Mystery Man tem o desafio e a honra de encerrar uma temporada que consolidou The Crown como show e como uma das melhores produções originais da Netflix (senão a melhor). O elogio não é em vão. O apuro técnico, o cuidado histórico, a escolha do elenco, o roteiro e a direção cometeram pouquíssimos deslizes, tornando a série uma das melhores da atualidade. Construir um drama histórico de qualidade é uma odisseia enorme, principalmente quando boa parte das personalidades representadas estão vivas. A monarquia britânica sempre inspirou a literatura, o cinema e a televisão, justamente pelo poder simbólico que ela possui. The Crown tinha um grande obstáculo pela frente: ser uma lufada de ar fresco em meio a tantas representações da Coroa Inglesa. E a tarefa foi cumprida com louvor.

Benjamin Caron ficou incumbido de dirigir este season finale. Responsável pela direção de outros episódios da temporada, Beryl e Matrimonium, focados na Princesa Margaret, agora sua condução estaria voltada para o outro coadjuvante que recebeu muito destaque nessa temporada: Príncipe Phillip, Duque de Edimburgo. O episódio começa mostrando o príncipe com uma dor no pescoço. Nesta data, em abril de 1962, ele já estava com 40 anos. Representação clássica dos homens da época, essa dor o impossibilitaria de exercer suas atividades físicas diárias. Para resolver o problema, Phillip procura um osteopata, Stephen Ward (Richard Lintern). Este encontro culminará em mais um escândalo para a família real.

The Crown 2x10: Mystery Man [Season Finale]
The Crown 2×10: Mystery Man [Season Finale]
Este episódio preocupou-se em mostrar, mais uma vez, as entranhas da Coroa Britânica e das pessoas que faziam parte dela. Perceber que eles são pessoas comuns e que cometem erros como qualquer um de nós, os humanizam e nos torna cúmplices dessa história. Este é um dos grandes méritos dessa temporada. Ver o primeiro-ministro Macmillan sofrendo com um casamento de aparências, a Rainha Elizabeth tendo que suportar o peso de várias obrigações sobre os ombros ou, até mesmo, o Príncipe Phillip tentando se adaptar a uma vida de regras e de rotina, por vezes, tediosa, engrandecem a trama e nos torna reféns. Ficamos curiosos, ansiosos para conhecer os próximos passos. Os episódios longos, em média de 1 hora, não afastam o telespectador. Mérito do roteiro bem escrito e da história bem dirigida e atuada. Parabéns The Crown.

O mote do episódio gira em torno de uma festa dada pelo osteopata Stephen Ward. O grupo que aparece em uma fotografia torna a coisa ainda mais complexa. A prostituta Christine Keeler (Gala Gordon), o ministro de Guerra John Profumo (Tim Steed) e um suposto espião soviético, o capitão Eugene Ivanov. Mais um escândalo sacudia as estruturas do governo britânico. Simultaneamente, a Rainha Elizabeth recebe a notícia que está grávida e que a mesma é de risco (Elizabeth estava com 37 anos). Foi de cortar o coração ver a soberana procurar o esposo para contar a novidade e perceber que ele não estava lá. O olhar de tristeza e solidão saltaram da tela. Claire Foy, divina novamente.

Como um bom episódio de encerramento de temporada, Mystery Man, retoma alguns dos pontos abordados ao longo desse ano: o casamento de Margaret e Tony (que começa apresentar os primeiros sinais de crise), a relação entre a Rainha e sua irmã e, principalmente, o casamento real. Quando a Princesa Margaret sugere para a irmã que o homem misterioso na fotografia polêmica pode ser o príncipe consorte, os alertas da Rainha acendem novamente. Mais uma tempestade se aproximava do casal.

The Crown 2x10: Mystery Man [Season Finale]
The Crown 2×10: Mystery Man [Season Finale]
Um dos pontos altos do episódio são, sem dúvida nenhuma, as conversas entre a Rainha Elizabeth e o primeiro-ministro Macmillan. Abalado por ter apoiado Profumo, o primeiro-ministro deseja renunciar. Em um primeiro momento, ele é convencido pela Rainha que argumenta que o país precisa de estabilidade e, ela também. Porém, as críticas recebidas à sua liderança, o suicídio de Ward e a descoberta de um tumor, fazem Macmillan ir em frente com a sua renúncia. A soberana é forçada a sair de sua licença na Escócia para resolver a situação, porém, desta vez, é em vão. Elizabeth sente que as coisas estão saindo dos trilhos e acaba expressando sua opinião, em uma das melhores falas do episódio e da temporada:

“Sabe, sou rainha há pouco mais de dez anos. Neste período, tive três primeiros-ministros. Todos homens ambiciosos, inteligentes e brilhantes. Nenhum deles terminou o mandato. Ficaram velhos, doentes ou fracos demais. Uma confederação de derrotistas eleitos”.

Essa frase reforça o que John Grigg afirmou em Marionettes. A Rainha é respeitada pelos britânicos porque é representação de alguém que dá a vida em nome de seu país. Independente dos seus interesses particulares, ela está ali. Diferentemente dos homens eleitos (Leia-se Churchill, Eden e Macmillan), a Rainha tem um dever vitalício para com seus súditos. Ponto para Claire Foy que brilhou novamente nessa cena. A expressão dela, ao falar isso para Macmillan, é a de alguém que não tem esse direito, mesmo que o mundo esteja desabando na sua cabeça. E a crise se agrava quando o novo primeiro-ministro não é alguém de apreço popular.

Neste ponto, temos o clímax do episódio. O Duque de Edimburgo vai dar apoio à esposa, depois da alfinetada da cunhada. Peter Morgan finaliza com essa sequência, o trabalho estupendo desta temporada. A relação entre Elizabeth e Phillip foi uma questão central neste ano. E nada melhor do que terminar a temporada assim. O simbolismo presente nesta cena final é maravilhoso. Há vários minutos de silêncio, enquanto acompanhamos Elizabeth e Phillip convivendo no mesmo espaço, porém, mais distantes do que nunca. Quando, enfim, dialogam, os problemas ficam expostos. E aqui tem uma das poucas coisas que não gostei nesta temporada: esse diálogo. A tentativa de justificar as atitudes de Phillip (leia-se, adultério) como a omissão da esposa me incomodou um pouco. O show tentou, neste ano, humanizar a figura de Phillip e fazer com que a audiência tivesse um pouco mais de interesse por ele, e de certa forma, conseguiu; mas, neste ponto, faltou coragem para ser um pouco mais explicito nas relações extraconjungais do duque. Entendo que estamos falando de uma pessoa viva e seria bem complicado retratar isso, porém isso diminuiu o impacto dos sacrifícios e do sofrimento da Rainha.

The Crown 2x10: Mystery Man [Season Finale]
The Crown 2×10: Mystery Man [Season Finale]
Mystery Man encerra o segundo ano de The Crown com o saldo extremamente positivo. Manter o nível de um show nunca é tarefa fácil, ainda mais quando as expectativas são altíssimas. Essa temporada deixou um gostinho de quero mais e acertou quando resolveu aprofundar nos dilemas pessoais dos integrantes da Coroa. Mesmo que alguns desejassem que a trama fosse mais política e, até mesmo, criticasse os moldes da monarquia, foi ao apelar para relações intimas que The Crown brilhou e, com certeza, manteve todo mundo ansioso por seu terceiro ano.

Passeando pelo Palácio de Buckingham em The Crown e outras curiosidades históricas

– Depois da renúncia de Harold Macmillan, Alec Douglas-Home foi indicado pela Rainha Elizabeth para o cargo de primeiro-ministro. Essa situação não pegou bem para soberana e este foi o último que ela indicou pessoalmente para o cargo.

– O caso Profumo teve grandes repercussões para o governo. O Partido Conservador sofreu várias derrotas para o Partido Trabalhista nas eleições gerais de 1964. Era os anos 1960 chegando e trazendo consigo várias mudanças para Inglaterra.

– Ainda sobre o caso Profumo, as repercussões não foram nada agradáveis para Família Real também. Observem a imagem abaixo.

The Crown 2x10: Mystery Man [Season Finale]
The Crown 2×10: Mystery Man [Season Finale]
– Esta temporada foi a despedida dos atores dos seus papeis. No próximo ano, Olivia Colman (Broadchurch) substituirá Claire Foy no papel da Rainha Elizabeth. Sentiremos sua falta, Claire. Você foi magnífica e que venham mais prêmios. E boa sorte ao novo elenco que está por vir.

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– Elogiei muito a atuação de Claire Foy, porém cabe estender um elogio a todo o elenco dessa maravilha chamada The Crown, principalmente, para Vanessa Kirby.

Até breve e até a próxima temporada!

REVISÃO GERAL
Nota:
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