reboot, mas Charmed, que eu amo não se engane, deixou a desejar bastante depois de sua terceira temporada, também conhecida como a última da Shannen Doherty. Lentamente a produção começou a mudar seus valores, passando de uma produção de três irmãs bruxas para três irmãs que queriam muito arrumar um marido, ou simplesmente estavam cansadas de salvar a vida dos outros. Em determinado ponto Charmed simplesmente decidiu testar quantas criaturas (das mais varias mitologias) eles conseguiriam transformar suas personagens e, consequentemente, quantas fantasias ridículas conseguiriam colocar em suas atrizes. Então não se engane, eu gostei muito da série original, tanto que ostento em minha estante todas as oito temporadas em DVD, mas não consigo desprezar o fato de que Charmed, pré reboot, não foi uma série boa, mas sim uma série medíocre com bons momentos (alguns até ótimos).

Ter a oportunidade de revisitar essa mitologia do ‘Poder das Três’, do Livro das Sombras, whitelighters, demônios e irmandade, já justifica a presença dessa nova Charmed. A força deste piloto, porém, não esteve concentrada nas características fantásticas, mas na maneira que a série conseguiu trazer o movimento #MeToo para dentro de sua temática. O primeiro ponto é que a produção conseguiu deixar bem claro, logo na sua abertura, do que se trata. Se você não gosta do tema, sinto te dizer, Charmed não é para você, nenhuma das duas, bom, talvez pós season 4, com o plot da Phoebe desesperada para arrumar marido a ponto de forçar suas visões, mas tudo bem, cada conteúdo tem um público alvo e o da nova Charmed ficou bem definido.

Centralizada ao redor dos preceitos do feminismo e discorrendo firmemente sobre o movimento #MeToo, que já está bem exposto na mídia (a não ser que você viva em uma bolha), o roteiro não segurou nenhum soco e falou sobre todos os temas que provavelmente irão desenvolver em sua temporada de estreia e acredito que nas próximas, caso seja renovada. O texto, de Jessica O’Toole e Amy Rardin usa, inclusive, algumas frases características de entrevistas dadas por homens acusados de abuso sexual contra mulheres. A “isso não é uma caça a bruxas” foi a defesa usada por Woody Allen (sim, ele) quando as acusações contra Harvey Weinstein começaram a surgir. Quem também usou essa mesma frase foi Liam Neeson, se referindo ao #MeToo e #TimesUp. E no final, o estudante que usou essa frase para defender seu professor, quase foi morto, após tal professor ter sua identidade como demônio revelada.

Charmed
Charmed

Entrando na parte técnica, conhecido como o grande calcanhar de Aquiles da série, Charmed não se saiu tão mal assim, apesar dos eventuais deslizes da TV aberta e seu orçamento mais limitado. O white walker no final foi um pouco demais, até para o meu gosto questionável, mas todo o resto funcionou bem. A parte prática, que deverá continuar pelos próximos episódios, foi boa e felizmente não demanda maiores gastos orçamentários, já que estamos falando de parar o tempo e mover objetos com a mesa, coisas que dá para fazer sem a necessidade do uso de um computador – cabos e pessoas fingindo que estão paradas já resolve bem, é só não dar o poder de levitar para nenhuma das irmãs e a qualidade deverá se manter estável até o fim. Uma coisa que me chamou a atenção é que decidiram fazer a nova série um pouco mais apertada do que a original. A casa que mais parecia um campo de futebol de tão aberta (o sótão era tão grande que vivia lotado e ainda dava para fazer de sala de dança), reduziu em tamanho e em alguns momentos eu desejei todo aquele espaço da mansão Halliwell das bruxas pré-reboot.

Outro ponto que ainda não funcionou bem, mas que é compreensível devido ao fator aclimatação, é a química das irmãs. Mel e Maggie tiveram um relacionamento melhor, o que é crível já que foram criadas juntas nesse universo, enquanto Macy terminou tentando um pouco demais. O problema em tentar vender um relacionamento que cresce com o tempo, se essa for a ideia da série, é que até o trio conseguir te passar aquele relacionamento, pode já ser tarde demais. Então nesse ponto eu preferia o desprezo pela lógica e uma dinâmica mais forçada, que já me desse a impressão de que elas são irmãs mesmo, desde pequenas. Funcionaria mais.

Já o whitelighter, guardião das bruxas, Harry Greenwood (Rupert Evans) foi ótimo e trouxe a parte deliciosamente ridícula que mencionei acima. Uma série com três irmãs bruxas já tem em si uma premissa bem exagerada, mas foi com Harry que o humor conseguiu ir além. Ele faz comentários fora de ordem, tem uma vibe de bibliotecário, mais Giles de Buffy a Caça Vampiros do que Leo de Charmed, mas tudo bem, porque funciona. E por Deus, como eu estou feliz por terem escolhido o Rupert Evans e não uma versão próxima do Brian Krause, que até hoje eu não descobri como conseguiu o posto de galã da série.

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Charmed, que tem em seu grupo criativo os mesmos responsáveis por Jane the Virgin, soube dosar bem seu drama, comédia e momentos de exposição. O relacionamento familiar, que deverá operar como o norte da produção, também funcionou e fico feliz porque sei que um time que trabalhou em Jane conseguirá me oferecer um ritmo familiar competente, independente do problema ou da telenovela que estivermos assistindo, quer ela seja com virgens milagrosas ou bruxas. Não existe nenhum problema em ser ridículo, todas as produções com base no sobrenatural são, mas nem todas conseguem reconhecer sua identidade. E Charmed (2018) conseguiu mostrar a que veio e para quem veio. No final, é isso que importa.

Observações

No livro das sombras, grande personagem da série, foi possível ver Melinda Warren, uma antepassada das Charmed Ones (Encantadas) na série original. Resta saber se ela também será representada assim ou se essa nova Charmed terminará estipulando que existem outras bruxas e outro trio de charmed ones por aí.

– Mel, Maggie e Macy, porque mães que gostam de colocar o nome de seus filhos com a mesma inicial nunca saem de moda. Minha avó também colocou o nome das suas seis filhas com um M no começo.

– Trump é o primeiro sinal do apocalipse e eu já sei bem quem é o segundo.

REVISÃO GERAL
Nota:
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charmed-primeiras-impressoesCharmed conseguiu mostrar a que veio e para quem veio. No final, é isso que importa.