Para seu penúltimo episódio, Westworld destrincha o passado do Homem de Preto e sublinha o poder da escuridão.

Não lembro exatamente qual foi o meu primeiro contato com o gênero do faroeste, mas sei que lá na mais tenra adolescência, eu devo ter procurado o que significava a palavra que compunha o título de uma das mais famosas canções do Legião Urbana, banda que dialogava diretamente comigo naquela época. O faroeste é um gênero que sofre a ação do tempo de modo bastante severo. Atualmente, ele só funciona quando flerta com linguagens modernas, seja pelas mãos apuradas de Quentin Tarantino ou mesmo aqui em Westworld, que tenta ressuscitar alguns desses códigos. Como todo gênero narrativo, o faroeste tem suas diretrizes e uma delas é a divisão bem marcada do mocinho e do bandido.

Vivemos numa sociedade em que os instintos primitivos foram sendo progressivamente superados e mesmo algumas preferências e posicionamentos polêmicos precisam ser disfarçados para não chocarem o politicamente correto. Adoraríamos que coisas como racismo, homofobia e misoginia fossem erradicadas do planeta. Mas, isso é pura ingenuidade. Algumas pessoas vivem essas ideias na pele, mas sabem que precisam se editar para viverem de modo saudável em sociedade. Por isso, a ideia de um lugar onde você pode ir sem precisar se preocupar com edições é muitíssimo sedutora. Entre elas, a do mal em essência ocupa um lugar especial. Onde mais você poderia ser egoísta, egocêntrico, cruel e vil sem nenhuma culpa?

Vanishing Point é a penúltima investida de Westworld nessa temporada. Essa é uma investida aguardada pelos fãs, já que os mistérios que envolvem o Homem de Preto são muitos e passamos bastante tempo tentando desvendar suas motivações. Eis que o episódio não necessariamente nos revela nada de novo, mas sim deixa mais encorpado tudo aquilo que já sabíamos: um dia William visitou o parque e essa experiência fez com que ele deixasse vazar de si toda a obscuridade que ele vinha escondendo por obrigação social. Aquilo o fez sentir mais forte, mais empoderado e sua existência de repente tinha alcançado um significado maior do que o tédio de sempre. Tudo em volta de William foi corroído por sua obsessão e uma vez vazado todo o seu mal, foi difícil contê-lo sem que as frestas transbordassem. O Homem de Preto, enfim, fora um “mocinho” fracassado e agora já sabemos, um “bandido” tão fracassado quanto.

“Fordismos” 

Preciso dizer que tudo que vimos acontecer nesse episódio poderia ter sido contado de forma menos rebuscada. Efetivamente, não havia nada de realmente surpreendente a revelar sobre William, mas havia algo de surpreendente no resultado desse investimento emocional. Considerando que esse resultado está no presente e não no passado, todos os cortes para flashbacks pareceram mal organizados, causando uma reação parecida com a que tive quando vi Akane No Mai. Aquilo tudo era necessário, mas prejudicou o ritmo da edição. A direção de Stephen Williams buscou se resolver como podia, providenciando alguns fades que separavam melhor as transições de cena. Isso ajudou, de fato. Já o texto não conseguiu escapar dos Fordismos, aquele emaranhado de enigmas que junto com a fragmentação narrativa, parecem querer apenas nos confundir. Muito da capacidade emocional do show se afeta por essa necessidade de problematizar as linhas temporais. É como se os produtores tivessem medo de contar a história de forma simples e com isso, perder relevância de mercado. Há várias séries que trabalham com fragmentação temporal, mas elas costumam seguir uma métrica. Em Westworld a distribuição de flashbacks e flashforwards é completamente anárquica.

Mesmo assim, tudo se encaixa corretamente no objetivo de nos levar até o último diálogo entre William e Emily (que por alguma estranha razão eu jurava que se chamava Grace). A morte dela foi bastante impactante e visto que estamos no final da temporada, uma grande perda é bem-vinda. Westworld tem estado na lista de produções que não se arriscam muito em perder personagens de peso. Arnold já morreu e “não morreu”, Ford já morreu e “não-morreu”… essa é uma série onde a morte tem uma representatividade limitada, já que anfitriões não morrem e até visitantes podem estar a um passo de terem sua consciência eternizada. Emily ter sido assassinada pelo próprio pai é algo que serve muito bem como clímax para a trajetória de William, um homem incapaz de libertar-se de si mesmo e de sua escuridão.

Acredito de verdade que esse teria sido um bom momento para a morte do próprio William. Parece para mim que a partir desse ponto saber qual era o plano de Ford para ele não é mais tão importante. Suspeito, inclusive, que não há nenhum. A coisa do “quero destruir isso tudo” é frágil e infantil. Teria sido emblemático e icônico se ele tivesse mesmo apertado aquele gatilho, embora compreenda que a permanência de Ed Harris é importante para a produção e que William pode ser egocêntrico demais para topar sair do jogo antes de ver o final. Além disso, foi esperto quando o roteiro substituiu a morte pela paranoia. William começar a achar que pode ser um anfitrião foi uma das coisas mais bacanas dessa temporada.

Vanished 

É por conta desse descompromisso com a finitude que tenho dificuldade em aceitar o drama da “morte” de Teddy. Acho honesto com o personagem que ele tenha ponderado sobre as mudanças que Dolores promoveu, mas não sei até que ponto o gesto suicida será efetivo para o show. A cena fez aparecer as ótimas atuações e é muito coerente, já que Teddy não poderia seguir programações deliberadamente sem questioná-las em nenhum momento. E já que o Season Finale girará em torno da chegada de Dolores ao Vale Além, foi inteligente deixar Teddy ter seu momento ao invés de mantê-lo como simples soldado.

O episódio “brincou” com o conceito de “vanishing” (algo como “desaparecer”) e outra das possibilidades de abdicação partiu de Bernard, que teria varrido Ford de sua programação antes que ele lhe obrigasse a matar Elsie. A coisa toda de colocar a vida de Elsie em risco me pareceu uma piruetada para matar tempo, mas considerando que ela está viva, isso deve voltar á pauta em breve. O importante é que as coisas se alinharam e as arestas foram aparadas, para que a chegada ao Vale seja o grande evento do ano (considerando que depois de levar uma temporada inteira para chegar, vamos realmente chegar). A expectativa é tão grande que o medo maior é que seja impossível satisfazê-la, seja lá o que esse lugar metafórico tenha a oferecer.

A despeito de todas essas questões técnicas e dramatúrgicas, Vanishing Point é um episódio que traz mais uma importante bifurcação ideológica: Maeve é a anfitriã que abriu mão da liberdade para resgatar a filha. William é o visitante que assassina a própria filha por achar que ela é uma anfitriã. A “filha” da qual Ford sente mais orgulho é Maeve, que foi programada, calculada, até mesmo em sua imprevisibilidade. William prefere atirar em Emily do que lidar com as coisas que ela diz. O cenário é bastante claro… A estrutura central de Westworld insiste nas diferenças emocionais entre anfitriões e humanos, onde os humanos não ponderam a vida da mesma forma que os anfitriões (basta pensar em como Bernard se esforça para preservar Elsie). A tecla que está sendo batida é essa, já faz muito tempo. Independente do que esteja no Vale, é essa base filosófica que eles jamais irão abandonar.

Assim, vislumbramos o Season Finale chegando e há muito o que desvendar. A hora de despir metáforas está chegando e todos estamos esperando por nada menos que o impressionante. Impressionantes como são os horizontes visuais do show e impressionantes como são as descrições de alma feitas involuntariamente pelos que supostamente nem as têm.

Westwords: Vários comentários da review anterior reclamavam das comparações com Lost. Eu não sou o único a estar sublinhando isso e na imprensa americana, principalmente, isso vem sendo feito com frequência. Esse link a é do Vulture, um dos sites mais importantes do mundo do entretenimento, e o texto mostra todas as semelhanças entre as duas produções. Ele faz, inclusive, uma descrição parecida com a que fiz no episódio sobre James Delos (e eu publiquei o meu um dia antes deles). É preciso salientar que a comparação não é uma forma de diminuir a qualidade de Westworld, mas de estabelecer o valor artístico que a série tem, na proporção certa. As influências são muitas e exatamente por isso é que se tornam dignas de menção. Qualquer reviewer que não faça isso não estará fazendo direito o próprio trabalho.

Westwords 2: Cadê Hector e Armistice?

Westwords 3: E a pobre da Clementine, que agora virou um roteador da Maeve?

> 13 REASONS WHY: Temporada 3, precisa? (Um papo sincero)!

Westwords 4: A área de comentários da review anterior teve discussões acaloradas que passaram do limite. Entendo o apego que vocês têm à série e respeito que a defendam. O que não acho respeitável é quando isso é feito com agressividade. Então, quero agradecer a todos os comentários educados que trabalharam discordâncias com sensatez. Não sejamos como os torcedores que vão pro estádio brigar. O resultado de um jogo não representa a história de um clube. Isso aqui é só uma review, só uma opinião, nada mais.

REVISÃO GERAL
Nota:
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