Ryan Murphy segue seu plano de dominação mundial e a ótima premiere de 9-1-1 mostra que ele está no caminho certo.
O passado das séries de TV é tomado de subestimação. Uma das estrofes da canção Geração Coca-Cola, do Legião Urbana, diz exatamente assim: “Desde pequenos fomos programados a receber o que vocês nos empurraram com os enlatados de USA, de nove às seis”. Essa palavra “enlatados” foi invocada por Renato Russo porque “enlatados americanos” foi como ficaram conhecidas as séries de TV no auge das produções procedurais, entre os anos 80 e 90. A TV era dominada por títulos que contavam histórias isoladas, sem arco central, possibilitando ao público que nem precisasse se preocupar em acompanhar nada. As histórias eram consumidas aleatoriamente e por isso a sensação era de industrialismo e não de arte.
O cenário de tramas procedurais se focava bastante nas “profissões de alto risco”, mas Third Watch, da família John Wells, era um exemplo de produção que tentou pegar quase todas as profissões numa só trama. Bombeiros, policiais e paramédicos eram o foco, mas de vez em quando sobrava tempo para um ou outro profissional periférico. Mais importante: a série foi uma espécie de pré-Grey’s Anatomy, com as vidas pessoais dos trabalhadores servindo como costura central da história. O show era cheio de rostos conhecidos do público e conseguiu uma carreira bem digna com ótimas e intensas viradas dramáticas.
9-1-1 é um híbrido de tudo isso que vimos, mas que tem a marca Ryan Murphy como base mercadológica principal. Brad Falchuk é parceiro antigo de Murphy e juntos eles já tinham produzido Nip-Tuck, que tinham raízes procedurais e falava de cirurgia plástica de modo polêmico e ousado. A ideia em 9-1-1 é abraçar as referências dramáticas de Third Watch e Grey’s Anatomy, passar pelo procedural e desaguar no senso de choque e engajamento que permeia absolutamente tudo que a marca Murphy traz para a TV. Essas referências são assumidas e o aspecto mercadológico do show é um pouco mais acentuado que nas outras obras do showrunner. Mesmo assim, a premiere da série mostrou que o gênero ainda funciona, principalmente se for bem cuidado e bem escrito.
Qual a sua emergência?
Connie Briton vive a atendente do 911, o eficiente serviço de emergência dos EUA. Abby é uma mulher solitária, com uma mãe doente e que a consome quase por inteiro. Com uma narração em off (no melhor estilo crônico lançado por Sex and the City e referenciado em vozes como a de Meredith Grey), a personagem reforça o aspecto melancólico de sua profissão, que inclui não ser capaz de conhecer a totalidade das histórias que cruzam sua linha e nem mesmo receber os abraços de agradecimento dos que são salvos por ela. O roteiro é muito eficiente em sublinhar esses aspectos existenciais não só de Abby, mas de todos os outros. Isso é importante, porque é o que impede o industrialismo das produções do passado.

Imediatamente já conhecemos os outros. Peter Krause faz uma nova tentativa de emplacar um show e vive o experiente bombeiro Bobby, que serve como tutor involuntário do jovem Buck, que compõe a fórmula de sucesso dos experientes versus novatos. Ambos sofrem de compulsões e muito rapidamente a conexão com o público é feita. Encerrando o time de protagonistas temos Angela Basset encarnando Athena, uma policial que está vivendo o drama de descobrir que o marido é homossexual. O episódio tem uma longa cena de discussão entre eles que já mostra a competência do texto de Murphy em contextualizar suas produções com o cenário sócio-político atual. Poucas produções focam na perspectiva feminina em casos como esse. 9-1-1 o faz sem tomar partidos, de uma maneira corretíssima.
O ritmo do episódio é o melhor possível. Há três grandes casos principais e os dois primeiros são inusitados e provam o ponto de vista sobre ser muito importante manter o público surpreso, sobretudo porque a série é vendida como cheia de promessas sobre como o serviço de emergência recebe chocantes solicitações. Já o último caso é bastante comum, mas o roteiro e a direção conseguem torná-lo tão eletrizante que a familiaridade vira um simples detalhe. É o momento do episódio em que polícia, bombeiros e também a própria atendente do serviço fazem um trabalho espetacular diante de uma situação muito perigosa.
Connie Briton tem uma função importantíssima, já que Abby aparece numa estação de trabalho, sozinha, sentada, falando com o telefone e atuar nessas condições, imprimindo tensão e intenção, deve ser dificílimo. Ela dá conta, envolve o espectador e apresenta uma faceta do serviço que é pouco festejada pela mídia: a extrema competência e o impressionante trabalho de inteligência emocional desses profissionais. A personalidade introvertida de Abby ajuda a criar uma conexão quando percebemos como ela cresce e se impõe quando o assunto é o trabalho. Como geralmente acontece nos trabalhos de Murphy, as criações de personagem são calculadas para que nossa preocupação com eles seja inevitável. O final tem tensão, comoção, surpresa e superação. É uma fórmula quase impecável.
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9-1-1 tem tudo para ser um daqueles procedurais que duram muitos e muitos anos, mas a possibilidade seria fortalecida se o trabalho de divulgação do FX fosse mais esmerado. A série estreou sem ser percebida, quase não foi mencionada na mídia e isso sempre faz parecer que o canal está pouco se importando se ela vai vingar ou não. Ainda é cedo, mas se depender da minha torcida, essas complexidades de se lidar com o limiar da vida terão futuro garantido.
















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