Na maioria das séries o miolo de temporada serve como um respiro. Um momento de parar e analisar os arcos abertos e começar a dar indícios de como eles se encerrarão. “The Man in The High Castle” resolveu quebrar esse modelo ao implodir todas as certezas construídas até aqui. Até a dupla de episódios passadas era possível assumir alguns rumos da narrativa como certos, no entanto essa nova dupla de capítulos trouxe momentos bombásticos para a narrativa e a promessa de uma nova e mais acelerada dinâmica. Se você prestar bem atenção, até os nomes dos episódios são pertinentes ao que aconteceram neles. A série tem uma história de usar em suas nomenclaturas frases que geralmente não tem uma força positiva no contexto geral da série. Mas aqui a história acaba.

Na review passada disse que a interação entre Joe e Juliana era uma das constantes entre as realidades. Os roteiristas foram e me tiraram o chão dessa afirmação. O jogo de gato e rato perpetrado pelos dois foi uma das coisas mais hipnotizantes que a série já proporcionou. Um constante engano, uma incansável troca de pequenas verdades e grandes mentiras. Até porque o fatídico vídeo causador de toda a deliberação entre as realidades (o túnel na mina em Lackawanna) prometia que os dois estariam juntos até o final. Ver Juliana cortando a garganta de Joe num golpe limpo e preciso, com um misto de alívio e pena foi um dos momentos mais potentes do show (que é repleto deles). O comprometimento de ambos às respectivas causas era tamanho que esse acontecimento ganha praticamente a função de dividir a série entre antes e depois da transformação de Juliana. Sim, porque foi uma transformação. Dali em diante começamos a ver o nascimento da persona que vai tomar as rédeas da resistência e livrar as realidades do jugo nazista.

Quem também tomou as rédeas da situação foi Smith. Foram tantas camadas de traições e alianças presentes na movimentação do personagem que é outro ponto focal irresistível para o espectador. Pensávamos que ele estava a mercê de Rockwell e Hoover, até descobrirmos que o próprio Himmel agia para transformar Smith no novo reichsmarschall. Mas dentro do partido a lealdade é mais forte do que o sangue e nenhum laço pessoal é respeitado, incluindo a sua própria mulher, Helen. Para manter o poder e a capacidade de entender e viajar entre as realidades, Smith ameaça a própria esposa para que ela mantenha os segredos em seus devidos lugares. As sequências em que a “traição” de Rockwell é descoberta e sua eliminação em Cuba é um daqueles pontos da série que trabalham não só o roteiro, mas a contextualização da época fictícia de maneira absurda.

Só que ao revirarem no acúmulo de segredos, um ou outro escaparam e agora se encontram em posse das mãos certas nos momentos errados. Tagomi sabe dos planos de construção do Nebewelt, mas também sabe que sua vida tem um alvo gigantesco preso nela, afetando até aqueles que foram envolvidos por tabela. Himmel não vai descansar até eliminar todas as ameaças ao seu plano de criação de um reich que perdure por todas as realidades e irá usar quantos lebensborn forem precisos para concluir tal plano. Será que eles sabem que o ministro do comercio nipônico é um viajante? E além de tudo isso, esses dois episódios construíram o que eu chamo de narrativa de espelho. Juliana e Smith, dois reflexos de um mesmo propósito. Criação e destruição. Inicio e fim. Essa marcação de dualidade se confirma ainda mais na cena final do episódio seis, quando a cerimônia de posse de Smith e o bar mitzvah de Frank se dão em paralelo, mostrando as diferenças, mas principalmente as igualdades entre os dois polos, que não poderiam ser mais distintos e diferentes e mesmo assim cheio de similaridades.

O passado foi destruído. O futuro começa a tomar forma. A concepção e execução do Jahr Null (Ano Zero) desponta como o motor de conflitos dessa segunda metade de temporada. Mas com tantas variáveis e realidades, podemos afirmar algo com certeza? Personagens mortos estão realmente eliminados da trama ou podem aparecer de maneiras que não esperamos? Perguntas e mais perguntas ficam como alternativa para as teorizações. E ao cada vez mais se aprofundar nessas possibilidades, a série vai destruindo seus alicerces e deixando terreno para a construção do inédito e do surpreendente. Até a próxima review!

Runa 1: Smith arranjou um podre de última hora contra Hoover para que ele ajudasse na derrocada de Rockwell. Suponho que se tratem dos rumores que afirmavam que Hoover era gay e também crossdresser;

Runa 2: Com a questão do ocultismo ganhando força na narrativa, aquela revirada de olhos de Joe nos momentos finais… Não duvido nada que ele volte em outro corpo…kkk;

Runa 3: Toda a sequência no laboratório me lembrou bastante “Fringe”. Na realidade essa temporada está lembrando bastante alguns momentos e conceitos da série da Fox.

REVISÃO GERAL
Nota:
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Lucas Fernandes
Cinéfilo, sériemaníaco e designer não praticante nas horas vagas.
the-man-in-the-high-castle-3x05-06-the-new-colossus-history-endsPerguntas e mais perguntas ficam como alternativa para as teorizações. E ao cada vez mais se aprofundar nessas possibilidades, a série vai destruindo seus alicerces e deixando terreno para a construção do inédito e do surpreendente