Nos últimos tempos, temos visto muitos filmes que tratam sobre fases específicas da vida dos adolescentes e como eles passam por esses momentos de mudança, são os chamados coming of age, um termo criado exatamente para obras com esse tema. Muitos criticam esse tipo de filme por afirmarem que não apresentam profundidade em sua história, sendo que o objetivo desse gênero é retratar períodos de mudança e acabam sendo tão importantes quanto outros tipos. Atualmente temos diversos filmes desse gênero, que fizeram sucesso, como por exemplo Lady Bird, Com amor, Simon, Me Chame Pelo Seu Nome e, na semana passada, a Netflix lançou Alex Strangelove, sua primeira comédia gay e o resultado não poderia ter sido melhor.
O filme dirigido e escrito por Craig Johnson conta a história dos adolescentes Alex Truelove (Daniel Doheny) e Claire (Madeline Weinstein), que depois de oito meses namorando decidem transar, mas para isso, Alex precisa resolver conflitos internos.
Conflitos que só se intensificam quando Alex vai a uma festa e conhece Elliott (Antonio Marziale), e a química entre esses dois é tão boa que você instantaneamente entende que eles estão afim um do outro. O que poderia ser o destaque em Alex Strangelove, acaba perdendo seu lugar para a relação entre Alex e Claire, que não é necessariamente ruim, tendo em vista que os dois também têm uma química muito boa, porém, a questão é que o sumiço repentino do Elliott acaba atrapalhando o fluxo do filme. As cenas dos dois se conhecendo, tanto no show, quanto no quarto de Elliott, são muito fofas e é por isso que o sumiço de Elliott fez tanta falta na narrativa.
Um fator muito interessante no filme, é a jornada de autoconhecimento ou reconhecimento, já que no decorrer do longa descobrimos que Alex já sabia de sua sexualidade e conseguimos ver esse processo, que é um dos pontos positivos do roteiro, pois constrói de forma coerente as partes de Alex Strangelove. Um exemplo desse processo é quando Alex acredita que é bi e graças a isso temos uma das piores/melhores cenas.

Como toda comédia adolescente, temos o melhor amigo, que serve como alívio cômico ao falar as coisas mais absurdas, mas com o tempo percebemos que ele tem um bom coração e nos afeiçoamos com o garoto, e em Alex Strangelove o roteiro não foge do estereótipo e nos traz Dell, um dos amigos de Alex, que sempre tem os piores conselhos amorosos, inclusive quando Alex vai conversar com ele sobre ser bi. Vemos Dell tentando provar que Alex não é bi, mas que sente por Elliott uma admiração masculina (é assim que chamam hoje em dia?). É normal que jovens sejam desinformados sobre sexualidade, então o que algumas pessoas podem ver como ofensivo, é apenas um reflexo da realidade e Dell é a pura representação disso quando o assunto é esse e graças a isso, temos a piada muito boa sobre a banda Panic! At The Disco e bissexualidade.
Agora precisamos falar do pior erro de Alex: a traição. Por mais que no final do filme Claire nem fique sabendo de nada, Alex deveria ter tido mais respeito com Claire, mesmo que ele estivesse passando por uma fase tão complicada, até porque a moça também estava. Toda a sequência de cenas no hotel foram agoniantes e acabou da pior forma possível.
A partir desse momento, tudo que eu queria era que Claire ficasse bem. As cenas de diálogo entre mãe e filha foram muito bem colocadas na montagem do filme e acredito que um dos objetivos dos roteiristas tenha sido não transformar a moça num clichê de apenas namorada do cara que descobre que é gay e desenvolver as camadas na personalidade dela, o que é ótimo, tanto que comecei a me importar inconscientemente mais com Claire do que com Alex. Outro fator muito triste na relação dos dois, é a questão da faculdade. Enquanto Claire conseguiu ser aprovada, Alex não foi e o garoto se sentia cada vez mais pressionado pelo pai, o que é uma questão recorrente na vida de diversos jovens.
É uma longa jornada até Alex conseguir contar que é gay, pelo menos para Claire e vemos então que o protagonista criou um bloqueio mental sobre o assunto sexualidade desde que foi traumatizado quando era mais novo. Eu achei esse flashback essencial para explicar o que aconteceu de verdade com Alex, pois por mais que os tempos sejam outros e as pessoas estejam “aceitando”, foi preciso Alex lutar primeiro com a aversão ao fato de que ele é gay dentro de sua mente, para que pudesse enfim ser ele mesmo, situação que acontece com milhares de pessoas durante a adolescência. Cada um se descobre de uma maneira diferente e Alex é só mais um exemplo de como esse processo pode ser doloroso, mas necessário.
O desfecho de Alex Strangelove mostra o amadurecimento e mudança nos personagens, com Claire sendo a mais madura, ao passar por cima de seus sentimentos para que Alex consiga finalmente ser livre, mas o protagonista também supera seu medo e fica com Elliott, que reaparece nesse último momento e por mais fofo que seja, só lembro que não vimos o moço em grande parte do filme.
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O filme acaba com Claire e Alex gravando o clássico coming out e vemos vários outros vídeos do mesmo tipo. Essa mensagem de compartilhar a experiência para que outros possam achar um tipo de entendimento e conforto nisso.
Alex Strangelove não é um filme perfeito, com um roteiro um pouco raso e cheio de clichês de comédia adolescente, mas que funcionam e fazem o filme atingir seu principal objetivo, que é fazer com que sua audiência se identifique com os personagens e consigam se aceitar como são. Um bom filme para esse mês de junho que é conhecido como o mês do orgulho LGBTQ+ e que vai ajudar muitos jovens que estão passando ou já passaram por algo semelhante.













