Carrie e o seu vício pelo perigo continuam em evidência. 

Talvez uma das questões mais principais acerca de Homeland seja a natureza controversa de sua protagonista. Carrie rendeu muitos prêmios para Claire Danes não só porque trata-se de uma mulher que sofre de um transtorno mental, mas porque esse transtorno não afeta diretamente uma das maiores verdades acerca de sua personalidade: Carrie gosta de estar em perigo. A tensão, o medo, o desespero, são a verdadeira zona de conforto dela; e pouco a pouco, ela vai sabotando qualquer alternativa de vida comum. 

Já tivemos vários inícios de temporada que mostraram-na diante de uma real possibilidade de levar uma vida mais tranquila, conseguir um novo emprego, focar-se na criação da filha. Quando as circunstâncias não a puxam de volta pro abismo, ela mesma se joga. Acredito que estamos falando de algo assim nessa sétima temporada, uma vez que a premiere e o segundo episódio parecem ter um perigo espreitando em cada atitude de desespero que ela toma. Inebriada pela ideia de que só ela compreende o que está acontecendo no país, Carrie entra num transe e aí os roteiristas também acabam chegando numa zona de perigo. 

A abertura voltou (e vocês sabem que a odeio) e com ela veio também um reforço a respeito da bipolaridade da ex-agente. Vários offs da abertura entregam um investimento da doença no decorrer desse ano e isso me preocupa um pouco, sobretudo porque já conhecemos todas as possíveis maneiras de explorar esse plot e todas elas começam e terminam da mesma maneira. É claro que não podemos esquecer que Carrie é bipolar, mas talvez já tenhamos atravessado a fase em que isso se torne responsável direto pela sua instabilidade. Pode ser uma saída fácil demais e isso não é bom pro show. 

Caught 

Dramaturgicamente, a série está num lugar muito positivo. A inversão de polaridades proposta pela premiere veio em muito boa hora e também se distribui de forma inteligente: do jeito que está, os roteiristas não vilanizam e nem inocentam ninguém. Desde que pararam de insistir nas dinâmicas entre EUA e Oriente Médio, os criadores do show puderam olhar mais atentamente para o terror dentro do próprio país. E têm feito isso de forma competentíssima, porque não queremos torcer pelos conservadores radicais, mas a Presidente Keane não nos ajuda, soando cada vez mais autoritária e rígida. 

A figura de O’Keefe é abominável. Ele é o típico “comunicador”, líder de uma ordem de ideologia, que não passa de um egocêntrico imbecil, mas que por conta de sua oratória calculada, consegue virar o arauto de uma geração de outros imbecis. Estamos cercados desse tipo de “influenciador”, que tal qual qualquer político ou líder religioso, sabe colecionar seguidores dizendo exatamente aquilo que eles querem ouvir. Obviamente que isso o torna um personagem fascinante. 

Nem tudo são flores, entretanto. Homeland é conhecida por suas travessuras de roteiro e essa sétima temporada não escapou disso. É claro que sabíamos que Saul não ia continuar preso, mas a atitude de dar a ele um cargo tão alto não combina com os métodos da Presidente. Soa providencial demais, embora saibamos que era necessário. Essas incursões de Saul enquanto caça O’Keefe também são importantes para que a atmosfera de ódio que toma conta das pessoas quando incitadas, fique bem evidente. E isso acontece diante dos nossos olhos, enquanto somos acuados pelos dois lados da questão, incertos do que devemos pensar a respeito. Isso é obra de bom planejamento e a série tá se mostrando segura e equilibrada. 

Assim, o plot de Carrie sendo chantageada depois de clicar num link errado num fórum de discussão foi um outro bom investimento dramatúrgico, sobretudo porque é uma abordagem minimalista e nova. Também foi um pouco forçado que o chantagista tenha aceitado sexo em troca dos segredos da ex-agente; e mais ainda que ele tenha aceitado que ela fosse até seu esconderijo. Mas, embora algo pareça estar escondido na relva, aquilo era necessário para continuar construindo o painel de autodestruição de Carrie. Ela está claramente no limite do descontrole, só não sabemos se porque a medicação não funciona ou simplesmente porque ela não aceita estar errada. 

É sempre impressionante ver até onde o ser humano é capaz de ir apenas por conta do exercício do ódio. De repente, ao pensar friamente, não parece que deixamos de falar de extremismo só porque não estamos mais no Oriente Médio. O terrorismo doméstico retratado pelo show é tão assustador quanto… E mortal também.

REVISÃO GERAL
Nota:
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