Westworld segue numa temporada intensa, mas cheia de fragilidades filosóficas.

Do francês, escorches é o nome que se dá àquelas esculturas humanas em que a estrutura muscular fica visível, ou seja, sem a pele. Numa tradução mais literal, a palavra também significa esfolado, o que não deixa de ser a mesma coisa. É bastante curioso que os roteiristas tenham decidido titular o episódio dessa forma, porque a decisão soa como uma síntese de tudo que a série vem tentando dizer desde que essa agitada segunda temporada começou. Inesperadamente, estamos diante de uma narrativa que não pode ser questionada do ponto de vista da ação, mas que pode ser questionada do ponto de vista filosófico. A pele dos humanos foi arrancada, a dos anfitriões foi arrancada, mas parece que quanto mais a série quer dar significado a tudo, mas parece significar quase nada.

Antes que comecem os ataques, eu explico: não é que Westworld seja seca de metáforas e analogias. De fato, chegamos no ponto em que ela está dando voltas em tornos das mesmas. Ao assistir Les Ecorches, percebi que há um desgaste nas correlações entre humanos e máquinas. Uma correlação forte e que foi tão centralizadora no primeiro ano. O universo do show agora parece conhecer só duas possibilidades: o parque revelou que nenhum ser humano presta e que tudo que todas as máquinas querem é a chance de viver livremente. E desde então não há nenhuma complexidade contraditória no meio disso. Les Ecorches é um episódio que desenha um surpreendente maniqueísmo.

Estão sem a “pele” vários dos personagens que protagonizaram essa semana, mas esse esfolamento não evidencia outras camadas. William continua monocórdio, Dolores continua monocórdia, Hale continua monocórdia, Ford continua monocórdio… O texto tem um profundo apuro na sua maneira de conduzir seus raciocínios e em primeira instância, está ilustrando exatamente o que precisa ser ilustrado. Mas, essa temporada está sendo marcada pela redundância dramatúrgica, quando a cada semana esses personagens tão importantes repetem os mesmos mantras que numa olhada mais atenta, representam os planos mais clássicos de uma série de ficção científica: dominação “do mundo”, dinheiro, superação intelectual. E tal qual numa dramaturgia clássica, quem é ruim é ruim mesmo, sem curvas.

Humans Are Shit 

A grande questão é que para chegar na frente na sua discussão sócio-política, Westworld resolveu que os humanos é que são os vilões da nação. São, claro, mas quando todos eles, presentes nas ações relevantes, são uma justificativa para fechar uma ideia, o papel amplificado da série perde sua abrangência. Absolutamente todos os humanos do show são execráveis e William e Charlote, dois dos mais importantes, lideram o bloco da não-profundidade. Vou ser claro aqui: em termos leigos, numa olhada descompromissada, nada disso é realmente grave. Mas, numa crítica mais apurada, fica evidente que os roteiros não têm sido eficazes em colorir de forma menos chapada as personalidades de seus antagonistas. É legal que nesse caso as máquinas sejam mais capazes de compaixão, mas nenhuma dramaturgia ganha quando estabelece sem reservas quem está certo e quem está errado. O meio-termo sempre foi mais rico.

O embate entre William e Maeve, por exemplo, foi aguardadíssimo e embora seja extremamente coerente que os dois tenham sobrevivido a ele, foi anticlimático que tenham sido poupados. Les Ecorches foi um episódio tomado de pequenos “deux ex machina”, com gente sendo salva no último minuto por um alarme, por alguém chegando, por um tiro repentino…. Na mesma proporção em que a discussão “humanos são maus e máquinas são melhores” está cristalizada, as saídas narrativas para alimentar e resolver tensões flerta cada vez mais com o lugar comum. Ainda tudo muito bem feito, ainda tudo muito apurado, ainda tudo plenamente capaz de nos convencer que tem muito mais significado do que realmente há.

A mesmíssima dinâmica se repete no embate entre Charlote e Dolores. Lá está a humana sem nenhum apreço por nada nem ninguém que não seja sua busca por poder e dinheiro. E lá está a anfitriã que mesmo programada para ser uma assassina fria, consegue sentir uma emoção por aquele homem que já foi seu pai algumas vezes. E lá está também o momento de tensão que antecede uma morte, sendo interrompido por um deux ex machina que salva a antagonista do limite onde foi capturada. A sequência foi boa, me deixou nervoso, mas ela é outra repetição, outra masturbação filosófica que está nos repetindo a mesma coisa há dois anos. Se a Delos queria “testar” a raça humana no parque, investigar seus demônios para usá-los a favor de um plano maior, foi muito bem sucedida, já que não há um exemplo sequer que contradiga a perspectiva bicolor do roteiro. A série não consegue usar outras cores da cartela.

O encontro entre Bernard e Ford não foi diferente. A direção segura e elegante dessas sequências não disfarça que estamos diante da mesma dinâmica: Ford está ali para falar sobre as mazelas da humanidade, enquanto Bernard, a máquina, imprime a confusão típica do existencialismo. E lá vai o roteiro de novo ilustrar como somos terríveis, quando a identidade de Bernard é descoberta e Hale passa a tortura-lo. Mais para frente, quando descobrimos que Dolores testava a fidelidade de Bernard, somos apresentados a outro reforço desse maniqueísmo. Ford criara Bernard para que ele fosse a imagem de Arnold incapaz de traí-lo. Essa diretriz é constantemente confrontada pelo ímpeto de Bernard em responder às suas similaridades com o original. Temos aí o mais complexo exemplo humano do show e ele é protagonizado – vejam só – por uma máquina. E precisa ser assim, porque, enfim, todos os humanos de verdade são uns filhos da puta. O mais alarmante é que se a consciência humana começar a ser realmente colocada nos anfitriões, estragaremos eles também.

O esfolamento continua… A retirada das camadas de pele em guests não revela músculos e sim enxofre. A retirada das camadas de pele nos anfitriões, não revela circuitos e sim alma. E agora eu mesmo me pergunto: quando coloco as coisas assim, o que há de tão errado? Essa pode ser a onda de Westworld, esse pode ser seu grande intuito e está de boa. Não seria a coisa mais rica a se fazer, mas seria a mais honesta. É até bonito… Estamos esfolando humanos para expor geleiras e esfolando máquinas em busca de espírito.

Westwords: Setor 16, Zona 4.

Westwords 2: Ver Dolores usar suas muitas vidas para ilustrar uma frase de impacto contra Hale fez cair a ficha do que essas memórias representam. Foi intenso.

Westwords 3: Aparentemente Maeve não pode controlar anfitriões que também estejam “acordados”.

> SENSE8, O Que Esperar do Episódio FINAL (Sem Spoilers)!

Westwords 4: Se essa história “é de Bernard” e não de Ford, isso pode significar uma resolução final fora de tudo que estamos esperando. Bernard não é Ford, definitivamente.

REVISÃO GERAL
Nota:
Artigo anteriorNetflix divulga vídeo gravado com fãs de Sense8 em São Paulo
Próximo artigoHumans 3×04: Episode 4
westworld-2x07-les-ecorchesO esfolamento continua... A retirada das camadas de pele em guests não revela músculos e sim enxofre. A retirada das camadas de pele nos anfitriões, não revela circuitos e sim alma. E agora eu mesmo me pergunto: quando coloco as coisas assim, o que há de tão errado?