Não é muita novidade quando alguém (algo?) decide se rebelar contra a categoria da qual faz parte. Temos histórias de assassinos que caçam outros assassinos, vampiros atrás de vampiros e demais criaturas que se torturam e se eliminam por motivos variados. Trazer para o foco um demônio que, por motivo a ser argumentado pelo roteiro, se manifeste como inimigo de outros demônios, portanto, não é muito original. Mas para combater toda e qualquer forma de se deixar levar pela preguiça da conveniente certeza de que nada é inventado, temos sempre a possibilidade de destacar a forma como as coisas são feitas, como os projetos são apresentados. É assim que se sobressai Devilman Crybaby, o melhor exemplo da liberdade que uma produção consegue ao se tornar parte do catálogo da Netflix.
Se o nome já nos soa estranho, a história não melhora nada a sensação do bizarro. Com classificação de dezoito anos, o que adianta nossa apreensão, a produção não poupa muita coisa em seu universo, com suas personagens e parece estar pouco, bem pouco preocupada com o pudor de seus telespectadores. O anime chega como adaptação do mangá chamado Devilman do autor Go Nagai. O mundo apresentado por ele teve vida longa no audiovisual e nos mundos dos mangás, sendo sua história expandida para diversos ramos. Para o serviço de streaming, no qual chegou em janeiro deste ano, a série ganhou dez episódios de vinte e cinco minutos. A direção do projeto contou com Masaaki Yuasa, enquanto teve Ichirō Ōkouchi como roteirista, ambos com prolífica carreira na televisão.

Akira Fudo, nosso protagonista, tem passado os últimos anos com a família de uma amiga porque seus pais viajam muito. O garoto é muito sensível, sendo por isso um alvo de zombaria das pessoas. Seu problema está em ver outras pessoas sofrendo, o que o leva às lágrimas. Ryo Asuka, um amigo, aparece para recrutá-lo para uma missão estranha, revelada no caminho: expor demônios, que não só existem como estão mais perto do que se imagina. O que Akira não sabe é que o amigo pretende utilizar outras pessoas como sacrifício para chamar a atenção das criaturas. Com a confusão da noite de ambos, o estudante acaba possuído por um demônio que lhe deixa em estado de transição entre a pessoa que fora (pelos sentimentos) e o físico e a fúria de quem está agora em sua pele.
Irreconhecível entre os colegas, mais alto e forte, além de menos sensível, Akira se torna o perfil clássico do anti-herói a combater os seres infernais com os quais compartilha sua condição. Nós o acompanhamos desde os pequenos conflitos na escola, passando pelas batalhas nas suas jornadas pela noite e a destruição de todas as coisas ligadas a si. Como manifestação de uma praga, todas as pessoas por perto são tocadas e a partir da contaminação dele seu mundo particular e o mundo como um todo sofrem as consequências dessa espécie que toma os humanos como hospedeiros.

Como anime que se propõe adulto, Devilman explora o mais gráfico e decadente do humano, usando a estética do grotesco para desenhar sua trama. Assim, vemos as pessoas possuídas deformadas, alongadas, tornando-se versões animalescas, maiores e assustadoras, de si mesmas, quase como para sublinhar o quão não-humanos os demônios são. Temos também muita nudez, sexo, linguagem pesada, sangue e o que mais se espera de uma história que investiga as pessoas em suas condições naturais ou antinaturais. A animação faz uma exploração deste gráfico, mexendo na sujeira, mas acaba “bela” dentro da construção de suas formas. Um exemplo deste belo está no abuso do vermelho e do preto que se combinam para investigar a noite nas sombras, na lua ou em demais figuras. As sequências de aniquilação, desde o primeiro episódio, são perturbadoras, mas têm aquele vislumbre de espetáculo que o horror possui.
Os antagonistas aqui são outros demônios no começo, mas logo revertemos isso. O medo vira o principal inimigo da raça humana, quando o preconceito e a intolerância agilizam a extinção — sim, falamos por aqui sobre preconceito contra demônios, e isso está longe de ser o mais absurdo da série. As criaturas da noite, que devoram outras pessoas, são combatidas por Akira em sua missão de proteger os seus, mas isso não é suficiente para impedir o destino de seu planeta. Isso porque, do drama de seu convívio, a história vai ganhando proporções épicas perto de seu final, o que dá uma sensação de irreversível para ela.

Além de Akira, acompanhamos seu amigo Ryo e seus segredos que só nos são revelados perto do final. Temos duas garotas chamadas Miki: uma delas a amiga de infância de nosso herói, com quem ele mora; a outra é uma jovem que tem inveja da atenção recebida por sua xará. Os três, assim como outros, são envolvidos nas atividades atléticas do colégio, que desempenham um papel importante no desenvolvimento do enredo. A família que praticamente criara Akira se divide durante a temporada, enfrentando destinos distintos, dos quais nos apiedamos.
O demônio como monstro clássico de histórias de horror aqui ganha desdobramentos, mesmo que não fuja muito do grande mito que se tem a respeito. Isto é, temos figuras grotescas desfiguradas como imaginaríamos, mas estas se tornam compulsivamente afetadas pelo sexo e pelo afeto. Esses sentimentos causam algo que podemos chamar de histeria dentro do horror, quando se dá um colapso em meio a narrativa e temos a confusão do que é humano e do que não é.

Devilman Crybaby pode ser avaliada por diversos aspectos para uma leitura interpretativa. Podemos afirmar que fala sobre um senso de justiça e natureza que se danificam e são levados à loucura pelo medo humano em lidar com questões externas a si. Sem se importar muito com os significados, no entanto, ainda dá para sair da maratona reconhecendo que estamos diante de uma produção corajosa, bizarra e que aproveita seu espaço para usar todas as cenas que ousa apresentar, pintar-se de todas as cores que ousa escolher e corromper todas as pessoas que se deixam cativar. Talvez frenética e nada mais.
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Este post faz parte do segundo ano do #MêsDoHorror no Série Maníacos. O objetivo é falar, durante o mês de outubro, sobre séries de horror e mistério (ou que esbarram nesses dois gêneros) que não tiveram textos durante o ano — contemplado entre outubro de 2017 e setembro de 2018.















