Em comparação com o All Stars 2 o excesso de confiança sem excelência de trabalho produz uma temporada com menos talento, mas ainda interessante.
A avaliação fria de como se comparam os elencos dos últimos dois All Stars deixam claras algumas perspectivas: Coco Montrese e Ginger Minj tinham mais a cara do All Stars 3 e Ben Dela e Shangela mais a cara do All Stars 2. Chegamos a essa conclusão porque embora todos amemos praticamente todas as meninas que passam por ali, elas são diferentes, se expressam de forma diferente e estudam a cultura pop de formas diferentes. Não podemos culpar Coco por não ser uma boa atriz, mas podemos culpar Shangela por não saber costurar. Talento não se aprende, mas habilidades práticas sim.
Porém, quando você não sabe costurar mas ao menos se levanta no carisma, as coisas se equilibram. O All Stars 2 tinha gente que não sabia atuar, mas tinha muito carisma. O All Stars 3 tem gente que sabe muito bem como costurar, mas que não tem tanto carisma. Essa terceira edição, sobretudo, deixa uma sensação de ter um elenco com menos talento, porque várias das meninas não estudam a arte drag enquanto cultura e mais enquanto visual. Chi Chi, Morgan e Kennedy são alguns exemplos. E há quem até estude, mas que não consegue aplicar corretamente, como Milk, Aja e Thorgy, que se atrapalham ou na emissão das referências ou no egocentrismo.
Acompanhar essas dinâmicas não deixa de ser extremamente interessante. Elas se estabeleceram de forma bem intensa nesse quinto episódio, que ao contrário do que se esperava, não resolveu ainda o plot da vingança.
Dance, little tin Goddess, dance
O mini-challenge está de volta (ele, sempre sacrificado no tempo) e a figura de Andy Warhol virou o ponto de inspiração para a criação de dois looks. Um deles seria uma lata de sopa que representasse a persona drag da participante e o outro que remontasse ao Studio 54, na era disco. Duas referências bem claras e completamente conectadas ao mundo gay e a cultura das drag queens. Ter segurança na hora de trabalhar referências tão icônicas é muitíssimo importante. Não se espera menos que isso de uma verdadeira rainha.
Então, a edição começou a mostrar como Aja estava “espalhada por toda parte”. Para começar, não saberemos nunca de onde ela tirou que é “doce”. Nunca uma própria ideia de si mesma foi tão errada quanto essa. Parecia o mesmo que ouvir Bianca Del Rio dizer que era “gentil”. Poderia até ser, mas isso não faz parte da marca que ela vende. Todos sabem disso, mas Aja estava inebriada de conclusões vaidosas sobre sua persona e foram essas precipitadas conclusões que a lançaram no abismo mais adiante.

Os ataques de superconfiança de Aja são emparelhados com as deficiências de costura de Shangela, que não consegue acertar de jeito nenhum. De certa forma isso é frustrante, porque ela sempre soube que esse era seu problema e não fez nada representativo para poder melhorar. Ben também não sabe costurar, mas se vira bem na montagem de uma roupa só usando cola-quente. Shangela é um desastre maior ainda quando tenta a mesma coisa. Se esse é o Game of Thrones das drags, ela não saber costurar e nem colar um look, é muito decepcionante. Não se espera isso de uma Khaleesi.
É bastante icônico o momento em que a edição mostra que Bebe precisou de Aja para conseguir montar o look que levou-a à vitória. É icônico não só porque ela não menciona a ajuda que teve da colega, mas porque isso não estabelece nenhum peso na decisão que ela toma mais tarde. Toda essa narrativa sendo construída leva Aja até um lugar péssimo de se estar: confiança é bonita, mas não deve jamais ultrapassar o bom senso.
Kennedy apareceu logo em seguida afirmando que ninguém tem que pensar demais em como vai escolher quem mandar para casa. A rejeição dela a qualquer organização nesse sentido é um reflexo direto de como ela mandou Milk para casa: baseada em questões pessoais. Ela realmente precisava se livrar de Milk, mas é mais legal admitir que resolveu por vingança do que dizer que histórico não conta na decisão, o que ela – provavelmente – não vai querer que pensem quando ela é quem estiver no bottom 2.

O inferno de Aja começou logo de primeira. Os jurados destruíram todas as referências dela e ela só ia errando e errando mais a cada tentativa. A queda da autoconfiança foi tão brutal que deu pena. Já Shangela tentou se salvar no carisma e para o público até que funciona. Aquela roupa era realmente monstruosa e esse fracasso não combina com o trabalho que ela veio demonstrando até aqui. No All Stars não há espaço para esse tipo de deslize, é inadmissível. Não costure, mas pelo menos saiba fazer algo decente usando grampos e cola.
Considerando tudo de elegante que remete a Bebe Zahara Benet, foi uma lástima vê-la ignorar Aja no processo de execução de seu tão elogiado vestido. A decepção piorou quando Bebe impediu Aja de sequer se defender, falando por cima dela sem parar e deixando bem claro que sua decisão já estava tomada. Contudo, a grande incógnita era quem seria a escolha de Trixie, já que o jogo virara e ela agora tinha o destino de Shangela nas mãos. Se ela escolhe Shangela e vence, Shangela sai e ela não tem que lidar com isso imediatamente. Mas se ela perde e precisa revelar o batom depois, a escolha por Shangela pode virar um ato de alta traição.

Trixie fez uma piada ótima comentando seu lipsync com Pearl, mas seu humor não a salvou de perder para Bebe. Bebe estava com uma roupa meio Honey Mahogany e eu não vi nada demais na dublagem, mas aquela era uma decisão estratégica de Ru. Bebe recebeu ajuda de Aja para fazer sua roupa, omitiu isso e ainda eliminou a colega. Em termos de jogo isso é bem surpreendente e vai contar caso Aja volte também para se vingar. Não era algo que esperava de Miss Bennet e por isso mesmo é extremamente divertido. Algumas agem assim de modo dissimulado, mas Bebe parecia realmente não ter a menor ideia do quanto tinha sido escrota.
A dúvida é exatamente essa questão da vingança, uma vez que apenas três eliminadas apareceram na passarela quando Alaska e Chad foram chamadas. Uma lida nos spoilers vazados não deixa muito claro o que acontecerá (sobretudo porque embora alguns estejam certos, muitos se provaram errados). Mas, uma coisa é certa: o episódio que vem será tomado de expectativas. Se são apenas 8, como fica o papel da queen retornante já que ela terá apenas mais um episódio antes da final?
Bem, digam o que quiserem, mas RuPaul’s Drag Race All Stars continua pirando nossa cabeça, de um jeito ou de outro, pro nosso puro deleite.















